EM PIETÀ AMOR E DOR

O sul-coreano Kim Ki-duk fala de seu filme que venceu o Festival de Veneza

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h47

No Festival do Rio de 2012, no qual veio mostrar o documentário sobre sua retrospectiva no MoMa - Artista Presente, de Mathew Akers -, Marina Abramovic não se furtou a falar sobre Pietà. O longa de Kim Ki-duk, que estreia hoje, ganhou o Leão de Ouro em Veneza. Marina, o maior nome da performance no mundo, integrava o júri presidido por Michael Mann. Ela revelou que foi guerreira pelo filme de Kim Ki-duk. Quando o repórter lhe disse que havia gostado - muito -, ela vibrou. "O filme lança um olhar muito forte sobre o mundo capitalista, sobre a usura, a perversão do dinheiro. Mas não é sobre isso. Há ali uma rara experiência humana de expiação e transcendência. Embora seja norte-americano, formado na escola da ação, Michael (Mann) percebeu isso."

Pietà, com toda certeza, será um choque para muita gente. A escultura criada por Michelangelo em 1499 virou, ao longo do tempo, o emblema da compaixão humana. Maria acolhe nos braços o filho morto. Cristo morreu na cruz para expiar os pecados dos homens. Dor e redenção. O símbolo tem inspirado outros artistas, inclusive no cinema (veja quadro). Mas não foi exatamente a compaixão que moveu o autor do filme. Numa entrevista realizada pela própria produção de Pietà, ele conta: "Quis fazer esse filme como reação ao que vejo. A humanidade está sendo destruída pela dolorosa realidade da ganância do dinheiro que contamina a sociedade sul-coreana".

Mais um romântico na contracorrente da competitividade que dita as cartas no mundo globalizado, pensará algum espectador, tão envolvido na disputa que não tem mais distanciamento para avaliar o que há de desumano no processo. No domingo, no Aliás, em seu texto sobre o legado do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o filósofo esloveno Slavoj Zizek já havia dito: "Todos sabemos que, no capitalismo global dos nossos dias, com sua evolução espetacular, mas profundamente desigual, são cada vez mais numerosas as pessoas sistematicamente excluídas da participação ativa da vida social e política." Sua observação ajustava-se com perfeição ao olhar que o inglês Ken Loach lança sobre os jovens excluídos de A Parte dos Anjos (em cartaz nos cinemas). Serve, também, para Pietà.

Kim Ki-duk rodou seu filme em Cheonggyecheon, uma área de Seul que durante mais de 50 anos abrigou as fábricas que foram a base da explosão econômica da Coreia do Sul. As fábricas desapareceram. Foram substituídas por gigantescos prédios que abrigam conglomerados financeiros. "Cheonggyecheon é a prova infeliz de como a Coreia se transformou numa sociedade orientada exclusivamente para o dinheiro." Para metaforizar seu sentimento, Kim Ki-duk criou uma relação entre mãe e filho. Ele é um sicário que cobra dívidas de agiotas. Como as pessoas não têm dinheiro para ressarcir os juros extorsivos, o filho produz uma legião de aleijados. São cenas de extrema crueldade e violência. Mutiladas, as pessoas recebem o dinheiro do seguro - que vai, via o (anti)herói, para os agiotas.

Ele é um homem solitário. Surge a mãe que o abandonou na infância, ou pelo menos assim ela se apresenta. A dinâmica da relação mãe/filho torna-se cada vez mais complicada. Como reconhece Kim Ki-duk, vai nisso uma ironia. "Uma mulher vinga o filho assumindo a maternidade de seu carrasco", define o autor. Mas o trágico é que ela, também carente de sentimento, vira uma mãe de verdade. "O que eu queria dizer é que é possível formar laços familiares fortes, independentemente de sangue. A família que me interessa é a que não é regida pelas relações econômicas."

O protagonista, Kang-do, é brutal em relação às suas vítimas, mas ele se fragiliza aos olhos do espectador, que consegue ver alguma coisa além do seu lado mais sombrio. Essa outra coisa está na base do roteiro, e do próprio filme. "Nossa personalidade é formada por genes e por nossas experiências no mundo. Kang-do é outro animal humano que leva uma vida amaldiçoada, sem família nem afeto. Encarna o mundo do dinheiro, vira um monstro. Creio que isso pode ocorrer com qualquer pessoa no mundo capitalista. Mas também creio que o amor é uma experiência transformadora. As pessoas podem mudar, e isso é o mais importante. Enquanto escrevia o roteiro, percebi que ele refletia muita gente que conheci, mas sabia que a história que queria contar é a de um ser humano que se arrepende e clama por perdão."

O Leão de Ouro foi importante, não apenas para ele e o cinema sul-coreano, mas como alternativa a Hollywood. "O cinema da Coreia do Sul é original porque suas histórias e seu humanismo são diferentes dos de Hollywood. As decisões do júri de Veneza avalizam a diferença e nos encorajam a seguir fazendo um cinema que não é o da indústria dominante." O filme é pessimista? "Pietà foi feito dentro do espírito de que é possível regenerar, senão salvar, o próprio capitalismo." Se a violência se constitui na linguagem de Kim Ki-duk, sua crença é de que o amor consegue ser maior que o ódio. "No limite, o tema do filme é o fracasso do amor como instrumento de vingança."

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