Em peça, homens encenam o comportamento feminino

Há umas pessoas que parecem viver em círculos, sem pontos de fuga. Cazuza criou genial síntese poética em seu Blues da Piedade para retratar quem "não sabe amar, vive esperando alguém que caiba no seu sonho", uma gente "de alma bem pequena, remoendo pequenos problemas, querendo sempre aquilo que não têm". Nem por isso, a dor dessa gente é menos dor, sua humanidade menos humana. Delas trata a jornalista Célia Forte em sua primeira peça, Amigas, pero no Mucho, que estréia nesta sexta-feira, 2, inaugurando o horário da meia-noite no Teatro Renaissance. Quando a arte trata de pessoas assim pode fazer prospecção tão profunda sobre suas vidas estagnadas - foi o que fez Chekhov - a ponto de despertar compaixão. Dramaturga que se inicia na arte de escrever para o palco, Célia Forte tem a sabedoria de não ter ainda tal pretensão. "Sei que não li o suficiente, mas por outro lado convivo com essas mulheres da minha peça, elas fazem parte de meu círculo de relações, então acho que posso falar sobre elas", diz. E o faz com diálogos bem ágeis, muito bem explorados pelo diretor José Possi Neto, que os traduz em coreografias cênicas nessa montagem que, a julgar pelo ensaio acompanhado pela reportagem, pode se tornar um interessante experimento de humor. Foi sugestão do humorista Marcelo Médici a idéia de fazer o espetáculo com quatro homens interpretando essas mulheres, que se reúnem na casa de uma delas e ali discutem trabalho, amizade, amor, solidão e envelhecimento. A opção pelo elenco masculino resultou em um distanciamento que ajuda a revelar os aspectos patéticos do comportamento dessa mulheres. Mas que ninguém espere travestis fazendo gracinhas. Célia criou suas personagens com características próprias, não fez delas caricaturas. Tais aspectos foram respeitados e bem explorados pelos atores Claudio Fontana, Elias Andreato, Leopoldo Pacheco e Romis Ferreira. "Optei por um jogo cômico sem pudor", diz Possi. Para ser feito por homens, Célia Forte acrescentou prólogo e epílogo. "É como se fossem atores ensaiando para entrar nesse universo feminino de emoções exacerbadas. Eles começam como homens e vão aos poucos se transformando." Cada uma dessas mulheres tem uma compulsão como fumar ou limpar a casa. A vivida por Leopoldo Pacheco come o tempo todo, e é simples, mas delicioso o recurso cênico criado por Possi, e realizado na medida certa pelos atores, para mostrar os "quilinhos a mais? da personagem. Amigas, pero no Mucho. 80 min. 16 anos. Teatro Renaissance (462 lug.). Alameda Santos, 2.233, telefone (11) 3188-4147. 6.ª e sáb., 0 h. R$ 50. Até 1.º/4

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