Em torno de Mark Twain, autor no controle de sua imagem

Memórias do criador de 'Huckleberry Finn' tiveram a pretensão de cobrir lacunas deixadas por seus biógrafos

16 de abril de 2010 | 20h24

WILLY LEWIN - Não há muito foi traduzida e publicada entre nós a "autobiografia" de Mark Twain, editada com introdução e notas por Charles Neider (1). O próprio original norte-americano é ainda recente, pois sua edição data de 1959. Ao que tudo indica, pretendeu Neider preencher lacunas deixadas pelos seus antecessores, visando selecionar e, sobretudo, ordenar o caos das memórias escritas pelo autor de Tom Sawyer. Esses antecessores são: Albert Bigelow Paine, biógrafo, amigo e testamenteiro literário de Twain, e Bernard de Voto que, em 1940, aproveitando em grande parte material abandonado por Paine, deu nova versão à Autobiografia sob o título de Mark Twain in Eruption.

 

Aludimos à tentativas - não só de Charles Neider, como de Paine e de De Voto - de ordenar o caos da Autobiografia. A expressão caos pode ser entendida em dois sentidos: 1) o imediato, físico ou material, propriamente dito: entre 1880 e 1910, Twain ocupou considerável parte do seu tempo a escrever (e frequentemente a ditar) uma compacta série de lembranças pessoais que, segundo suas próprias intenções, destinavam-se a constituir sua autobiografia; 2) o modo pelo qual M. T. desejou elaborar, do ponto de vista literário, suas reminiscências. Sob tal aspecto reportamo-nos às suas próprias palavras:

 

"Pretendo que esta autobiografia venha a constituir-se em modelo para todas as demais possíveis, quando for publicada depois de minha morte, e pretendo também que seja lida (...) por causa de sua forma e de seu método (...). Howells aqui esteve, ontem à tarde, e falei-lhe acerca do plano desta autobiografia, do seu sistema aparentemente sem sistema. (...) Trata-se de um sistema deliberado, cujo princípio é lançar mão da matéria que no momento me interesse, passando a outra coisa quando a primeira tenha deixado de interessar-me. É um sistema que não segue um caminho previamente traçado. É uma confusão completa e propositada - um curso que não começa em parte alguma, não segue uma direção específica e não poderá jamais atingir um fim enquanto eu estiver com vida".

 

É curioso observar que esse "sistema" muito se aproxima do que foi adotado por André Gide, ao redigir, pouco antes de morrer, os cahiers publicados postumamente sob o titulo Ainsi soit-il ou les jeux sont faits.

 

Diz Gide: "Não sei no que isto vai dar: resolvi escrever ao acaso. Empresa difícil: a pena (é uma caneta-tinteiro) está sempre atrasada em relação ao pensamento. Ora, o importante é não prever o que se vai dizer. (...) Se me vier o desejo de contradizer-me, fá-lo-ei sem escrúpulo: não procurarei a "coerência". Mas, não terei também a afetação da incoerência".

 

E cessam as semelhanças. O "caos" de Gide não atinge 200 páginas e está condicionado, literalmente, à própria economia do seu estilo. O de Mark Twain é uma enchente do ... Mississippi. Gide foi um francês "elegante", "fino". E pode-se dizer sem injuria (à guisa, até, de elogio, sob vários aspectos imponderáveis...) que Mark Twain foi um tanto "grosso".

 

No que tange à autobiografia editada por Charles Neider, tudo mostra que este não apenas levou muito a sério a tarefa que empreendeu, como também - e principalmente - empresta alta importância literária a essa parte da obra de Twain. Coisa diversa teria ocorrido aparentemente - e sob aspectos paradoxais, à primeira vista - com seu antecessor imediato no planejamento e edição da autobiografia. O fato é que, ao organizar para a Vilcing Press, de Nova York, o volume The Portable Mark Twain, Bernard. De Voto, na compilação feita, aproveitou apenas 15 das 785 páginas das memórias.

 

O entusiasmo de Neider - não se sabe bem se contaminado pela sua própria satisfação de "autor" secundário - transparece nestas palavras do prefácio: "Na minha opinião a autobiografia de Mark Twain é um clássico das letras americanas, podendo rivalizar com as autobiografias de Benjamin Franklin e Henry Adams. Creio que assim será olhada durante o curso dos anos. A obra derradeira de um dos mais queridos autores nacionais é produto de um desses gigantes do século XIX que o século atual tem sido lento em substituir. Ela possui os sinais da grandeza: estilo, escopo, imaginação, tragédia".

 

Possuirá mesmo? Para um conhecido reviewer, Dwight Macdonald (comentando em The New Yorker a edição de Neider, na época do seu lançamento). o estilo da Autobiografia é "relaxado", seu escopo é "limitado", sua imaginação é "rasa", e há antes sentimentalismo e "patético", nas suas secções pessoais, do que a "tragédia" vislumbrada pelo compilador. Mais longe ainda foi o inglês Richard Aldington, citado na própria introdução de Neider. Investiu contra Twain, dizendo, em geral, não ser ele nem humorista, nem escritor genuíno. Quanto à "Autobiografia", em particular, aludiu ao "tédio" que se evola de suas páginas. Vale recordar, entretanto, que Aldington tem demonstrado um parti pris especial contra os "vultos consagrados" É recente a sua tentativa de demolição do "ídolo" T. E. Lawrence, e um pouco antes fizera restrições, entre severas e sibilinas ("a genius, but..."), ao outro Lawrence, o D. H. Contudo, Macdonald e Aldington têm pelo menos, alguma razão. E antes de recorrermos aos nossos próprios argumentos - ou melhor: às amostras que selecionamos, por nossa própria conta, ao longo da compacta autobiografia editada por Charles Neider - vale, talvez, a pena tecer algumas considerações de ordem geral sobre o "fenômeno" (literário) Marke Twain.

 

Para dizer tudo, em breves e simples palavras, trata-se de um escritor em cuja obra numerosa coexistem indiscutíveis platitudes (humorísticas ou sentimentais) e realizações autênticas, plenas, como essa obra-prima que é The Adventures of Huckleberry Finn, a qual mereceu a celebre declaração de Ernest Hemingway: "Toda a moderna literatura americana provém de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn". Aqui realmente encontramos o que se denomina um grande estilo. E os que, porventura, julgaram demasiado entusiástica a frase de Hemingway, longe estariam de supor-lhe as consequências mais remotas ou profundas; longe estariam de imaginar, por exemplo, que a saga de Huck Finn, na observação aguda do crítico inglês Michael Millgate (Falkner, série Critics and Writers, Oliver and Boyd, London), repercutiria num dos romances faulknerianos mais tipicamente assinalados pelas experiências de avant garde: As I Lay Dying. Escreve Millgate: "A maneira de As I Lay Dying é primordialmente cômica: tudo parece indicar que a complexa estrutura moderna tenha sido imposta a uma anedota linear na tradição das tell tales de fronteira, e a linguagem, embora inteiramente original, recorda, e até rivaliza, com os melhores escritos vernáculos de Mark Twain. Ao mesmo tempo é, como Huckleberry Finn, um romance profundamente sério. (...) Nos dois livros, tragédia e comédia, terror e farsa, acham-se justapostos e reconciliados em termos da tradição fronteiriça de realismo humorístico".

 

No entanto, há testemunhos fidedignos de que Twain não colocava Huck Finn - para alguns à sua única grande obra de literatura - entre os seus livros mais queridos. O que serviria para explicar a radical opinião de D. Macdonald, no review atrás mencionado: "Os escritores são frequentemente maus juizes de suas obras, mas a obtusidade de Mark Twain atingiu o patológico".

 

Isto posto, voltamos à Autobiografia que para Charles Neider, como vimos, "é um clássico das letras americanas" e "possui as marcas da grandeza: estilo, escopo, imaginação, tragédia". Estruturalmente, é um caos, além do desejado, ou melhor: não exatamente como foi desejado. Estilisticamente, caracteriza-se, não pela simplicidade (adequada, aliás, à recordação e ao registro de episódios ou fatos vividos), mas por aquilo que, na língua inglesa, se exprime por looseness, e costuma, precisamente, denunciar o mau escritor. Por fim, quanto aos próprios episódios ou fatos rememorados, a intenção, em si mesma razoável, de tudo anotar, resulta, geralmente, em monotonia, e mais do que em monotonia, em insignificância. A isso se acrescente, para mais agravar as coisas, a intermitente intervenção do "pensador" ou do "filosofo" Mark Twain. Por exemplo: "Quem ora por Satã? Quem, durante oito séculos, teve o sentido humano de orar pelo único pecador que mais precisava de orações, o nosso único semelhante e irmão que mais necessitava de estímulo e que, todavia, nenhum teve; o único pecador, entre todos nós, que tinha o mais elevado e o mais claro direito (o grifo é do original) às orações diurnas e noturnas de todos os cristãos, pela simples e indiscutível razão de que sua necessidade era a primeira e a maior de todas, já que era ele o supremo entre os pecadores?" No plano do primarismo, é difícil encontra-se aliança mais prefeita de idéia e estilo.

 

São, por outro lado, excessivamente fáceis certos excessivamente fáceis certos efeitos humorísticos como este, entre muitos: "A vila contava com cem habitantes e eu aumentei a população em um por cento".

 

É certo que o bom Mark Twain também faz sentir a sua presença. Veja-se a tal respeito a evocação da infância no capítulo IV: "Sou capaz de evocar o prado, a sua solidão e a sua paz. (...). Sei como eram as amoras silvestres" etc.; veja-se o episódio do hipnotizador que revolucionou a aldeia; veja-se o capítulo XII, onde se narra o concerto de uma troupe de negros. E sem dúvida há ainda muita coisa que se lê com real prazer.

 

Para o fim da autobiografia, Mark Twain registra suas impressões européias. Irrelevantes, num sentido, geral. E quando não o são, traem, significativamente, ou uma incompreensão, ou uma auto-satisfação "americana" que nos fazem sorrir. Parece incrível, por exemplo, que a respeito de Florença (de Florença!), praticamente Twain tenha-se lembrado, apenas, de descrever com minúcias o palácio que lhe serviu de residência. Aliás, nessa parte final da autobiografia, revela-se um pormenor digno de nota! a par de um certo arrivismo, a vaidade (ou a vaidadezinha) do escritor. Ao fornecer elementos para a compreensão de suas memórias - e de sua personalidade - ele dissera: "Rejubilo-me quando um rei ou duque passa pelo meu caminho e faz-se útil a esta Autobiografia, mas eles são fregueses raros. (...) Posso usá-los como faróis ou monumentos, ao longo do meu caminho, mas para coisas sérias, dependo do rebanho comum". Parece, entretanto, que a passagem dos "grandes" pela vida de M. T., o contato com o luxo, o gozo dos prestígios intelectuais e mundanos, o impressionaram e o satisfizeram mais do que ele admitiria. E quando essa Europa, "atrasada" aos seus olhos de americano "progressista" ("Ao descer a noite sobre a casa, não há gás nem eletricidade para combatê-la, mas apenas lâmpadas sem graça, exageradamente feias, e de incomparável pobreza em matéria de eficiência"), lhe concede honras especiais, como o diploma de Doutor em Letras pela Universidade de Oxford, aí então a recompensa vale a pena, e Mark Twain, provisoriamente, arquiva a sua opinião de que "para o bem ou para o mal continuaremos a educar a Europa"...

 

(1) Trad. de Neil R. da Silva. Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1961.

( O Suplemento Literário circulou no Estado entre 1956 e 1974. Foi mantida aqui a ortografia original do artigo)

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