Em SP, o museu mais divertido do País

A primeira charge no Brasil foi feita em 1837 por Araújo Porto Alegre, mas apesar da vasta produção nacional, nenhuma das obras brasileiras havia sido catalogada até agora. A partir de novembro, o Arquivo do Estado, na zona norte de São Paulo, vai sediar o primeiro Museu de Artes Gráficas do Brasil.O acervo contará com mais de 6 mil imagens de artistas gráficos contemporâneos e será inaugurado com uma exposição do cartunista Laerte, reunindo trabalhos do ilustrador desde que ele tinha seis anos e fazia desenhos em papel de pão. Os trabalhos estão sendo selecionados há dois meses por João Gualberto Costa, o Gual, e Daniela Baptista, diretores do Instituto do Memorial das Artes Gráficas.Gual diz que o museu será o primeiro passo para o reconhecimento da arte. "Ela sempre foi vista com desprezo, ao contrário das artes plásticas. Mas a arte gráfica permite que se conheça a história do Brasil sob o ponto de vista do povo, já que o artista costuma expressar o que a maioria das pessoas gostaria de dizer e não consegue ou não pode".Durante a ditadura militar foi o que aconteceu. Na época, ficaram famosos os cartuns e charges publicados no Pasquim. O então ministro Delfim Neto foi um dos "personagens" mais retratados durante o governo militar. Gual garante que Delfim não só gosta de ter sido protagonista de várias histórias, como também é conhecido por colecionar as charges em que apareceu.Outro exemplo da influência do desenho no comportamento popular ocorreu durante a Guerra do Paraguai. O cartunista Angelo Agostini foi enviado para o front para desenhar os detalhes da batalha. Agostini viu e apresentou os negros escravos sendo colocados na frente do pelotão para morrer antes dos soldados. Quando voltou, o cartunista liderou um movimento abolicionista e conseguiu apoio em razão de seus desenhos.Embora tenha apelo popular, a arte gráfica brasileira ainda sofre com mercados competitivos como o americano e o japonês. Estima-se que existam 200 artistas gráficos no Brasil atualmente e que a maioria deles trabalhe em algum veículo de comunicação. Raríssimos são os desenhistas, com exceção de Maurício de Souza e Ziraldo, que conseguem viver somente de suas criações.Gual explica por que isto acontece. "O mercado americano produz uma quantidade enorme de tiras que são vendidas a um preço ridículo, mas para o mundo inteiro. Como no Brasil o consumo do ´produto´ nacional não é tão grande, muitos artistas recorrem à outras atividades para engrossar o orçamento". O mercado brasileiro de história em quadrinhos é reflexo desta realidade. Não há números oficiais sobre os leitores deste gênero no Brasil, mas sabe-se que crianças e adolescentes tendem a ser devoradores dos gibis.Tirando a Turma da Mônica, de Maurício de Souza, não há outros gibis nacionais que sejam consumidos com freqüência pelos leitores. Já as versões americanas e japonesas são campeãs de venda no País. No caso americano, o merchandising envolvendo os personagens dos quadrinhos explica os baixos preços de cada livro.Afinal, personagens como Garfield, Homem-Aranha e outros super-heróis estão estampados em cadernos, lancheiras, livros e figurinhas. Já os baixos preços do produto japonês são resultado da produção em escala. Os mangás (gibi em japonês) são uma febre em seu país e a população nipônica consome nada menos que cinco milhões de mangás por semana. Exportar o que sobra é facílimo.Gual conta, por exemplo, que o período áureo da HQ no Brasil foi na década de 50. No museu, haverá croquis de histórias produzidas naqueles anos pelo artista brasileiro Flavio Colin e também de cartunistas que ajudaram a contar a História do Brasil.

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