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Ignácio de Loyola Brandão
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Em uma varandinha no céu

Até que enfim, passados os 80, eu ia voar de helicóptero. Pensei que seria táxi, Uber. Susto e alegria

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2020 | 03h00

Precisava entrevistar algumas pessoas para um livro institucional que começo a estruturar. Para isso, deveria ir a uma fazenda no interior do Estado. Era gente que trabalhara 40 anos com meu personagem, tinham histórias a contar. Marcado o dia, liguei para combinar local e horário, a pessoa encarregada avisou: “Esteja no Blue Tree Hotel na Faria Lima, o helicóptero sai às 9”. Helicóptero? Imaginei que seria um táxi, Uber, Van, Kombi. Susto e alegria.

Até que enfim, passados os 80, eu ia voar de helicóptero. Estes sempre me lembraram a poética e assustadora sequência de Apocalypse Now, de Copolla, voando ao som de A Cavalgada das Valquírias, de Wagner. Ou os resgates salvadores de crianças pelos Médicos Sem Fronteiras. Ou ainda o gesto (hoje anacrônico) do playboy Gunther Sachs, no início dos anos 60, despejando de um helicóptero milhares de rosas sobre a casa de Brigitte Bardot em Saint-Tropez. Casaram-se, durou pouco.

Achei que já tinha andado de tudo. De carroça, charrete, carreta, trole, carro de boi (em Vera Cruz, na infância), carriola, furgão, triciclo, cadeira de rodas, bicicleta, garupa de moto, trem, vagoneta, teleférico, barco a remo, lancha, traineira, navio de cruzeiro, avião, jipe, gôndola (ah, em Veneza, em 1998, minha sogra, Marize, uma soprano, cantou Vissi d’Arte, de Puccini, outras gôndolas paravam e aplaudiam e um casal de japoneses recém-casados gritou arigatô e a noiva jogou o buquê para nosso barco), patinete, carrinho de rolimã, jipe, lambreta (na garupa), Romi-Isetta, bonde, calhambeque, balsa, jangada (no Ceará), teco-teco, locomotiva (meu tio foi chefe de estação na EFA), carrinho de pedreiro (meu irmão Luis empurrava). Até entrei na Apolo 11 que foi à lua, mas ela estava colada ao solo do museu Smithsonian. Reconheço, nunca subi em jet ski nem em balão e prancha de surfe.

Desliguei o fone e, claro, contei em família e para amigos. Para mim, era comemoração. Mas um decidiu lembrar o Boechat, o outro o Ulisses Guimarães, o terceiro citou o filho do então governador Alckmin, trouxeram até a modelo Fernanda Vogel. Quase falaram do Titanic. Mas eu precisava ir. Fui.

O piloto assumiu seu lugar, pensei: se ele vai, vou também. Não posso usar aqui a palavra bitelo, para coisas grandiosas, porque a aeronave (como dizem os aeronautas) é pequena, delicada, uma gracinha. Uma caixinha de vidro, ou de policarbonato, com visão total para todos os lados. Frágil, quase um beija-flor, ele subiu. Subiu e estabilizou. Imaginava que fosse ao infinito, como os aviões de carreira. Nada. Ele quase toca o alto de arranha-céus imensos. Voa com o bico para baixo e investe, o vento lhe dá umas sacudidelazinhas, nada sério. O que nos fascina é a visão. 

Nos aviões, você fica espremido na janelinha, vê apenas segmentos da cidade. No helicóptero, me veio a sensação de estar em uma varandinha voadora sentado em uma cadeira de balanço. A visão é de 180 graus. Então, me dei conta da avassaladora extensão de São Paulo. Absurda, assustadora, desigual. Sobrevoamos bairros densamente povoados, sem uma única árvore. Trechos de parques, regiões de prédios, prédios, prédios, prédios ligados a favelas, ou comunidades, formigueiros humanos. Súbito, há um morro e em cima dele a megamansão, qual castelo feudal, quadra de tênis, piscina. Rico e solitário? Bobagem, nossos padrões são diferentes. A cidade se derrama como lava. Abaixo de mim estavam 18 milhões de habitantes, cada um com seu problema, reivindicação, necessidade, desejo, ideia. 

Galpões gigantescos, depósitos, as rodovias Bandeirantes e Anhanguera, estradinhas vicinais ziguezagueando, atalhos que chegam ao nada, viadutos se enroscando, eucaliptais. Veio-me o antigo slogan: “Do pinheiro ao livro, uma realização Melhoramentos”. Desta região saíram livros que li na infância, O Patinho Feio, O Cisne Negro, Ali Babá e os 40 Ladrões, A Bela Adormecida, A Gata Borralheira, O Gato de Botas, Pinóquio, Robinson Crusoe e mais, mais, mais. Breves tremores, assusto-me, recomponho-me. Estou gostando. 

São Paulo não tem fim. Então, espantado, posso até dizer deslumbrado, inquieto, perguntei: o que leva alguém a querer comandar, organizar, administrar este dinossauro pré-histórico, indomável? Um insensato, alguém fora de si? A ambição política me é estranha. O poder? Somente o sonho de um desequilibrado, um ensandecido, um sem noção, ou sem loção, como dizem os muito simples. Ou um endiabrado delirante, lunático. No fundo, acho que, na verdade, somente um idiota almeja um cargo desses. Então, por falar em idiota, me lembrei que já temos um governando o País. Os prefeitos buscam uma utopia, mas já viram a megacidade de cima alguma vez?

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR de ‘ZERO’ E ‘NÃO VERÁS PAÍS NENHUM’

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