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Em sua obra, João Antonio evoca uma São Paulo da garoa que não existe mais

Autor ouvia a poesia das ruas e seguia a métrica dos derrotados

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2013 | 18h02

João Antonio (1937-1996) é conhecido como o escritor dos marginais. Um rótulo como outro qualquer, mas, no caso, perfeitamente adequado. Figurões não o interessavam. Nem na vida e nem na literatura. Gostava dos “de baixo”, como são os personagens do seu primeiro e mais conhecido livro, Malagueta, Perus e Bacanaço, publicado em 1963.

Antes, um preâmbulo. Muitos anos atrás fui entrevistá-lo para o ‘Estado’ em sua casa paulista de Presidente Altino. Foi difícil conduzi-lo ao tema da literatura. Antes conversamos longamente sobre passarinhos e principalmente, o jogo da sinuca, que ele adorava. Idolatrava, entre todos, o mitológico Carne Frita, que os boêmios consideram o maior gênio de todos os tempos no jogo do taco, das bolinhas e do pano verde. Ao falar dos antigos salões de bilhar de São Paulo, e do seu ídolo, João estava em casa. Sobre o “Frita” (era com essa intimidade que a ele se referia) tinha uma frase estupenda: “O incrível não era o que ele fazia numa mesa de bilhar; incrível é que ele imaginasse ser possível fazer o que fazia”. Bingo. O que ele dizia do Frita serviria para definir gênios de outros esportes e artes, como Pelé, Picasso e Charlie Parker, digamos.

Enfim, Malagueta, Perus e Bacanaço é um relato todo montado em cima desses três malandros que, sem terem onde cair mortos, perambulam por uma São Paulo fria, noturna e espectral. A técnica dos malandros é sempre a mesma. Arrumar alguém com jeito de otário no salão e convidá-lo para jogar. Perder as primeiras partidas, até que o pato ganhe confiança e, no fim, com as apostas mais altas, depená-lo. Às vezes dá certo, outras nem tanto. Mesmo porque os anti-heróis de João Antonio são outsiders completos, mesmo no mundo da malandragem. Gente pouco destinada ao sucesso.

Além da composição vital dos personagens, outro aspecto marcante da prosa de João Antonio é a ambientação. Vemos e sentimos em sua literatura uma São Paulo da garoa, que não existe mais. Seus personagens a percorrem do centro aos bairros mais afastados, de salão em salão, numa longa odisseia que vai terminar nas sinucas mais infectas, frequentada por elementos perigosos, como o notório Quinzinho, que ele vai encontrar em Pinheiros, num Bar e Bilhar do Largo da Paz. Note-se que esse logradouro, que nem existe mais depois das reformas urbanas, tinha seu nome oficial, que ninguém sabia. Largo da Paz era o nome irônico dado pelos malandros porque rara era a noite que não havia um saldo de brigas e mesmo de cadáveres pelas calçadas. Até a polícia evitava o Largo da Paz.

Em sua literatura popular (jamais popularesca), João usava imagens do tipo: “Triste como um bola branca que cai”. Mas logo esclarecia que a frase não era dele. Tinha ouvido da boca de um “vagabundo da Lapa”. João ouvia a poesia das ruas e seguia a métrica dos derrotados.

Com esse amor aos perdedores, ao lado B da vida, João não poderia ter feito outra trajetória. Sua prosa original e despojada deu-lhe muitos prêmios literários e garantiu-lhe emprego em jornais. Tornou-se uma estrela. Mas uma estrela sem vaidade e talvez triste. A certo ponto, despojou-se de tudo e foi viver como gostava, vestindo-se com o maior despojamento e sem dar atenção às convenções. Foi encontrado morto em seu apartamento de Copacabana, no qual morava só.

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