Emanoel Araújo deixa a Pinacoteca depois de 10 anos

A partir de domingo, dois dentre os mais bem-sucedidos dirigentes de museu do Brasil, ambos de sobrenome Araújo, começam a enfrentar o maior desafio de suas vidas. Marcelo (leia entrevista), funcionário de carreira do Museu Lasar Segall por mais de duas décadas, vai se colocar a pergunta: o que fazer com a Pinacoteca? Já Emanoel (leia entrevista), que por dez anos confundiu o seu nome com o do museu encravado na Luz, promovendo sua espetacular ressurreição, tem pela frente uma dúvida existencial de outra natureza: como viver sem a Pinacoteca?Por indicação de Emanoel, Marcelo será o novo diretor do centenário museu, hoje uma das mais respeitadas - e visitadas - instituições de arte do Brasil, que até o início dos 90 se encontrava praticamente às moscas. Após promover uma reforma de R$ 10 milhões, aumentar o acervo em quase mil obras e colocar a Pinacoteca no coração dos paulistanos, Emanoel dá sua tarefa por concluída e diz que agora vai se dedicar à sua carreira artística - ele é escultor e gravurista, dono de um estilo que já foi classificado como afro-minimalista.Mas não é só: o carismático baiano de Santo Amaro da Purificação guarda na manga dois projetos grandiosos: criar um novo museu que reflita a diversidade do Brasil, a partir da herança afro-brasileira e seu imaginário, na região da Luz, e ainda um Museu da Cultura Popular, no prédio do antigo Dops.Menina dos olhos - Emanoel já era um artista de renome e acabava de ser convidado para dirigir o Museu de Arte da Bahia, quando o jovem Marcelo Araújo, paulista do Vale do Paraíba, então com 24 anos, começou como estagiário do Museu Lasar Segall, em 1981. Depois foi promovido a museólogo. Em seguida veio o cargo de chefe do Departamento de Museologia. Desde 1997, ao lado de Carlos Magalhães, era diretor do museu, onde definiu uma política para a instituição, que incluiu a popularização da obra de Segall, projeto que levou obras do expressionista para todo o Brasil, além de Berlim, Dresden, Chicago, Nova York, Paris e culmina, em 2002, com mostras na Cidade do México e Buenos Aires. Hoje, mais de 20 anos depois de ter dado início a uma sólida carreira como museólogo e curador, Marcelo limpou as gavetas e deixou a pacata casa modernista da Vila Mariana, onde viveu o pintor expressionista de origem lituana.Marcelo assume em um momento delicado, já que o grande "mecenas" da instituição, Marcos Mendonça, interlocutor privilegiado de Emanoel, está deixando a cadeira de secretário de Estado da Cultura para concorrer a uma vaga de deputado estadual.Foi a dobradinha Emanoel-Mendonça que transformou um mero depósito de obras de arte em um modelo de instituição, hoje reconhecido internacionalmente. A Pinacoteca foi a menina dos olhos da gestão Mendonça, que apostou na região da Luz todas suas fichas, até mesmo em detrimento de outros órgãos do patrimônio do Estado, como a Casa Modernista, há anos fechada ao público por conta de um interminável restauro, o Museu da Imagem e do Som e o Museu da Casa Brasileira, ambos à deriva.Curiosidade histórica: diferentemente do que se acredita, a Pinacoteca não foi criada pelo Liceu de Artes e Ofícios, mas pelo governo do Estado de São Paulo. Essa relação, quase umbilical, talvez ganhe novos contornos agora que seus dois mais destacados protagonistas deixam o palco.Marcelo terá sob seu comando um museu gigantesco, que tem 12 mil metros quadrados de área, o mais representativo acervo de arte brasileira dos séculos 19 e 20 (com 5 mil obras) e que, só ano passado, realizou quase 50 exposições e eventos artítiscos, recebendo 800 mil visitantes - 300 mil só para ver a mostra Rodin - A Porta do Inferno.Entre os projetos do novo diretor, além de consolidar as conquistas de Emanoel, está divulgar o acervo da Pinacoteca em outros Estados do Brasil e também internacionalmente. Outra proposta de Marcelo é investir na arte-educação dentro da Pinacoteca, além de promover uma reflexão, interna e com o público, sobre a história da instituição.

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