Paulo Pinto/AE
Paulo Pinto/AE

Emicida, um Mc para as multidões

Artista considera que 'cara feia' e limitação de temas do rap quase aniquilaram gênero, mas o público está de volta

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2011 | 00h00

Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, tem 25 anos e acaba de se tornar pai de Estela, de 1 ano. Teria motivos para estar inquieto, mas esbanja autoconfiança - do programa do Jô Soares à festa dos prêmios da MTV, ele é o rapper paulistano da hora. Acaba de ser confirmado como uma das atrações do Coachella Festival, um dos maiores do mundo, que será realizado em abril em Indio, Califórnia. Também foi confirmado como destaque do próximo Rock in Rio, em setembro, em Jacarepaguá.

O estilo de Emicida, que usa informações da nata da MPB, o tornou uma figura proeminente entre as folhas mais verdinhas da árvore genealógica do hip hop nacional. Emicida presta tributo aos pioneiros com grande desenvoltura. "Simonal, Gerson King Combo, Jair Rodrigues: a gente tem de valorizar isso aí. O Jair Rodrigues, por exemplo, foi um dos primeiros MCs, quando gravou Deixe que Digam, que era uma música falada em cima de uma célula rítmica. Mas ele não quer esse título, não quer ser reverenciado por isso", diz. "É a mesma coisa de quando a Jovelina Pérola Negra cantava Luz do Repente (Já vi partideiro que nunca vacila/Entrando na fila querendo versar). Isso é rap, cara! O rap taí!".

Nas paredes do estúdio de Emicida, na Zona Norte, um quadro todo anotado com canetona Pilot mostra uma agenda pródiga - no final do ano, eram quatro shows por semana. Também há na parede da saleta um grande quadro bordado, uma espécie de estandarte com motivos africanos e do candomblé. "Minha mãe faz isso aí, ela tem uma grande pesquisa sobre a cultura africana", explica.

Craque nas batalhas de rimas do hip hop, foi assim que surgiu seu apelido (junção de MC, Mestre de Cerimônias, com "homicida", o centroavante matador do rap). Fazendo as próprias mixtapes "na mão", vendendo o CD disco a R$ 2, Emicida já amealhou mais de 10 mil cópias. Usa com franqueza e desenvoltura as redes sociais. "Se podemos mudar vidas, que seja para melhor", escreveu no Twitter.

Você está indo a Coachella, que é um dos maiores festivais de rock do mundo. Tem alguma coisa lá que você queira ver, como espectador?

Quero muito ver Kanye West, que não vi quando esteve aqui. E o pessoal do rock: Strokes, Kings of Leon. Gosto do peso das bandas de rock. Antes eu não gostava, mas hoje consigo entender como esses três elementos, baixo, guitarra e bateria, funcionam bem juntos, dão uma infinidade de possibilidades. Ensaiando com o Macaco Bong, eu vi como isso é rico. Durante boa parte de minha vida eu não dei valor a essas combinações. A cabeça do hip hop era radical, não admitia outros elementos. Mas é muito f... ficar usando sample do James Brown a vida inteira. Uma hora essa parada ia desgastar. O rap é uma música que nasce de outras músicas, de outras culturas musicais. É um tiro no pé dizer "dessa água não beberei" e fechar todas as janelas para os outros elementos.

Tem uma frase no twitter atribuída ao Mano Brown que define assim a nova fase dos Racionais MCs: "O som mudou, o estilo mudou, mas o motivo de nossa luta continua o mesmo".

Concordo plenamente. O rap não pode ser o mesmo rap dos anos 80. Claro que 95% do pessoal que está no rap começou para denunciar coisas de seu cotidiano com as quais não concordam, para denunciar a opressão e a injustiça social. Mas aí veio a preocupação também em a gente ter musicalidade. E a musicalidade não vem sozinha. Com ela, vem o desejo de experimentar. É essa a grande muralha que ainda divide a gente: o rap que acha que sua preocupação exclusiva é denunciar, e o rap que quer experimentar, quer buscar o novo.

Você já viveu a experiência de ser chamado de traidor do rap?

Vejo isso aí direto. Mas eu aprendi uma coisa: a pessoa geralmente só fala mal na internet. "Você se vendeu, você gravou com o NX Zero". Eles não dizem na cara.

Por que gravar com o NX Zero?

Gravei Só Rezo com eles. Foi um setembro, outubro do ano passado. E foi uma experiência boa pra caramba. Para mim, faz muito sentido aproximar mais as coisas, porque a gente ainda é muito fechado. É também uma forma de educar, mostrar para as pessoas que nós temos muito mais semelhanças que diferenças.

Outro dia você falava também de sua grande admiração por Claudinho e Buchecha.

Gosto pra c... Não entendo essa coisa aí de dizer que você não pode gostar de Negritude Jr., do Exaltasamba. Não é o povo que não gosta, é meia dúzia que acha que eles não representam, que não são coisa fina. Mas cada um tem sua verdade. Eu sempre fui livre para gostar e para compreender. E, é bom que se diga, as mulheres compreendem muito mais.

Mulher não tem preconceito?

Mulher gosta de sorrir, de levantar as mãos, de bater palmas, de dançar. E esses caras, Claudinho e Buchecha, são a música que marcou uma geração. Uma música que tinha origem no funk, no charme. E tem o lance da origem deles, que eles nunca esconderam. Eram serventes de pedreiro. E fizeram sucesso. Falavam da comunidade. É uma das coisas mais "da hora" da música popular brasileira. Fizeram gente que não tinha motivo para sorrir sair cantando suas músicas.

Ao mesmo tempo, você canta o seguinte verso: "Não vim para trair minhas convicções/Em nome das ambições/E arrebatar multidões/Ao diluir meus refrões". Ou seja: você diz que o artista não pode se vender.

Para mim, se vender é subir no palco e cantar algo que eu não acredito. Agora, se eu achar que Kelly Key é um som maneiro, os caras tão ferrados. O que não quero é perder a essência e a motivação das minhas coisas.

Na música Sei Lá, você diz: "A melhor batida, para mim, é a do coração". Esse é outro ponto: o hip hop nacional sempre teve dificuldade para cantar canções românticas.

E o que a gente se tornou combatendo isso aí? Se tornou uma mentira. Os sentimentos eram negligenciados, colocados em segundo plano. Os caras do hip hop não queriam soar como as músicas que tocavam no rádio. Mas o que importa não é o que você diz, mas a intenção do que diz. Na real, por conta disso aí, o rap não se levantou até hoje dessa limitação dos temas. Bateu muito na mesma tecla.

No programa Manos e Minas, você foi aplaudido pra caramba...

Foi a primeira vez que pediram bis no programa, disse a diretora. Bis é coisa que não tem no rap. Não pedir bis é uma forma dos caras dizerem: "Tamo aqui para ver o talento do mano, mas a gente também não paga pau pra ele, ninguém é melhor que ninguém". Hip hop sempre foi uma cena em que artistas tocam para outros artistas, que fazem cara feia: esse cara tá tirando minha vez. Agora é que está aparecendo fã mesmo, e isso é muito bom.

AS NOVAS CARAS DO RAP

Xará

Xará é Igor de Mello Alves, MC de Campinho, subúrbio do Rio, Produzido pelo francês Damien Seth, domina a nova cena do hip hop usando com habilidade bases que vão do samba rock de Cassiano, Tim Maia e Bebeto à música orgânica de metais e teclados. Sua máxima filosófica: "Rap não pode ser produzido em série".

Flora Matos

MC (foto) de Brasília, vive em São Paulo, onde já granjeou fama como uma das mais promissoras cantoras de rap do País. Já foi produzida por Mano Brown e também corre o circuito a bordo de sua primeira mixtape, Flora Matos X Stereodubs.

Rincon Sapiencia

Codinome de Danilo Albert Ambrosio (seu outro apelido é Manicongo, que será título de seu CD de estreia). Rapper que integra o selo do rapper Kamau, chegou a ser indicado ao Video Music Brasil 2010. Também participou do disco do NX Zero no ano passado.

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