Emma e sua divina bruxa

Atriz, roteirista e escritora inglesa fala da carreira, de seu principal papel, o de mãe, e do prazer que foi fazer Dezesseis Luas, que estreia no Brasil dia 1º

NANCY MILLS , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2013 | 02h08

"Muitos dos papéis que me oferecem se inserem em duas categorias", diz Emma Thompson. "Um é da mulher que sempre fala ao marido, 'não os salve. Não cometa esse ato heroico, porque precisamos de você'. E impede que a ação se realize. O outro é daquela que repete 'salve-me'."

"Rejeitei muitos desses personagens. Cresci com uma sensibilidade extremamente feminista, que ainda mantenho."

Certamente ela pode se dar a esse luxo: Emma levou o Oscar de atriz pelo seu papel em Retorno a Howards End (1992) e também pelo roteiro adaptado de Razão e Sensibilidade (1995).

No entanto, ela adorou a chance de trabalhar em Dezesseis Luas, um romance sobrenatural baseado numa novela juvenil escrita por Kami Garcia e Margaret Stohl - previsto para estrear no Brasil no dia 1.º.

"Gostei porque é um drama e um romance", afirma a atriz de 53 anos, numa conversa por telefone de sua casa, em Londres. "Gostei também de o filme estar repleto de mulheres poderosas, tomadas pelo desejo de destruir. Sempre me interessei por bruxas, encantamentos e a natureza oculta da feminilidade."

Encenado numa pequena cidade da Carolina do Sul nos dias atuais, com flashbacks que remontam à guerra civil, Dezesseis Luas acompanha uma família com poderes sobrenaturais. Os estreantes Alice Englert e Alden Ehrenreich interpretam um casal de jovens marcados pelo destino às voltas com segredos de família e uma maldição que pesa sobre ela. No elenco também estão Viola Davis, Jeremy Irons e Emmy Rossum.

Emma interpreta dois papéis. O da conservadora Mrs. Lincoln, que procura expulsar da comunidade qualquer pessoa que seja diferente. E também é a bruxa Serafine, mais pitoresca e extravagantemente maligna. "Serafine é completamente amoral e faz o que quer", comenta Emma. "Claro que eu a adorei."

O objetivo de Serafine é que sua filha (Alice Englert) se converta ao mundo das trevas quando completar 16 anos. Quem se opõe a isso é seu irmão (Jeremy Irons), que luta para a sobrinha escolher o lado da luz.

"Dezesseis anos é a época em que muitas garotas sentem que não têm controle do seu destino", salienta Emma. "Na maior parte do mundo elas não tem nenhuma autoridade sobre o seu futuro ou o seu corpo."

Mas no caso dela foi diferente. Bem antes dessa idade ela já tinha assumido o controle de sua vida e decidido ser atriz. "Fazia aulas de arte dramática e atuei em um monólogo quando tinha 14 anos. Lembro que a resposta da plateia foi estimulante. E eu pensei: 'É o que desejo para o resto da minha vida'."

O que não foi um choque para seus pais, já que a mãe de Emma é a atriz Phyllida Law e seu pai, Eric Thompson, foi ator e escritor. Sua irmã mais nova, Sophie, também é atriz.

"Escolhi o que muitas mulheres da minha geração escolheram", continua a atriz, que formou-se na universidade de Cambridge em 1980. "Queria uma educação. Ser independente. Queria poder me sustentar e não depender de um homem."

Em 2004, Emma, cujo casamento de seis anos com Kenneth Branagh terminou em 1995, casou-se com Greg Wise, com quem contracenou em Razão e Sensibilidade. Eles têm uma filha de 13 anos, Gaia, e um filho adotado de 23 anos, Tindyebwa Agaba, um refugiado ruandês.

Na vida real, o relacionamento da família Thompson é o oposto da de Serafine. Emma vive perto da mãe e da irmã. "Nosso relacionamento é diário e muito divertido."

Desde que Gaia nasceu, em 1999, Emma tira férias mais longas e aparece com maior frequência no papel de coadjuvante. Ela interpretou a professora Sybil Trelawney em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004), Harry Potter e a Ordem do Fênix (2007) e Harry Potter e as Relíquias da Morte (2011).

Mas também estrelou alguns filmes, tendo interpretado uma professora que está morrendo no filme para TV Wit (Uma Lição de Vida, 2001), e faz a personagem título de Nanny em Nanny McPhee - A Babá Encantada (2005) e Nanny McPhee e as Lições Mágicas (2010), cujos roteiros ela escreveu. Também atuou ao lado de Dustin Hoffman na comédia romântica Tinha Que Ser Você, de 2008.

Ela ainda teve papéis importantes em Simplesmente Amor, de 2003, Angels in America (2003), Mais Estranho Que a Ficção, de 2006, e Desejo e Poder, de 2008.

No geral, Emma trabalhou bem menos do que na década passada. "Desde que tive minha filha, o trabalho é menos importante. Gosto de trabalhar, mas adoro ser mãe e ver minha filha crescendo."

Emma tem dois filmes à espera de lançamento. Love Punch, com Pierce Brosnan, e Saving Mr. Banks, um filme biográfico em que ela interpreta P.L. Travers. "Em Love Punch, eu participa de um roubo de joias. Depois interpretei P.L. Travers, que escreveu os livros de Mary Poppins. Faço o papel de uma pessoa marcada por uma infância difícil. É um trabalho que mostra que quem escreve para o público infantil muitas vezes faz isso para a sua criança interior, aquela que foi ferida."

A britânica Emma Thompson também escreve livros. Concluiu recentemente The Further Tale of Peter Rabbit (Warne, 2012) e agora trabalha na história Peter Rabbit Christmas.

Quanto a atuar, espera participar da continuação de Dezesseis Luas, se o primeiro filme fizer sucesso. "Serafine é muito má e capaz de fazer qualquer coisa. Ela é realmente endiabrada e também divina de se interpretar." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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