Divulgação
Divulgação

Em ‘Retratos Falantes’, grupo Tapa revela flashes da solidão humana

Peça com texto do o inglês Alan Bennett é outro acerto na trajetória do grupo

Jefferson Del Rios - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2013 | 20h39

No início do filme M, O Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang, uma figura masculina, assobiando, aproxima-se de uma garotinha. O local e a intensidade da fotografia prenunciam o que irá acontecer. Realizado em 1931, com Peter Lorre, o filme é um clássico conhecido. Meio século mais tarde, o inglês Alan Bennett retorna não exatamente ao tema, mas às circunstâncias de vida fora da sanidade ou alegria.

Escreveu monólogos para a televisão e vários deles chegaram ao palco como Retratos Falantes, que o grupo Tapa transformou em exercício cênico que confirma Brian Penido Ross e Zécarlos Machado como intérpretes superiores.

São dois solos executados com a sutileza que iluminam a arte e o ofício de representar. Histórias soturnas, mas que não chegam a afugentar o público. São acontecimentos cotidianos envoltos no mistério entre Freud e Kafka. Sexo irrealizado e caso de polícia e psicanálise são os pontos centrais dos enredos. Outro é a velhice e seu cortejo de misérias. Flashes da contemporaneidade que está no vizinho ao lado ou batendo à porta de qualquer um.

No primeiro movimento deste dueto da solidão humana, um solteiro maduro cuida da mãe, em avançada senilidade, que se compraz em insinuar a homossexualidade dissimulada do filho. No segundo, o jardineiro de um parque revela submissão que parece ser penitência ou luta silenciosa contra algum obscuro mal secreto.

O texto, ou tradução, não explicita a geografia onde transcorrem essas vidas cinza e anônimas, mas paira no ar que estamos na Europa dos invernos, do individualismo frio, de terras onde as pessoas não se tocam. É no fundo de um lado do Reino Unido não tão grandioso (quem entrou em um pub na periferia de Londres sabe a distância entre as casinhas tediosamente iguais e úmidas dos subúrbios e as cerimônias de Buckingham). Mas a mesma vida pequena transcorre em minúsculos apartamentos paulistanos.

Alan Bennett nasceu em 1934, logo, teve sua adolescência no pós-guerra do racionamento do governo Clement Attlee e chegou ao estado neoliberal duro construído por Margaret Thatcher. Parecem histórias alheias, mas a economia é um processo global a criar por todo lado tipos opostos entre o dinheiro fácil e os dependentes de atendimentos públicos.

Além da questão financeira, há a psicologia, os estados de alma, as neuroses, o fracasso. É este recanto da existência que o escritor descreve. Não fica claro se é só humor negro ou audaciosa autoironia colocar uma senhora de 72 anos como anciã quase demente. Nem todos conseguem o atletismo de um Rolling Stone, mas o fato é que Mick Jagger tem 70 anos (Bennett, 79).

Esta dramaturgia de estrutura radiofônica ou closes de televisão requer pouco cenário e efeitos técnicos. Precisa de bons atores e eles estão presentes. O diretor Eduardo Tolentino acertou no uso de um espaço semivazio, onde uma iluminação mais elaborada daria mais força a esses retratos em preto e branco. Acerta plenamente no clima geral do espetáculo ao se manter em sintonia com o escritor e evitar o melodrama. Nesta linha, Brian e Zécarlos constroem tipos antológicos com subtextos nos olhares e gestos mínimos, sobretudo os de provável caráter sexual. O primeiro fala pelo seu personagem e imita os trejeitos dos que o cercam. O mesmo faz o segundo do servilismo assustado do seu papel de pobre solitário à imitação dos gestos de uma criança ou ao tom de voz nas sondagens matreiras do chefe.

Alan Bennett, neste contexto, faz sentido no repertório do Tapa, que usa textos americanos e ingleses sem esquecer outras culturas. O roteiro de trabalho da equipe prevê futuras leituras dramáticas da nova dramaturgia de Portugal e a possível encenação do polonês Witold Gombrowicz, autor da extraordinária peça Ivone, Princesa de Borgonha. Está aí a razão de Retratos Falantes, além de suas qualidades literárias, ser outro acerto na caminhada do grupo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.