Em Roma, para nos lembrar que a alegria é a prova dos noves

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h09

É bem possível que esse novo Woody Allen seja considerado o Woody de sempre, sem novidades. Ou - pior - que seja pichado como esgotado e repetitivo em suas sinecuras turísticas: a Inglaterra em Match Point; Espanha em Vicky Cristina Barcelona; França em À Meia Noite em Paris; e, agora, na Itália em Para Roma com Amor.

Ok, Woody achou um jeito de viabilizar seus filmes no estrangeiro, já que nos Estados Unidos sua vida não anda fácil. Só querem aqueles blockbusters descerebrados que você conhece muito bem. E quem é o beneficiário de Allen ter encontrado essa fórmula para produzir seus filmes? Aqueles que gostam do cinema de Woody Allen. Os que acreditam que um mau Woody Allen ainda é melhor que 99% do que é lançado nas telas do País. Aqueles que consentem em sentir o amadurecimento do artista e não o comparam obsessivamente com o que ele era quando jovem. É como ouvir João Gilberto hoje, em seus 80 anos, e apreciar o que sua voz pode ainda trazer de encanto e arte.

Portanto, não caia nessa de que Woody está decadente. Está velho e sábio, sim. E muito engraçado. Como ator, é hilário no papel do agente de óperas que vai com a esposa à Itália para conhecer o genro. Fato que fornece o gancho para o mais saboroso dos episódios, o do tenor genial que só consegue soltar a voz em circunstâncias especiais. Roberto Benigni é personagem de outra história muito boa, sobre os humores da fama e da sociedade do espetáculo (sim, mesmo brincando Woody não perde o gume crítico). Por fim, o jovem casal que chega a Roma e se extravia por obra de um mal-entendido. Uma das figuras marcantes do filme será, pela desenvoltura mental e física, Penélope Cruz, no papel de uma esfuziante prostituta.

De fato, esses filmes em série sobre países não escapam a alguns estereótipos. Mas clichês, insuportáveis em filmes "sérios", se acomodam melhor em comédias, inclusive porque, por obra e graça da direção, se desconstroem a si mesmos. (Se não tolerássemos clichês de espécie alguma, o que seria dos filmes de Totò?)

De modo que se pede ao espectador deixar a má vontade em casa e se divertir. Em sessões públicas, a plateia tem rido à beça. Há motivos. Allen não economiza em inteligências e situações absurdas, beirando o surreal. Veste cenas com diálogos brilhantes, que remetem a referências da alta e da baixa cultura, comparações inesperadas que são sua marca registrada.

Se a Roma de Woody Allen não é tão brilhante quanto a de Fellini, parece ao menos suficiente para nos deixar com saudades da Cidade Eterna e para nos lembrar da verdade de Oswald de Andrade: a alegria é mesmo a prova dos noves.

Avaliação do filme: Bom

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