Emergente paralisia

O ano vai se acabando, sem deixar saudades, e o governo Dilma Rousseff continua paralisado, mesmo ou principalmente quando finge se mexer. Na mesma semana em que a presidente se referiu à necessidade de "um salto na educação e na tecnologia", por exemplo, seu governo tomou mais algumas decisões que provam que sua preocupação maior é com o crescimento do PIB em 2012, pois já desistiu de 2011. Queda dos juros oficiais e redução de impostos pontuais se somam a outra declaração da presidente, que conclamou os brasileiros a não pararem de consumir. Ou seja, o que o governo estimula mesmo é o crescimento por meio do consumo e de alguns gastos públicos, como tem sido nos últimos anos; quase nada faz em favor da produtividade, do aumento dos investimentos (sempre abaixo de 20% do PIB) e do desenvolvimento humano. E ainda divulga a expectativa altamente improvável de que o Brasil cresça mais de 4% no próximo ano com a inflação longe do teto de 6,5%. Conte outra.

O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h07

Enquanto a opinião pública, mais vazia que as praças de Brasília, insiste em discutir ainda Lula x FHC, a República continua igual. A Comissão de Ética recomenda a exoneração de um ministro sobre quem pesam fortes acusações e que já admitiu irregularidades no cargo, mas a presidente se recusa em demiti-lo. A arrecadação oficial não cessa de crescer muito acima do PIB, garantindo o superávit que agrada ao mercado financeiro, mas em compensação as empresas produzem menos e os cidadãos consomem menos, tanto que cerca de 60% vão usar o décimo terceiro salário para cobrir dívidas; isso sem falar, por exemplo, nas escolas privadas que aumentam a mensalidade acima da inflação. Títulos públicos são postos à venda, ancorados na maior taxa do mundo, mas muita gente comemora matérias na imprensa internacional - como a da revista The New Yorker - que falam sobre os avanços brasileiros, por mais que notem que os serviços sociais como educação, saneamento e segurança são péssimos.

Esses avanços não foram apenas os do aumento do emprego, controle da inflação e alguns índices sociais que as políticas de FHC e Lula ajudaram a consolidar de 1995 para cá; foram também os de perfil populacional, como mostrou nesta semana o censo do IBGE, com queda na fertilidade média - a tal "janela demográfica" que poderia ser aproveitada nos próximos 20 ou 30 anos, antes que o envelhecimento da população traga custos de previdência insolventes. Mas tudo isso ainda é muito pouco para ter um país sério, realmente desenvolvido, que cresça de forma consistente, ou seja, com queda mais acelerada das desigualdades. Não adianta dizer, como dizem os pesquisadores governistas, que uma família que ganha R$ 1.500 por mês é de classe média. Enquanto alguns Estados como Alagoas, da família Collor, e Maranhão, da família Sarney, exibirem dados como o de que 80% das residências não têm acesso ao esgoto, o Primeiro Mundo continuará a um oceano de distância.

Há ainda muito a mudar ainda, ainda que o neoconservadorismo tucano-petista diga que não. Na epígrafe de seu breve e divertido livro sobre A História das Constituições Brasileiras, Marco Antonio Villa usou Machado de Assis: "Há uma série de fatores, que a lei não substitui, e esses são o estado mental da nação, os seus costumes, a sua infância constitucional". Comentando o Estado Novo e a Constituição de 1937, Villa nota que houve então "o maior deslocamento ideológico da história do Brasil": a conversão do ditador Getúlio Vargas em um democrata, um prócere da esquerda nacionalista. O legado oligárquico-sindical da Era Vargas segue dando as cartas em 2011, blefando com nosso futuro. Analisando as contradições e aberrações da Constituição de 1988, que tentou normatizar todos os aspectos da vida social e econômica (determinando até a taxa de juros anual), Villa lembra que é a mais emendada Carta do mundo: os governos FHC e Lula fizeram nada menos que 62 emendas; a Constituição dos EUA teve, em 224 anos de vigência, não mais que 27 emendas.

Para abrir o estado mental da nação, não bastam novas leis ou pacotes. É preciso não se contentar com certa estabilidade da economia cotidiana e certo gradualismo nas estatísticas sociais. O que há a fazer é propor e executar o tal salto na educação e tecnologia, como fizeram ou estão fazendo outras nações emergentes, como Índia, Coreia do Sul e China. Mas para isso necessitamos de uma sociedade mais crítica e combativa e de alguns governantes que não se vendam à inércia. Dilma, que aprecia livros como A Educação de Henry Adams e O Mar, de John Banville, poderia propor agenda mais ampla para o país que governa. Optou, porém, pela leniência na ética e na economia, como se fosse mais uma vítima do "você sabe como são as coisas no Brasil". Sim, nós sabemos.

Clássicos & comerciais. Já está nas livrarias Guerra e Paz, de Tolstoi, na tradução direta do russo feita por Rubens Figueiredo (editora Cosac Naify). E também o quinto volume, A Prisioneira, do ciclo Em Busca do Tempo Perdido, de Proust (editora Globo), esperado por muitos leitores. Releio a parte final, repleta de comentários e analogias sobre literatura, pintura e música, que Proust usa para comentar a relação do narrador com Albertine. Muito se fala sobre o ciúme que ele sente, mas pouco se nota que nada tem a ver com amor: não é o ciúme de quem não quer perder a amada, mas de quem está mais preocupado consigo mesmo. "Minha vida com Albertine não era, de minha parte, quando eu não tinha ciúmes, senão aborrecimento. Admitindo que houvesse felicidade, esta não poderia durar." Ele não a ama, enfim. Proust anteviu muito do narcisismo dos relacionamentos contemporâneos, em que o outro ou é commodity ou é incômodo.

Cadernos do cinema. Inquietos, de Gus Van Sant, ganhou elogios exagerados, mas é um filme como seu casal protagonista (Mia Wasikowska e Henry Hopper): bonitinho e esquisito. Ele é órfão, tem o hábito de visitar funerais e cultiva como amigo imaginário um camicase, com o qual joga batalha naval. Ela tem câncer cerebral, adora Darwin e, como é comum nessa idade, é bem mais madura que ele... Claro, ficam apaixonados e aproveitam o pouco tempo que têm, mas sem a inquietude do título brasileiro (Restless é o original); são em essência doces e comportados, por mais que ele tenha de aprender a lidar com nova perda afetiva. O filme se passa assim, como um delicado conto juvenil, sem deixar grandes cenas ou falas na memória.

De la musique (1). Toda vez que sai CD de Tom Waits uma pequena multidão internacional fica ansiosa por ouvir novas canções daquele que o historiador Simon Schama chamou de Kurt Weill da América. Bad As Me, lançado agora, tem altos e baixos, estes principalmente quando Tom prefere latir em vez de cantar e trocar balada por batida. Mas quando vem uma de suas melodias simples com letras inesquecíveis, como em Talking at the Same Time ("Todo mundo está falando ao mesmo tempo"), Back in the Crowd ("Se você não me ama, me devolva à multidão") e New Year's Eve ("Parecia que eram quatro da madrugada") não tem para quase ninguém.

De la musique (2). André Mehmari está soltando a voz, no sentido literal e figurado. Em Canteiro, CD quase todo de canções suas em parcerias diversas (como Luiz Tatit e Carlos Fernando), interpreta algumas ele mesmo, passa por diversos gêneros, distribui citações e se afirma como melodista, sobretudo em faixas como Cruce, Meia Lágrima (cantada pelo talentoso português Antonio Zambujo) e Pra Amada Imortal. Dificilmente são canções que vão chegar às rádios e telenovelas, mas azar das rádios e telenovelas. Como se não bastasse, o CD Afetuoso o traz em trio com Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho, que interpretam canções suas e de outros autores, como Schumann, Caymmi e Milton Nascimento.

Por que não me ufano. Saio para uma caminhada no bairro numa quinta de manhã. Na rua transversal, vejo um "noia" assaltando uma mulher no carro com janela aberta. Um quarteirão mais abaixo, gesticulo para um carro parar antes que atropele um carrinho de criança que a mãe começou a empurrar com o sinal ainda verde para ela. Depois da praça, vou cruzar a rua e me deparo com um carrão dirigido por uma senhora bem em cima da faixa de pedestres. Em menos de 500 metros, tenho motivos de sobra para lembrar o grande Millôr Fernandes: o ser humano é inviável.

Aforismo sem juízo

Quem não tem o que dizer

se dedica a aparecer

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.