Emoção à flor da pele

De Rouille et d'Os é ótima surpresa no segundo dia de Cannes

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2012 | 03h10

E, após o desastre do primeiro dia, algo se passou ontem no 65.º Festival de Cannes. Foi com o novo filme de Jacques Audiard. O diretor de Um Profeta, vencedor do grande prêmio há três anos, volta à competição com De Rouille et d'Os.

Os dois filmes não poderiam ser mais diferentes. Um se passa numa cadeia, retrata um universo masculino, sombrio. Quase não tem mulheres. O outro é solar, continua abordando a violência, mas a relação agora é entre homem e mulher. Um filme de reconciliação. De um homem com uma mulher, de um pai com seu filho, de um irmão com a irmã. No limite, sobre um homem que se reconcilia consigo mesmo.

Marion Cotillard, você conhece - a Piaf de Olivier Dahan, vencedora do César, do Oscar. Matthias Schoenaerts é um nome mais secreto. O cinéfilo lembra-se dele por Bullhead. Schoenaerts talvez venha a ser a consagração deste Festival de Cannes.

Como Jean Dujardin foi no ano passado, com O Artista. Ambos representam tipos raros de macho e o belga é ainda melhor ator que seu colega francês. Durante boa parte do tempo, Schoenaerts parece só um físico. É brutal batendo, fazendo sexo. À mulher, ele diz que está OP, de operacional. Não nega fogo no seu vigor, embora na cena de nu frontal não seja páreo para o Michael Fassbender de Shame. Na verdade, Schonaerts está o tempo todo representando a impossibilidade de amar, de verbalizar o afeto, o desejo.

Marion chegou belíssima para a coletiva. É alta, usava um vestido leve, os saltos muito altos a deixavam num segundo andar, em relação à plateia de jornalistas internacionais. E ela veio inteira. No filme, a personagem é uma instrutora de orcas que perde as duas pernas num incidente com a baleia gigantesca, na piscina.

Há dez anos, Jacques Audiard admite que não conseguiria fazer este filme. Não havia tecnologia para apagar as pernas de Marion, como ocorre aqui. Como se representa a ausência do corpo? "Eu realmente não sei, um exercício de imaginação, talvez", reflete Marion. Suas cenas de sexo com o cavalão Matthias Schonaerts são intensas, para se dizer o mínimo.

Filho de Michel Audiard, roteirista que foi fundamental no cinemas francês dos anos 1940 e 50, naquele cinema de qualidade que François Truffaut desprezava, Jacques não se assemelha a nenhum outro diretor do país. Ele filma bem demais, toma seu tempo para apresentar os conflitos e os personagens, carrega na ação, mas seu cinema necessita da palavra. Nenhum vínculo com a nouvelle vague, a bavardage, as longas conversas que caracterizam tantos filmes. Depois de Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, e de Baad el Mawkeaa, Após a Batalha, de Yousry Nasrallah, o festival começou.

Cannes, além dos seus 65 anos, comemora os 50 anos de Lawrence da Arábia, e o clássico de David Lean será exibido numa versão restaurada digitalmente. Outro cinquentenário, o de James Bond, e ontem, no Cinema da Praia, foram apresentados O Satânico Dr. No, de Terence Young, com Sean Connery e Ursula Andress, e Cassino Royale, de William Campbell, com Daniel Craig, que roda atualmente Skyfall, de Sam Mendes, com Javier Bardem na pele do vilão.

Jacques Audiard conta que, a par das dificuldades de administração de uma rodagem grande - e complicada - como foi a de De Rouille et d'Os, aqui mesmo em Cannes, teve outro problema para resolver. Marion, que ainda terminava sua participação no Batman de Christopher Nolan precisou voltar com frequência aos EUA. Ele sabia que isso ia ocorrer, mas queria a atriz. Todos querem Marion Cotillard.

No outono parisiense, ela começa a filmar o novo Bahman Ghobadi, do agora oscarizado autor iraniano. Cannes, vitrine do cinema mundial, honrou ontem o diretor turco Nuri Bilge Ceylan. Ele está sendo homenageado pela Quinzena dos Realizadores e, após a exibição especial de Nuvens de Maio, do começo de sua carreira, ministrou uma aula de cinema. Falou da crise que ronda a Europa, da dificuldade para se conseguir dinheiro para filmar - e da necessidade de ousar, de ser criativo. A receita, claro, vale para todo o mundo.

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