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Em torno de Viena, Hélène Grimaud e seu CD memorável

Seja em recitais ou em gravações, a ideia de estabelecer paralelos e pontes, às vezes insuspeitados, entre obras ao longo da história da música quase sempre soa atraente, tanto para o intérprete quanto para o público. Mais do que isso, soa inteligente.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

A francesinha Hélène Grimaud, que conquistou a fama jovem e hoje atinge seus 41 anos, sempre usou todas as ferramentas mercadológicas ao seu alcance para distinguir-se no mar de excelentes pianistas em busca de um lugar ao sol. Proclamou sua paixão por lobos num livro que vendeu bastante, mas é de uma ingenuidade atroz (ou seria oportunismo mesmo?). Buscou o charme pessoal para tornar-se uma celebridade a todo custo.

Mas, é preciso reconhecer: no domínio propriamente musical, ela é uma excelente pianista. Sobretudo porque assume riscos - e essa atitude hoje é raridade. Todo mundo prefere ficar na chamada zona de conforto, repetindo fórmulas que já deram certo. E, sabemos, quem se arrisca pode quebrar a cara. Ou criar momentos musicais memoráveis.

Beethoven. Seu primeiro CD para a Deutsche Grammophon, em 2007, por exemplo, foi inteiramente construído em torno da célebre Sonata n.º 17, "Tempestade", e da Fantasia Op. 80, de Beethoven (esta última é uma prefiguração da Ode à Alegria da Nona Sinfonia). Duas obras contemporâneas motivadas pelo gênio de Beethoven completam esse admirável CD: Fantasia on an Ostinato, para piano solo de John Corigliano, sobre o Allegretto da Sinfonia n.º 7; e o Credo para piano coro misto e orquestra do estoniano Arvo Pärt (as obras orquestrais são regidas por Esa-Pekka Salonen).

O recém-lançado Resonances, também pela DG, propõe um repertório em torno de Viena, que se inicia com uma sonata de Mozart, passa por Liszt, Alban Berg e conclui com Bela Bartók. Ela mesma diz que este último provavelmente não concordaria com sua tese de ligá-lo a Viena. Licença poética compreensível. As curtíssimas seis danças folclóricas romenas não alcançam, juntas, 5 minutos de duração. Soam como encantadoras vinhetas, extras num recital bastante variado.

A ferocidade com que Grimaud interpreta a sonata para piano em lá menor K. 310 de Mozart pode afastar ouvidos tradicionalistas. Mas, sem dúvida, evidencia uma aspereza que quase nunca associamos a essa música. O destaque vai não para o descomunal Andante Cantabile con espressione central, tocado com certa monotonia, mas para o Allegro maestoso inicial e o Presto final. O melhor momento do CD, sem dúvida, é a leitura expressionista que Grimaud faz da bela e enigmática Sonata Op. 1, de Alban Berg, obra que sintetiza de modo genial o drama do compositor, ambíguo em seus amores simultâneos pelo passado tradicional e pelo futuro atonal.

Hélène Grimaud, aliás, entendeu perfeitamente a proposta visionária de Liszt ao compor em 1852 sua grande sonata em si menor. Em um movimento único, que comprime os movimentos convencionais da sonata, ela apresenta tantas novidades que não foi entendida por Robert Schumann, a quem foi dedicada. E olhem que Schumann era um campeão da luta pela música nova.

Sua mulher e pianista Clara também não gostou, assim como o jovem Brahms. Sintomaticamente, quem de fato se encantou com esse mamute de tinturas futuristas foi Richard Wagner. O imenso fugato que substitui o scherzo, por exemplo, é um dos momentos mais memoráveis, não só da sonata como da performance de Grimaud. No geral, ela imprime a energia necessária para uma leitura renovada dessa obra já gravada centenas de vezes pelos maiores pianistas do último século.

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