Em Paraty, de olho no chão

Apesar do aconchego, caminhar pelo piso de pedra da cidade é um desafio. Este é um problema que deve ser encarado com seriedade, já que é grande o risco de acidente

Marcelo Ferraz, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Termina hoje mais uma Festa Literária Internacional de Paraty, a 8.ª Flip, evento anual que, de sucesso em sucesso, vai se consagrando no calendário cultural do País. Essa festa das letras é também a festa da cidade, uma celebração da convivência urbana.

Em Paraty, durante cinco dias de grande agitação de pedestres, pode-se ver e viver momentos raros, quase inexistentes hoje em dia em nossas grandes ou médias cidades: o movimento intenso de gente que passeia para lá e para cá, sem rumo certo, como no antigo footing das cidades do interior; grupos de pessoas com suas cadeiras nas calçadas, defronte às casas, "pegando a fresca", ou nas janelas, acompanhando a movimentação humana.

Gente de todas as partes, por todo o lado, num conversê sem-fim, usando a cidade como palco maior de encontros, assim como sempre deveria ser.

Entretanto, apesar do aconchego e da escala humana e gentil da cidade colonial, passear por Paraty é um desafio. É como saltar de pedra em pedra - escolhendo as alpondras - na travessia de um rio ou riacho. Imagino que todos nós já tivemos essa experiência pelo menos uma vez na vida: ou você acerta a pisada, ou vira o pé, escorrega e cai, se molha, enfim, se dana. Numa cachoeira se espera isso, numa cidade é inadmissível.

O piso de Paraty é restritivo, desconfortável, impróprio para caminhar. E o que dizer dos carrinhos de bebê, das muletas, bengalas e cadeiras de roda? As ruas dessa cidade são exemplos maiores de inacessibilidade.

Esse é um problema que deve ser encarado e não contornado nos dias de hoje. Devemos apelar aos órgãos de proteção do patrimônio histórico em todas as instâncias, e às prefeituras, para que busquem soluções adequadas e criativas para que mais gente possa acessar e circular livre de atenção demasiada ao piso e do risco de acidentes. E não somente em Paraty, mas em todas as nossas cidades históricas que possuem pavimentos irregulares de pedras - lindos, românticos, mas absolutamente intransitáveis, impróprios para caminhar. Ouro Preto, Olinda, Salvador e tantas outras.

Por que não adotar, por exemplo, um granito liso, mas não polido, antiderrapante, no centro das ruas, formando uma pista ou "tapete" de pedra carroçável, inspirado nas antigas pedras capistranas, que formavam um eixo central nas ruas de nossas cidades coloniais? Seriam as nossas "capistranas contemporâneas".

Salto alto. Assim fizemos na rua central do Sesc Pompeia, que é toda em paralelepípedo, muito menos irregular que as ruas de Paraty ou do Pelourinho. Ali tem funcionado muito bem, não só para os que têm dificuldades de caminhar, para as cadeiras de roda e carrinhos, mas também para crianças, idosos e até mulheres de salto alto.

A maioria das cidades históricas da Itália, Espanha ou Portugal possuem ruas de pavimento regular, carroçável e seguro, muitas vezes feitos com materiais modernos como o concreto ou o asfalto. E isso não configura pecado ou heresia contra o "sagrado patrimônio histórico". Vide Assis (Itália), Évora (Portugal), Toledo (Espanha), etc.

De que serve o patrimônio se não pode ser de todos e para todos? É preciso lembrar que as cidades devem atender a usos e demandas atuais, de nossos dias. Não vivemos no passado nem no futuro. E nossas cidades históricas podem até - vejam bem, até - passar por belos cenários, mas são, antes de tudo, cidades, com a plenitude de significados e funções que esta palavra carrega.

O "acontecimento Flip" é exemplar quando propõe a experiência de vida intensa, de trato urbano, enfim, de convivência entre pessoas ou grupos de pessoas. E este exemplo poderia se alastrar, contagiar outras tantas cidades brasileiras, não somente as pequenas e históricas, mas também as grandes, gigantes, como a São Paulo da Virada Cultural. E Paraty poderia sair na frente com uma solução de piso contemporâneo para nossas cidades históricas.

E, quem sabe, nas futuras edições da Flip, com as ruas de Paraty já caminháveis, poderemos, em vez de olhar para o chão - pedra, pedra e pedra -, prestar mais atenção ao casario, às igrejas, às praças e, principalmente, à gente variada que transita pra lá e pra cá. Até lá.

MARCELO FERRAZ É ARQUITETO

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