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Em Oslo, os desafios de um mundo sustentável

Trienal de Arquitetura reúne 625 projetos que levam a ecologia em conta na hora de unir forma e função

Antonio Gonçalves Filho/ Enviado Especial/ Oslo, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2013 | 02h23

Sustentabilidade pode ser pouco mais do que uma palavra da moda para arquitetos empenhados apenas em cumprir contratos de construtoras, mas não para os curadores da quinta edição da Trienal de Arquitetura de Oslo, que começou na quinta-feira em Oslo, Noruega. Behind the Green Door (Atrás da Porta Verde) é o titulo que os curadores belgas do coletivo Rotor escolheram para definir a mostra principal da Trienal, que, desde 2000, colocou em discussão temas atuais como a arquitetura artesanal.

Este ano, o coletivo Rotor, formado por jovens arquitetos e designers de Bruxelas, com bastante experiência em mostras internacionais (eles montaram o pavilhão belga da Bienal de Veneza em 2010) radicalizaram a proposta de buscar novas alternativas para a arquitetura e reuniram 625 objetos recolhidos em mais de duas centenas de escritórios de arquitetura e organizações ambientalistas espalhadas pelo globo, todos usados desde que o termo "desenvolvimento sustentável" foi usado pela primeira vez pela Comissão Brundtland das Nações Unidas, em 1987.

O arquiteto Maarten Gielen, da Rotors, justificou a escolha do tema dizendo que a sustentabilidade é inevitável quando se fala em arquitetura hoje, embora ela venha sendo discutida desde o fim da Segunda Guerra, como mostra outra das exposições da Trienal, Custom Made, esta montada na Escola de Arquitetura e Design de Oslo.

Nela, os curadores fazem um inventário da arquitetura sustentável desenvolvida na Noruega desde 1945, dividindo a mostra em dois módulos: fotos e desenhos de projetos de edifícios ecológicos e um livro babélico com mais de 165 mil paginas integrado por outros livros, catálogos, panfletos e manuais, espécie de Biblioteca de Babel borgiana com tudo de relevante que aconteceu na arquitetura do século 20. Talvez seja a síndrome das atuais bienais: a de Veneza, por exemplo, usa como tema de sua mostra principal o do Palácio Enciclopédico, que pretende abarcar as mais variadas manifestações artísticas.

O curador da próxima Bienal de Veneza, o arquiteto Rem Koolhaas, a propósito, escolheu para a mostra o tema Fundamentais, pretendendo com isso questionar como a arquitetura absorveu a chamada modernidade, aceitando os preceitos da Bauhaus e a hegemonia do pensamento da escola alemã, que torna o casamento da forma e função indissolúvel, com a primeira seguindo a última sem muita discussão. A ressonância desse questionamento é ainda maior se considerarmos que a chamada Escola de Oslo teve igualmente o poder de estabelecer um cânone para a arquitetura norueguesa, aliando-se à tradição, seguido passivamente por jovens arquitetos, o que motivou a promoção de um seminário durante a Trienal para discutir justamente tradição e ruptura (a primeira predomina, como se fosse parte do DNA da arquitetura norueguesa). Os curadores da mostra Custom Made garantem, porém, que não pretendem projetar um novo cânone.

Presente e futuro. O curador da Rotors, Maarten Gielen, assume ser difícil produzir um significado concreto da noção de sustentabilidade arquitetônica, considerando apenas o preceito básico de uma arquitetura que conjugue as necessidades do presente sem comprometer o futuro. Pode um edifício ser considerado "sustentável" apenas por usar materiais ecológicos se o que se passa dentro dele é politicamente incorreto?

Um exemplo dado pelo próprio Gielen: o Centro Presidencial George W. Bush em Dallas, que ganhou o certificado de "sustentável" e abriga, paradoxalmente, uma exposição que celebra a invasão do Iraque e do Afeganistão. O objetivo da exposição em Oslo dos objetos selecionados pelo coletivo Rotors, aliás, é descobrir a escolha pessoal de cada um dos convidados da Trienal, uma vez que ela revela como cada um se relaciona com o conceito de sustentabilidade. O Rotors resume, em poucas palavras, à ambição política dos arquitetos europeus: romper com os esquemas existentes em favor de um novo modelo que esteja em harmonia com o meio ambiente.

Ontem foi aberta outra mostra sobre os pioneiros da sustentabilidade, mostrando como a contracultura ajudou a criar um novo tipo de arquitetura menos preocupada com o conforto e mais com a preservação ecológica. Aquilo que hoje conhecemos como "green design", ou seja, o design ecológico, está estreitamente ligado à arquitetura alternativa e aos movimentos contraculturais surgidos nos anos 1960 e 1970. Exemplos desse design, assinados por nomes históricos (Steve Baer, Jay Baldwin) serão exibidos na exposição que ocupa a Oslo Open House, cuja estrela é o visionário Graham Stevens, que, nos anos 1970, imaginou estruturas como grandes nuvens sobre o deserto americano. Arquitetura, como se conclui, é poesia. Para rimar com ecologia.

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