EMC reafirma seu credo libertário

Nos CDS: Tabula Rasa, com obras de Arvo Pärt, e Officium Novum, com Jan Garbarek e The Hilliard Ensemble

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2010 | 00h00

Em 2009, a gravadora ECM de Munique comemorou seus 40 anos de atividade, iniciada com Free at Last, CD do pianista de jazz Mal Waldron. Pode-se traduzi-lo como "enfim livre" - e é justamente esse credo libertário que a ECM vem praticando com muito êxito nestas quatro décadas. Neste fim de ano, ela volta a fazer festas. Desta vez em torno de dois de seus mais celebrados CDs: Tabula Rasa, com obras do compositor estoniano Arvo Pärt; e Officium Novum, que reúne o saxofonista de jazz norueguês Jan Garbarek e o quarteto vocal britânico The Hilliard Ensemble. O primeiro, lançado em 1984, marcou a entrada da gravadora nos domínios eruditos (com destaque para a outra produção contemporânea, a dos países que giravam na órbita soviética, com destaque para o Leste Europeu). Manfred Eicher, o capo que até hoje dirige o selo, chamou-o de "ECM new series".

Já vendeu mais de 500 mil cópias - sim, isso mesmo, um CD de música erudita contemporânea pode atingir o grande público - nestes últimos 26 anos. Mas Eicher comemora, basicamente, os 75 anos de Arvo Pärt. Quando o CD foi lançado, em 1984, Pärt era praticamente um desconhecido; hoje, é celebrado no mundo inteiro. A luxuosa edição comemorativa de Tabula Rasa traz todas as partituras das obras executadas no CD e se dá ao luxo de incluir até as partituras de trabalho do compositor em processo de criação.

Repertório e músicos são também hoje igualmente celebrados. Obras como Fratres, Cantus in Memoriam Benjamin Britten e Tabula Rasa estão entre as mais frequentemente tocadas e gravadas em todo o mundo. E entre os intérpretes estão o pianista Keith Jarrett e o violinista Gidon Kremer (em Fratres, também mostrada na versão para orquestra de violoncelos, com os Doze Violoncelistas da Filarmônica de Berlim). Kremer junta-se à violinista Tatiana Grindenko e ao compositor russo Alfred Schnittke no piano preparado para a execução, ao lado da Orquestra de Câmara Lituana, regida por Saulius Sondeckis, para a interpretação da faixa-título Tabula Rasa.

Em duas palavras: 1) são todas versões de referência dessas obras; e 2) é mais que uma delícia, é fundamental acompanhar as performances com as partituras. Sei que é um sonho impossível, mas seria formidável sempre ter à mão (pode ser na web) as partituras em todo e qualquer CD clássico/contemporâneo.

A outra festa da ECM celebra o lançamento do terceiro CD do projeto Officium, de Garbarek e The Hilliard Ensemble. E é boa amostragem da outra marca do selo. Não é exagero afirmar que, nesses pouco mais de 25 anos, a ECM New Series mudou o panorama da música contemporânea. Explico: naquele momento, valorizava-se demais apenas a chamada "neue musik", a vanguarda mais radical. E Eicher, o capo da ECM, deu espaço para as outras músicas contemporâneas, até então marginalizadas. São músicas mais acessíveis, com pitadas metafísicas e/ou religiosas, de caráter contemplativo - justamente uma característica ampla que o jazz da ECM sempre privilegiou.

Garbarek e The Hilliard Ensemble juntaram-se em 1993 para gravar Officium. Revolucionaram o mercado, pois a insólita formação explorava de modo original - Garbarek improvisava sobre a performance do quarteto vocal.

No repertório, música antiga e contemporânea. O CD vendeu várias centenas de milhares de cópias e cinco anos depois eles repetiram a dose com igual sucesso de público e crítica. Agora, em 2010, acabam de lançar Officium Novum, em que misturam Pärt com música bizantina, Pérotin (uma sensacional Alleluia, Nativitas, do século 12), com Komitas, padre-compositor armênio morto em 1935. Mas o foco principal continua sendo a música do Leste Europeu, com ênfase na criação armênia. O esquema é Garbarek improvisando solto sobre as refinadíssimas leituras do quarteto vocal britânico, num arco histórico de nove séculos.

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