Paula Kossatz/ Divulgação
Paula Kossatz/ Divulgação

Em 'Popcorn', Jô Bilac discute o conceito de originalidade

Dramaturgo não deixa de examinar, nessa obra, a própria condição como artista

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2014 | 22h31

Em uma época em que todas as histórias já foram contadas, a pretensão de ser original soa como uma utopia vã. Em Popcorn – Qualquer semelhança não é mera coincidência, espetáculo carioca que chega ao Teatro Nair Bello, o dramaturgo Jô Bilac coloca o tema em discussão e vem observar os parâmetros de criatividade no novo século.

Saudado como um dos mais promissores nomes da nova geração de autores brasileiros, Bilac não deixa de examinar, nessa obra, a própria condição como artista. Na peça, acompanhamos a história de Marcia, uma dona de casa que acaba de estrear na literatura. Sem nenhuma experiência prévia, ela vê seu primeiro livro transformar-se em best-seller e receber um prêmio internacional.

Para comemorar o feito, a nova escritora marca um jantar em família. Lá, estão o pai Otávio (Ricardo Santos), que é jornalista, o irmão Marcos (Vinicius Arneiro), professor universitário, e a cunhada Roni (Maria Maya), um tipo espalhafatoso e inconveniente. À reunião íntima, soma-se ainda Saubara O’donnor, uma atriz de TV que se interessou em comprar os direitos do livro para transformá-lo em filme.

Reuniões familiares são territórios férteis para mal-entendidos, mágoas a serem reveladas e situações cômicas. Comparado a Nelson Rodrigues pela qualidade de seus diálogos e a acidez de seu humor, Bilac permanece a fazer jus à fama nessa nova obra – que é a 14.ª de sua carreira.

Além da escrita, o jovem autor também se encarregou da direção. Função que divide com Sandro Pamponet, que já esteve ao seu lado em Caixa de Areia, drama que trazia Taís Araujo no elenco e analisava os conflitos existenciais e profissionais de uma crítica de arte.

Em muitos sentidos, Caixa de Areia e Popcorn são peças irmãs. Além de encenadas pela mesma dupla, lançam-se sobre um território comum. “Em Popcorn tentei analisar o contexto de produção de uma obra de arte. Já em Caixa de Areia, vi o outro lado disso, que é a crítica”, considera Bilac.

Muitas eixos da cadeia de produção cultural são observados. Marcia não é propriamente uma intelectual. Nesse seu livro de estreia, o sucesso parece ter sido mero acaso e, mesmo dentro de casa, ninguém parece lhe dar muitos méritos pela conquista. De relance, o funcionamento do mundo das celebridades também é tematizado. Surge a estranha sensação de intimidade que os espectadores de televisão alimentam por pessoas que nunca conheceram. A indústria que transforma a vida privada desses “artistas” em produto a ser consumido.

É a própria biografia de Marcia que alimenta sua obra literária. O que a leva a revelar, sem ter pedido prévia licença para tanto, a vida dos que estão a seu redor. “Eu escrevi uma ficção”, defende-se a protagonista.

Delineado esse quadro, o espetáculo vem relativizar os conceitos de autoria. Em tempos de difusão via internet, informações e ideias circulam sem ter dono. Clichês são revisitados à exaustão. Nada mais se cria, tudo se transforma. 

POPCORN

Teatro Nair Bello. R. Frei Caneca, 569, Shop. Frei Caneca, 3472-2414.

6ª, 21h30; sáb., 21 h; e dom., 18 h. R$ 40. Até 18/5. 

Tudo o que sabemos sobre:
TeatroPopcornJô Bilac

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.