Em terras contínuas

'Ame-o ou Deixe-o' não era impositivo demais? Não tinha espaço para se opor?

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2018 | 07h17

O sonoro “America, love it or leave it” virou “Brasil, ame-o ou deixe-o”, exaltado numa máquina eficiente de propaganda em anúncios, spots na rádio e TV e músicas ufanistas que exaltavam nossas belezas, enquanto os descontentes... 

O slogan criado nos Estados Unidos, durante protestos contra e a favor da guerra do Vietnã, fazia sentido: referia-se aos que, em idade de serviço militar, fugiam para o Canadá, para não serem obrigados a enfrentar pragas, tigres e um exército maior e mais bem preparado, numa guerra sem sentindo fadada ao fracasso, que tinha derrotado os franceses na década anterior nas cidades e selvas do Sudeste Asiático.

O slogan adaptado pela ditadura brasileira era reproduzido em adesivos colados nos vidros traseiros dos carros produzidos pela indústria aquecida do Milagre Brasileiro do único país três vezes campeão do mundo no futebol.

“Ame-o ou Deixe-o” não era impositivo demais? Tinha que ser assim, não tinha espaço para se opor? Não poderia ser “Ame-o ou Ame-o Com Apoio Crítico”? Ou “Ame-o ou Aceite-o Sem ‘Mimimi’”? Que tal “Ame-o ou ‘Chole Mais’”?

Uma canção da banda mais atuante da Jovem Guarda, Os Incríveis, virou hit: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil. Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, ninguém segura a juventude do Brasil... Mulher que nasce aqui tem muito mais amor. O céu do meu Brasil tem mais estrelas, o sol do meu país, mais esplendor.”

Eu tinha uns dez anos e achava fascinante o Brasil ter mais estrelas, e as mulheres daqui terem muito mais amor do que americanas, francesas, italianas. Mas então olhava a minha avó, italiana de Modena, e a achava tão ou mais amorosa que minha mãe... Apesar de criança, passei a ouvir a música com apoio crítico. 

Exatamente como eram exageradas as hipérboles do professor de Organização Social e Política do Brasil (OSPB) do Colégio Andrews, Rio de Janeiro, o único que usava terno e gravata, magro e pálido, que ressaltava que tudo no Brasil era maior, a hidrelétrica, o vão da ponte, a floresta, e que o Brasil “era o maior país do mundo”, dizia. Dava uma pausa dramática, caminhava de costas para a classe, virava-se num gesto dramático, como um advogado de defesa diante do júri, e completava: “Em terras contínuas”. Imitávamos o professor no recreio, caminhando, virando e repetindo: “Em terras contínuas.”

“As tardes do Brasil são mais douradas, lá, lá, lá, lá, mulatas brotam cheias de calor, lá, lá, lá, lá, a mão de Deus abençoou, eu vou ficar aqui, porque existe amor. No carnaval, os gringos querem vê-las, lá, lá, lá, lá, num colossal desfile multicor, em terras brasileiras vou plantar amor...”

A multirracialidade era exaltada. O carnaval, nossa grande festa, vitrine, identidade. Na época, os desfiles se profissionalizaram, passaram a ser transmitidos pela TV. Turistas vêm nos ver. Mas que calor da mulata é esse, licença poética ou é no que estou pensando? Que feio...

“Adoro meu Brasil de madrugada, lá, lá, lá, lá, nas horas que eu estou com meu amor, minha amada vai comigo aonde eu for... As noites do Brasil têm mais beleza, lá, lá, lá, lá, a hora chora de tristeza e dor, porque a natureza sopra e ela vai-se embora enquanto eu planto amor...”

“Lá, lá, lá, lá” coisa nenhuma! Discordava com veemência. Eu tinha insônia e bronquite alérgica, passava noites em claro na janela respirando fundo, como o médico especialista em alergia ensinara, olhando a orla do Leblon, ouvindo o barulho das ondas, inspirando a maresia das madrugadas. Minhas noites não eram nada belas, e eu detestava as madrugadas, em que não havia o que fazer, a não ser ouvir o rangido dos meus pulmões, que chamávamos de “gatinho”, olhar a janela, respirar e dar duas “sprayzadas” de Aerolin a cada duas horas.

Caetano, em tristeza profunda, compôs em Londres, no exílio: “one day I had to leave my country, calm beach and palm tree, that day I couldn't even cry, and I forgot that outside there would be other men, but today, but today, but today, I don't know why, I feel a little more blue than then” (um dia, tive que deixar meu país, praia calma e palmeira, naquele dia eu não conseguia nem chorar, e esqueci que, do lado de fora, havia outros homens, mas hoje, eu não sei por que, me sinto um pouco mais triste que antes). Foi depois convocado para também fazer uma música ufanista sobre a Transamazônica, obra do regime. Seria perdoado. Ele se recusou. Fez Transa, seu melhor disco. 

Gil lançou Aquele Abraço em 1969, que se tornou o hino dos que foram obrigados a deixar o país que amavam. A música é contagiante, alegre. Caetano nunca entendeu como Gil conseguia manter o astral alto, que nos consolava: regimes vão e voltam, mas o Rio de Janeiro continua lindo, como a torcida do Flamengo, todo mundo da Portela. E a Bahia dará régua e compasso.

No imperdível filme Chacrinha – O Velho Guerreiro, de Andrucha Waddington, que acaba de estrear, entendemos a exaltação de Gil. Apesar de tudo, o País carrega com sua tragédia (ou por conta dela) uma cultura rica, vibrante, colorida, rítmica, afro, tupi, antropofágica, da qual devemos nos orgulhar sempre. 

Está no filme: Stepan Nercessian, como no musical, brilhante, fantasia-se de bebê, noiva, até de papa. Chacrinha é o símbolo da diversidade. Renova-se. Não cria, copia. Comunica-se, não se trumbica. Guerreiro, dava ordem no terreiro. Nem o diretor da emissora e nem a censura o controlavam. Controlava a família, até o repertório de grandes artistas e os rumos da MPB, sem qualquer preconceito. 

Velho palhaço, gozador cativante... Seu programa, uma bagunça organizada. No caótico, tinha beleza, nesse Brasil lindo e trigueiro, terra de samba e pandeiro. Aos vencedores: Quem quer bacalhau?

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