Paul Kolnik/Divulgação
Paul Kolnik/Divulgação

Embaixadores da Dança

Novo diretor da companhia de Alvin Ailey fala sobre turnê pelo Brasil

Tonica Chagas/ Nova York, Especial para o Estado

22 de julho de 2013 | 12h18

Em setembro, o coreógrafo Robert Battle estará pela terceira vez no Brasil, por onde passou em 1995 e 1998 como bailarino da Parsons Dance. Mas, aos 40 anos de idade, ele desembarca desta vez como um dos nomes de maior destaque na dança internacional, na qualidade de diretor artístico da Alvin Ailey American Dance Theater, que se apresenta no Rio e em São Paulo.

Judith Jamison, bailarina e musa de Alvin Ailey desde 1965 e ungida por ele para sucede-lo na direção da companhia, foi quem escolheu Battle para o cargo, dois anos atrás. Formado pela Juilliard School, o novo diretor começou sua relação com a Alvin Ailey há 14 anos, quando foi chamado a criar uma coreografia para a Ailey II, que é dedicada a jovens bailarinos e coreógrafos. Desde então,criou balés também para a companhia principal e foi artista em residência na Ailey School por dois anos.

Battle é apenas o terceiro a ocupar a posição na linha de frente da companhia criada há 55 anos e nomeada pelo Congresso Americano como embaixadora cultural dos Estados Unidos. Com seu jeito tímido e quase sempre sorridente, a intenção dele é compor um pas de deux harmonioso entre presente e passado. “O passado não é um peso, ele é a razão pela qual estamos aqui”, diz o novo diretor. “É importante manter vivo o passado da companhia porque o passado é o presente.”

Num dos períodos mais duros na luta por direitos civis nos EUA, Alvin Ailey (1931-1989) formou e dedicou seu grupo a fim de preservar as raízes culturais africanas do negro americano e, com isso, enriquecer a dança moderna no seu país. Embora tenha criado cerca de 80 balés, ele afirmava que a companhia não era um nicho exclusivo do seu trabalho e sua missão era apresentar obras importantes do passado e comissionar trabalhos também de novos coreógrafos.

Battle quer continuar enriquecendo essa história “cativando bailarinos e buscando obras que se alinhem a essa missão”. Ele já demonstrou isso na temporada de estreia como diretor artístico, no ano passado, com premieres, novas produções e alguns clássicos favoritos da Alvin Alley American Dance Theater. O programa escolhido para a temporada brasileira segue essa estrutura de combinações, repetindo algumas peças que estrearam no repertório da companhia em 2012.

A turnê marcada para setembro será a quinta viagem da companhia Alvin Ailey pelo Brasil. Em 1963 no Rio, em 1978 em São Paulo, e novamente no Rio em 1981, tinha seu fundador no comando; em 1998, quando foi vista nessas duas capitais e também em Salvador, Curitiba e Brasília, a direção artística era de Judith Jamison.

“Ir ao Brasil é realmente importante para mim”, diz Battle. “Estou muito entusiasmado em voltar agora como diretor da Alvin Ailey porque me lembro como a resposta do público tinha uma energia esmagadora e será muito bom para os nossos bailarinos sentirem o quanto dividimos com os brasileiros a influência cultural africana.” Mas ele ainda se sente intimidado pelo ritmo de São Paulo, que acredita ser mais intenso do que o de Nova York. “Assim que se põe o pé para fora da porta, vem uma onda de gente e você não pode parar nem para pensar aonde vai!”

Como nas visitas anteriores, os dois programas da próxima temporada no Brasil são coroados pelo clássico dos clássicos da companhia, Revelations, balé criado por Ailey em 1960. Provavelmente a mais vista das peças de dança moderna no mundo, Revelations foi inspirada pelas memórias que Ailey trazia de sua infância no Texas. Embalada por músicas religiosas, ela lembra batismos, conversas na varanda, festas e sentimentos profundamente enraizados na população negra americana, uma herança cultural que é, segundo o coreógrafo, “às vezes pesarosa, às vezes jubilosa, mas sempre esperançosa”. Nessa mesma linha vem Grace, balé que o nova-iorquino Ronald K. Brown criou para a Alvin Ailey em 1999 e também se tornou um dos destaques da companhia.

Já parte do seu projeto de trazer novas coreografias para o repertório da companhia, Battle incluiu no programa a estreia mundial de Four Corners, mais recente trabalho de Brown. Inspirada em textos do poeta e artista multimídia Carl Hancock Rux e numa visão de quatro anjos segurando quatro ventos nos quatro cantos da Terra, Four Corners tem um toque de Brasil: um dos parceiros de Rux na trilha da coreografia é o amazonense Vinícius Cantuária, que vive nos Estados Unidos desde meados da década de 1990. Outra estreia neste programa é From Before, simbiose de ritmos africanos e música caribenha criada em 1978 por Garth Fagan. É a primeira obra do coreógrafo jamaicano encenada fora da Garth Fagan Dance.

Minus 16, do israelense Ohad Naharin, é um dos primeiros grandes desafios apresentados aos 30 integrantes da companhia por seu novo diretor artístico. A peça é de 1999 e reúne trechos de outras criações de Naharin baseadas na linguagem de movimentos desenvolvida por ele, o “método Gaga” (sem relação e anterior ao surgimento da cantora pop Lady Gaga). “Ela é diferente de tudo o que já fizemos, estimula a improvisação e quebra a barreira entre os dançarinos e a plateia”, diz Mathew Rushing. Diretor de ensaios e artista convidado da companhia, da qual participa há 20 anos, Rushing diz que Battle está dando ao elenco “opções artísticas, com reverência ao passado e a visão no futuro”.

No programa estão ainda dois trabalhos do próprio Battle: o dueto masculino Strange Humors, que ele coreografou em 1998 para a Parsons Dance, e o solo masculino, velocíssimo e cheio de humor Takademe, de 1999, feito em cima de um scatting da cantora inglesa, filha de indianos, Sheila Chandra. “Adoro a articulação, o ritmo, os gestos da dança indiana”, conta Battle, ao lembrar que criou Takademe na sala do apartamento de um amigo. “Por isso ela ocupa um espaço tão pequeno no palco”, explica.

Espaço é o que não falta hoje para as ideias dele. A sede da companhia que dirige, na esquina da 9ª Avenida com a Rua 55 (que naquele trecho leva o nome de Alvin Ailey), em Manhattan, ocupa um edifício de dois subsolos e seis andares quase totalmente de vidro; dois dos 12 estúdios são exclusivos para os ensaios da Alvin Ailey. É o maior prédio dedicado exclusivamente à dança na cidade que se intitula a capital da dança. Ali, a companhia principal está começando os ensaios de cinco novas coreografias escolhidas por Battle para sua temporada de fim de ano.

 

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