Monika Aichele/The New York Times
Monika Aichele/The New York Times

Em tempos de pandemia, o que torna algumas pessoas mais resilientes do que outras?

A maneira como enfrentamos uma crise ou um evento traumático depende em grande parte do quão resilientes nós somos

Eilene Zimmerman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2020 | 12h00

Há alguns anos algo inimaginável aconteceu na minha vida. Eu quis ajudar uma pessoa por quem me preocupava e que tinha uma doença que vinha ocultando. Fui a sua casa pensando em levá-la a um pronto-socorro, mas no final a viagem foi para o necrotério. Quando cheguei no local encontrei meu ex-marido já morto, no chão do banheiro. Qual era a doença oculta? Uma injeção de droga na veia.

Sem dúvida este foi o acontecimento mais traumático da minha vida e dos meus filhos. Eles eram adolescentes na época e acompanharam de perto o lento suicídio do seu pai. Foram necessários dois anos para resolver o inventário do meu ex-marido, e foi um período de inação traumático para mim uma vez que continuei a viver num estado constante de urgência.

Na época achei que nunca nos recuperaríamos, que nossa vida ficaria marcada sempre por esse terrível fato. Mas hoje, quase cinco anos depois, estamos bem. Ou estávamos, até recentemente, quando, junto com o resto do mundo, enfrentamos esta atual convergência de crises.

O fato é que aquela fase horrível em minha vida foi um bom treinamento para uma pandemia, para a agitação política e social, a incerteza econômica e financeira. Aquela experiência ensinou-me que nunca sabemos realmente o que pode ocorrer em seguida. Eu planejo o melhor que posso, mas agora sou muito mais capaz de focar meu pensamento. Sou capaz de lidar com as mais inesperadas adversidades da vida, aceitar as dificuldades e seguir em frente mesmo que seja difícil.

A maneira como enfrentamos uma crise ou um evento traumático (e o coronavirus tem muitas características do trauma porque é imprevisível e incontrolável) depende em grande parte do quão resilientes nós somos. Resiliência é a capacidade de nos recuperarmos de experiências e contratempos difíceis, nos adaptarmos, seguirmos em frente e, às vezes, crescermos com eles.

A resiliência de um indivíduo é ditada por uma combinação de genética, história pessoal, ambiente e a situação do momento. Até agora, pesquisas concluíram que a parte genética é relativamente pequena.

“No meu modo de pensar, existem características de temperamento ou personalidade que são geneticamente influenciados, como a capacidade para assumir riscos, ou se uma pessoa é introvertida ou extrovertida”, afirmou Karestan Koenen, professora de epidemiologia psiquiátrica na T.H. Chan School of Public Health de Harvard.

A professora Koenen estuda como os genes moldam nosso risco de estresse pós-traumático. “Todos nós conhecemos pessoas que são muito tranquilas. Parte disto é como somos construídos fisiologicamente”. Mas não é verdade que algumas pessoas nasceram mais resilientes que outras, segundo a professora. “Isto porque qualquer traço de personalidade pode ser positivo ou negativo, dependendo da situação”. E, ao que parece, muito mais importante é a história de um indivíduo.

O determinante mais significativo da resiliência – observado em todas as resenhas ou estudos de resiliência nos últimos 50 anos – é a qualidade das nossas relações mais próximas, especialmente com os pais e aqueles que cuidam de nós em primeiro lugar. Os vínculos paternos na infância têm um papel crucial, para toda a vida, na adaptação humana.

“O quão amado você se sente quando criança é um excelente indicador de como administra todo o tipo de situação difícil mais tarde na sua vida”, disse Bessel van der Kolk, professor de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade de Boston, que faz pesquisas sobre estresse pós-traumático desde a década de 1970. Ele é fundador da Trauma Research Foundation, em Boston.

Segundo Van der Kolk, estudos de longo prazo mostraram que os primeiros 20 anos de vida são especialmente críticos. “Traumas diferentes em idades diferentes têm seus próprios impactos sobre nossas percepções, interpretações e expectativas; essas primeiras experiências esculpem o cérebro porque é um órgão dependente da sua utilização”, afirmou ele.

Resiliência seria um conjunto de habilidades que podem ser, e com frequência são, aprendidas. E parte do aprendizado vem da exposição a experiências muito difíceis, embora administráveis, como aquela que meus filhos e eu vivenciamos.

“O estresse não é de todo mal”, disse Steven Southwick, professor emérito de psiquiatria, PTSD e Resiliência na escola de medicina de Yale e coautor do livro Resilience: The Science of Mastering Life’s Greatest Challenges” (Resiliência: A Ciência de Dominar os Maiores Desafios da Vida, em tradução livre). Se você consegue lidar hoje com tudo o que vem ocorrendo no mundo à sua volta, então quando estiver numa outra situação estará mais forte”, disse o professor.

E como enfrentar a situação depende da caixa de ferramentas de resiliência que você possui, para algumas pessoas, como meu ex-marido, essa caixa estava cheia de drogas. Para outros pode ser a bebida, comida em excesso, jogo, compras. Mas nada disto promove a resiliência.

Pelo contrário, as ferramentas mais comuns no caso de pessoas resilientes são o otimismo (que também é realista), uma bússola moral, crenças espirituais ou religiosas, flexibilidade emocional e cognitiva e relacionamento social. As mais resilientes são pessoas que geralmente não se detêm no que é negativo, que buscam oportunidades que existem até nos momentos mais sombrios. Durante uma quarentena, por exemplo, uma pessoa resiliente decide que é uma época boa para começar uma prática de meditação, fazer um curso online ou aprender a tocar violão.

No meu campo de trabalho hoje, como estudante de assistência social, ofereço suporte para pessoas com câncer, que é também uma experiência traumática, e sempre as aconselho a se manterem fixadas no momento presente e se concentrarem nas suas forças, porque imaginar o pior cenário não tem sentido e só aumenta a ansiedade.

“Todos nós temos de compreender quais são nossos desafios particulares e determinar como vencê-los no momento atual”, aconselha George Bonanno, professor de psicologia clínica e diretor do Loss Trauma and Emotion Lab, no Teachers College da Universidade de Colúmbia. A boa notícia, diz ele, é que muitos conseguem vencer. O laboratório de Bonanno revisou 67 estudos de pessoas que vivenciaram todos os tipos de eventos traumáticos. “Estou falando de massacres, furacões, ferimentos na medula espinhal, coisas desse tipo. E dois terços das pessoas demonstraram resiliência. Dois terços conseguiram lidar com a situação muito bem num curto período de tempo”. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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