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Em ‘Sanshiro’, os primeiros passos de um personagem às voltas com o desejo

Notável romance do japonês Natsume Soseki foi escrito mais de um século no passado

Vinicius Jatobá, O Estado de S. Paulo

17 Janeiro 2014 | 20h10

O regional é sempre o universal de algum lugar, e em Sanshiro, notável romance do japonês Natsume Soseki escrito mais de um século no passado, não apenas o extremamente peculiar dessa Tóquio ancestral ressoa com gosto contemporâneo, como o conflito central de Sanshiro, o protagonista do romance, é algo de candura pedestre e encontrável em cada leitor: a confusão de toda juventude quando se lança no manancial de desafios do mundo adulto. Essa trama, esse arco de encontro consigo mesmo, respira em dezenas de contos, romances, peças teatrais. É inescapável, esse caminho: coletar daquilo que definiu a juventude a argamassa que sustenta o adulto. O interessante é entender como cada escritor agride e deforma e ilumina de forma distinta esse arco em comum.

Seja a mistura de candura erótica e azedume decadente em O Menino de Engenho, de José Lins do Rego; a violência narcisista e envenenada de Origem, de Thomas Bernhard; a surpreendente ingenuidade do narrador preso em um campo de concentração em Sem Destino, de Imré Kertész; a frenética animação criminal dos jovens percorrendo o rio Mississipi em Os Invictos, de William Faulkner – são todas estórias de jovens que precisam escolher que tipo de adultos serão pelos restos de suas vidas. Que sejam austríacos, estadunidenses, brasileiros ou húngaros não é substância – os sentimentos de inadequação que sentem atingem leitores de qualquer latitude.

Sanshiro começa com uma cena que já marca o personagem, e todo restante do livro pode ser entendido como um esforço em reverter esse sentimento. Logo de partida, ele divide uma cabine com uma mulher desconhecida. Na manhã seguinte, a mulher o acusa de covardia por não ter feito nenhum avanço. Sanshiro sentiu desejo, mas sem jamais tentar algo. Ela estava disponível; ele duvida. Esse tatear é o termômetro de toda narrativa. E é esse o sentimento contra o qual ele se rebelará.

Boa parte do restante da narrativa se passa em uma universidade e lá o vemos alheado da rotina de aulas e de estudos, mas sem jamais tomar qualquer decisão para romper esse ciclo. Ele simplesmente avança. Longe de um livro pesado, há genuína afeição em cada página do romance. Não é que Sanshiro seja covarde, sugere o narrador: é que ainda não sabe onde pôr sua coragem. O leitor acompanha Sanshiro descobrindo seu mundo e sua vocação, e é só quando descobre o que quer e deseja que se dispõem a lutar por isso. Soseki é um mestre da prosa irônica, nunca deixando que as dores da juventude tomem um peso maior do que realmente possuem: o primeiro passo, de muitos.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

SANSHIRO

Autor: Natsume Soseki

Tradução: Fernando Garcia

Editora: Estação Liberdade (272 págs., R$ 49)

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