Em torno do pioneirismo do romance 'Os Miseráveis'

Centenário da conclusão do manuscrito da obra de Victor Hugo abriu espaço para a reflexão sobre sua gênese

14 de maio de 2010 | 20h22

No próximo dia 22 completam-se 125 anos da morte de Victor-Marie Hugo, em Paris. Hugo nasceu em Besaçon, no dia 26 de fevereiro de 1802.

 

 

Brito Broca analisa a obra do escritor francês no Suplemento Literário de 15.7.1961

 

 

SÃO PAULO - Embora só em 1862, Victor Hugo, no exílio, viesse a publicar "Os Miseráveis", foi a 30 de junho de 1861 que ele terminou de escrevê-lo. Julgamos, pois, oportuno, neste momento, um comentário a respeito dessa obra tão típica da ficção romântica. Acresce a circunstância de José Camby (escritor cujo nome estamos vendo pela primeira vez) haver divulgado no número de 17 de junho último do Figaro Litteraire" documentos inéditos sobre a conclusão do romance. A idéia de "Os Miseráveis" vinha trabalhando Victor Hugo desde 1820. Diz José Camby que nessa ocasião, visitando o presídio de Toulon, o escritor tomara várias notas, principalmente sôbre o forçado Pierre Maurin, do qual faria o tipo de Jean Valjean. Mas em "Choses Vues", admirável recolta de reportagens (e seja dito de passagem que Victor Hugo foi um magnifico reporter. Não sendo geralmente conhecido esse aspecto de sua personalidade literária) já o romancista descreve uma visita a Conciergerie, quando, na qualidade de par de França, durante o reinado de Louis Philippe, foi ali recebido com a maior consideração. Percorreu todos os recantos da prisão inclusive as celas reservadas para os menores, sobre os quais nos dá impressões interessantissimas. E essa página de reportagem, no melhor sentido da palavra termina com um detalhe anedotico, que gostariamos de relembrar aqui. Ao deixar o presídio pela porta dos fundos, Victor Hugo defrontou-se com dois operários, que passavam por ali, no momento, e ouviu o comentário que foram fazendo: - "Esse, pelo menos, já conseguiu ir para a rua..."

 

Em 1845, o escritor contratou com os editores parisienses Renduel e Gosselin um romance, cujo título seria "Misérias". Era o esboço de "Os Miseráveis". A obra se foi desenvolvendo lentamente, nela revertendo Victor Hugo muitas das experiências que ia acumulando. Também no primeiro volume de "Choses Vues" temos uma página sobre a origem de Fantine. Victor Hugo assistiu à prisão injusta de uma prostituta e revoltado dirigiu-se ao comissariado de polícia, onde, com o seu prestígio de par de França, conseguiu liberar a mulher.

 

Mas em 1848 sobrevém a revolução e, em 1851, com o golpe de Estado de Luis Napoleão, Victor Hugo é obrigado a exilar-se na Belgica. Só em 1870, como se sabe, com a queda de Napoleão III e a proclamação da República, retornaria ele à França, depois de vinte anos de exílio. Segundo depreendemos de alguns biografos, o escritor parecia com prazer-se com a situação em que permaneceu durante todo esse tempo, surgindo aos olhos da humanidade como uma vítima da tirania e constituindo, juntamente com a Polonia oprimida, dois grandes temas da poesia romântica. Na figura de Jean Valjean, teria ele posto assim um pouco de si mesmo, da condição de perseguido, em que se sentia no exílio.

 

Deixando o manuscrito de "Misérias", em 1851, retoma-o sómente em abril de 1860, quando passará a dar-lhe o título definitivo de "Os Miseráveis". Numa página de diário intimo diria do tempo que levou a meditar sobre a obra, deixando-a amadurecer longamente. Seu propósito seria fazer dela uma suma de todos os problemas que lhe preocuparam o espírito de justiça social. Queria encerrar no livro toda uma mensagem à humanidade. Ora, quem leu "Os Miseráveis", bem sabe que Victor Hugo intercalou muitos capítulos, cujos assunto se desenvolve à margem da intriga, sem uma relação direta com esta. São páginas que poderiam ser suprimidas, sem prejuízo do que há de essencial no enredo. Tal, por exemplo, a que nos descreve a batalha de Waterloo. Mas o romancista nos mostra aí um extraordinário poder evocativo, dando-nos o modelo da descrição romântica de um quadro belico, ao contrário de Stendhal, que, apesar do seu fundo romântico, viu na "Chartreuse de Parme" a batalha de Waterloo de um ponto de vista essencialmente realista, tirando-lhe todo o relevo heróico. Apesar disso, procurou Victor Hugo apoiar sua imaginação exuberante numa base histórica e, para sentir bem o ambiente em que se desenrolou a luta, fez uma temporada na Belgica, em 1861, visitando os campos de Waterloo. Foi justamente quando terminou o romance, segundo as palavras do seu diário íntimo. "Passei dois meses em Waterloo e fiz a autopsia da catastrofe. Dois meses estive curvado sobre esse cadáver". Mas, mesmo assim, o Waterloo de "Os Miseráveis" saiu mais legendário do que histórico. Victor Hugo não pôde deixar de explorar certos aspectos da batalha, emprestando-lhes detalhes românticos de que não se revestiram. Reproduziu igualmente o famoso episódio de Cambronne, que intimado a render-se teria respondido com uma palavra escatológica, fato hoje tido como inteiramente lendário pelos historiadores.

Publicado o livro em 1862, o sucesso foi imenso. Em oito volumes, maior do que "Os Mistérios de Paris", de Eugene Sue, do que "Os Três Mosqueteiros" e "O Conde de Monte Cristo", de Dumas pai, "Os Miseráveis pode ser tido como o primeiro "roman-fleuve" da literatura francesa e quiçá universal. A luz idealista em que Victor Hugo projetava os tipos de todos os seus romances fez com que também os deste não ganhassem aos nossos olhos os contornos de imagens reais e objetivas. A idéia que Jean Valjean e o bispo Bienvenu encarnam prevalece em nosso espírito, sem que os personagens saiam do livro e entrem para o rol das nossas relações, como os de Balzac. Conseguiu, porém, o escritor dar "realidade" a dois nomes: Javert e Gavroche. Dizemos nomes e não propriamente tipos: quando queremos nos referir a um beleguim, a um policial, feroz e intransigente, o denominamos de Javert, da mesma maneira que a um garoto chamamos de Gavroche, sem que os personagens vivam desligados da "realidade" que os evoca. Também nos acontece frequentemente falar num Sherlock, mas o herói de Conan Doyle subsista em nossa retentiva, magro, nariz aquilino, cachimbo na boca, como uma pessôa que tivessemos conhecido na existencia, ao passo que com Javert e Gavroche não se dá isso: a evocação resulta apenas dos nomes.

Outro ponto a incidir: o caráter social do romance. No sentido marxista, "Os Miseráveis" seria antes um livro reacionário. No sentido cristão constitui uma obra revolucionária. Victor Hugo prega a revolução pelo amor e a caridade. A sociedade está errada; todas as peripécias do romance resultam dos erros que nos envolvem por todos os lados, e até a polícia, com seus instrumentos de repressão, é envolvida pelo erro, entrando em conflito com o que há de mais profundo na consciencia humana. E nesse ponto o pensamento do romance apresenta certas aproximações com o do "Conde de Monte Cristo". O herói de Dumas, Edmundo Dantes, vindo exercer uma ação vingadora, de caráter essencialmente justiceiro, contra os que o tinham levado ao carcere, acaba por perdoar o último inimigo, num sentimento de remorso pelos males que vinha causando. Atitude um tanto semelhante à de Javert, suicidando-se, quando verifica a impossibilidade de conciliar o rigor da justiça com a sua consciencia.

 

Traduzido por Justiniano José da Rocha, "Os Miseráveis" foi publicado no Brasil em folhetim, logo depois de aparecer na França. E lembraremos, a propósito, um fato curioso. A grande repercussão do romance, entre nós, levou um escritor de segunda categoria, Manuel Antônio Major, a escrever uma novela inspirada no mesmo, sob o título de "Os Verdadeiros Miseráveis". Golpe de sensacionalismo, que já se verificava em 1864. Os que se haviam impressionado com os episódios e os personagens de "Os Miseráveis" seriam atraídos naturalmente pela expectativa de encontrarem ainda maiores "misérias". A novela começou a ser publicada na revista "Cosmo Literário", fundada pelo próprio Manuel Antônio Major. Mas, na coleção da Biblioteca Nacional só existem quinze números, não nos tendo sido possível saber assim se a revista continuou a circular e se a novela chegou ao fim, porque, naquela epoca, era muito frequente escreverem romances-folhetins "au jour le jour". Deve-se admitir que, não podendo mais manter a revista, o escritor tivesse desistido também de prosseguir na novela. A leitura da parte publicada será o bastante, entretanto, para levar nos a concluir da absoluta mediocridade desses "verdadeiros miseráveis". É, porém, digna de nota a maneira de Antônio Major (trata-se, se não nos enganamos, de um intelectual português radicado no Brasil) procurar imitar o grandiloquo de Victor Hugo. A narrativa começa precisamente com uma cena de batalha, um episódio da campanha da Russia , aparecendo logo de início a figura de Napoleão Bonaparte. Em seguida vêm as tópicas frequentes no romance-folhetim: O bandido que se disfarça em nobre: o nobre que troca o filho bastardo pelo legítimo, fazendo desaparecer este último, etc. E tudo isso, por mais mediocre, não deixa de ter valor documentário. A subliteratura ilustra os fenômenos literários, concorrendo para a melhor compreensão dos mesmos.

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