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Em torno de bichos

No Brasil, podemos falar de "homem bicho" e de "bicho homem". Como entender esses avessos cujo denominador comum é o conceito de "bicho" e não de animal? Para ir além do palpite, vale consultar um dicionário, se dicionário existe.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2014 | 02h06

No caso dos bichos, felizmente ele está aqui do meu lado. Tem peso, cheiro e espessura. Não precisa de baterias e, como tudo que é coletivo, tem densidade e dimensões insuspeitas. Ele repousa como uma lápide na minha estante, mas, como todo bom livro, é um vampiro pronto a nos corrigir e devorar com sua sabedoria. Perdi a conta das vezes que o chamei à vida e suas informações feitas de papel impresso iluminaram a minha ignorância e uma não menos notável incerteza.

Só um antropólogo fala tanto para dizer que o primeiro passo para decifrar "homem bicho" e "bicho homem" é a consulta ao verbete "bicho" no Dicionário do Folclore Brasileiro de Luis da Câmara Cascudo.

Nele, encontramos na página 124, o seguinte: "Bicho. Todo animal que não é homem, nem ave, nem peixe. Todo animal seja homem, ave ou peixe, de formas colossais ou estranhas à espécie ou muito feios, Visão, alma do outro mundo, coisa extraordinária, fenomenal e inexplicável, o baú dos guaranis, o zumbi dos negros de Angola e do Congo, o papão (...) come-criança". "Olha o bicho!", dizem as amas brasileiras, metendo medo às crianças; "Olha o zumbi!", dizem as portuguesas, todas no mesmo sentido. "Matar o bicho"; beber álcool pela manhã; do francês tuer le ver, origem da frase.

Sem querer contar a história, mas já contando, no século 16, reino de d. Francisco I, foi encontrado no coração de uma mulher um verme que só morreu quando lhe embeberam em vinho. Daí a bela (e boa) prática gaulesa de "matar o verme" (que é um "bocho"), abrindo o dia com um copo de vinho ou, no Brasil, de uma boa pinga, "matando o bicho". Neste domínio, meu tio Silvio me aconselhou a beber por dois motivos: (a) quem não bebia era mau caráter e; (b) sem bebida, ninguém aguentava esse vale de lágrimas. Ou, no caso do Brasil hodierno, esse desfiladeiro de roubos. Algo que só o "homem bicho" que habita o "bicho homem" pode realizar.

Mas voltando aos "bichos", bicho; devo retomar o início denso e intenso da definição de Câmara Cascudo. "Bicho" não é todo animal e humano e, simultaneamente, é todo animal ou humano estranho, extraordinário, fenomenal e inexplicável. Um "bicho" não é um vivente estranho ou perigoso ao mesmo tempo. O "bicho" exerce o fascínio de unir campos tradicionalmente separados e possui a marginalidade das porteiras e dos espelhos. Existem fronteiras que o "bicho" dissolve, conduzindo ao poético, ao nostálgico e ao ameaçador. A ameaça de uma continuidade entre todos os seres vivos, numa espécie de fechamento que só a ambiguidade como um valor e uma visão do mundo como um todo, permitem.

Dir-se-ia que todo vivente inclassificável ou impossível de classificar seria um "bicho", bicho. Eis um paradoxo: nós, humanos, tudo classificamos, mas não vemos que a exclusão do ambíguo, do misturado, do dissonante, do feio ou do hibrido é, na realidade, uma outra inclusão.

Mas, para além disso, a definição associa e assenta numa mesma série humanos, animais e mortos. Daí se poder sugerir, com a devida vênia do leitor versado em sociologuês, que "o homem bicho" é o assassino, o pedófilo, o ET - um monstro; ou um ex-diretor ladrão confesso da Petrobrás ou um "político". É um ser dotado de qualificações inqualificáveis. Os antigos comunistas que comiam criancinhas eram "homens-bicho". Hoje, bicho, eles são advogados e magistrados que usam a nossa douta teologia jurídica, para não prender ninguém.

O grande desafio é o "bicho-homem". Nessa inversão, conjugamos e proclamamos a extensão crítica entre o humano e o animal. Mas atribuímos ao "bicho homem" a capacidade do absurdo justamente porque embora sejamos irmanados aos viventes, deles somos separados porque o que a ancora não é uma natureza universal e geral, mas códigos morais, roteiros ou programações que variam em cada "bicho homem". O "homem bicho" rompe com as normas, o "bicho homem" segue itinerários e, por isso, faz guerras, vira radical e se mata. Mas ambos são, esse é o ponto, "bichos", bicho.

Se você acha tudo isso teórico, faça o teste de Leslie White, um mestre antropólogo que lecionava na Universidade Michigan, em Ann Arbor. Pegue três copos e encha um deles com água potável, outro com água benta e o terceiro com água destilada. Se alguém beber sem se importar é um "homem-bicho". Já um "bicho-homem" ficará preocupado em não beber a água benta ou a destilada. É isso aí, bicho!

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