EMOÇÃO

Samantha Fuller, filha do grande diretor, fala do homem e do artista que ganha retrospectiva no CCBB

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h55

Sam Fuller tinha mais de 60 anos - 63 - quando sua única filha nasceu, em 1975. Samantha Fuller guarda até hoje, como relíquia, a carta emocionada que François Truffaut escreveu a seu pai, exaltando a força transformadora da paternidade na vida de um homem. Ídolo da geração de críticos que fundou a nouvelle vague, Fuller tornou-se uma lenda ainda em vida. É famosa a cena de Pierrot le Fou, O Demônio das Onze Horas, de Jean-Luc Godard, de 1965, em que ele compara o cinema a um campo de batalha e diz que seu ingrediente essencial é a emoção.

Samantha Fuller conversa com o repórter do Estado pelo telefone. Ela vive em Los Angeles e, neste momento, briga com a ausência de fundos para poder concluir um documentário sobre seu pai. Fuller tinha um sonho - queria chegar aos 100 anos para comemorar a data (12 de agosto de 2012) com uma grande festa. Não chegou a tanto - morreu em 1997, aos 85 anos. Mas a festa, de alguma forma, se realizou. Samantha mantém o escritório de seu pai intacto. Os amigos - Wim Wenders, Jim Jarmusch - vieram, sentaram-se na poltrona de Sam, fumaram um charuto, tomaram um drinque (uísque ou conhaque) em sua homenagem, e Samantha filmou tudo.

Ela gostaria de estar no dia 20 em São Paulo - onde começa, no Centro Cultural Banco do Brasil, a retrospectiva dos 24 filmes que compõem a filmografia completa do autor - do artista. "Infelizmente, não posso ir, mas gostaria de estar aí para apresentar cada um dos filmes. Posso parecer obsessiva, mas não me canso de revê-los. Tenho a impressão de conhecer mais e mais meu pai, a partir de sua obra. Meu pai fez filmes de gêneros fortes, viris - westerns, policiais, filmes de guerra. Mas eu percebo como ele se desdobra nas personagens, e não apenas homens. Mulheres, também. As mulheres de meu pai são fortes, como ele."

Um bom exemplo é a Barbara Stanwyck de Dragões da Violência (Forty Guns), um dos três filmes de ação que Fuller fez em 1957 - com No Umbral da China e Renegando o Meu Sangue, onde luziam duas outras mulheres de estirpe, interpretadas por Angie Dickinson e Sarita Montiel. Mas a mulher fulleriana, por excelência, o repórter arrisca, é Constance Towers. "Ah, Constance! Os filmes que meu pai fez com ela, como Paixões Que Alucinam e O Beijo Amargo (de 1963 e 64) estão entre os meus preferidos", ela diz. E acrescenta, como confissão: "Mas gosto mesmo é de um filme pelo qual as pessoas não têm tanto apreço, Cão Branco (de 1982)."

Os motivos podem ser secretos, inconscientes, mas há uma boa razão evidente - Samantha, que tinha 7 anos, participa como atriz. Faz a neta do velho racista que cria o cão do título para atacar os negros. Os deuses sempre enlouqueceram primeiro aqueles a quem queriam destruir no cinema de Fuller. Não por acaso, na revista Cahiers du Cinéma, na fase de capa amarela, o cinema de Sam Fuller era definido como 'demencial'. Outro cinéfilo, o também cineasta Martin Scorsese, reduziu tudo a uma fórmula, na verdade, muito simples e direta - "Quem não gosta dos filmes de Sam Fuller não gosta de cinema."

Samantha é filha de Christa Lang, a quem Fuller dirigiu em 1972, num thriller sugestivamente chamado de Dead Pigeon on Beethoven Strasse - no Brasil, Em Ritmo de Assassinato. Fuller vivia, na época, seu exílio europeu. Samantha criou-se na França. Até hoje lamenta não ter vindo ao Brasil, em 1993, quando Sam filmou, sob a direção de Mika Kaurismaki, um documentário sobre o que seria sua aventura amazônica, nos anos 1950 - Tigrero, A Film That Never Was. "Estava presa pela agenda das aulas. Naquele momento, detestei ser estudante." Os roteiros não filmados são outras relíquias. "Ainda vou publicá-los. São muito bem escritos." Não é só a filha que fala. Samantha tornou-se especialista na obra do pai.

Sabe tudo sobre Sam. "Meu pai começou como jornalista, e isso deixou nele um gosto muito grande pelo factual e pela documentação. Seus westerns, como O Barão Aventureiro, com Vincent Price, sobre a formação do Arizona, são historicamente acurados. Nos filmes de crime, ele coloca o mundo tal como o conheceu nos anos da depressão econômica. E sua visão da guerra é marcada pela experiência da guerra real que conheceu, como recruta, a partir de 1943. Sam combateu na África, na Sicília, na Normandia, na Bélgica, na Alemanha e na Checoslováquia." Ela confessa a grande surpresa que teve ao abrir uma caixa e descobrir a existência de filmes que nem conhecia. Fuller documentou o avanço na Europa. Existem imagens poderosas das florestas das Ardennes, de combates que ele colocou em Agonia e Glória, que fez em 1980, reconstituindo o período em que integrou o Big Red One.

O cinema é realmente uma guerra. E, para Sam Fuller, era uma necessidade visceral. "Meu pai fez a carreira dele como produtor e diretor independente, mas no sistema de estúdios. Não possuímos, minha mãe e eu, os direitos de nenhum de seus filmes. Guardamos somente seus documentos. Mas, embora fosse assalariado, Sam nunca fez filmes pelo dinheiro, mas porque queria expressar alguma coisa, sobre determinado gênero ou assunto. Sam era um maravilhoso contador de histórias, não importa onde nem como. Nas reportagens, livros e roteiros, nos filmes, na cabeceira da minha cama, quando eu era criança."

Samantha nunca deixou de amar esse pai que hoje tem a impressão de conhecer e entender melhor. Seu conselho para os cinéfilos que vão se adentrar na obra de Sam, o grande: "São filmes de um homem que amava o que fazia, que colocou neles sua alma. Gostaria que vocês tivessem por essa obra, e pelo homem, o carinho que tenho."

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