Leonardo Soares/Estadão
Leonardo Soares/Estadão

Em ‘O Caminho de Ida’, Ricardo Piglia cria redes conspiratórias

Autor percorre da ficção narrativa ao exercício crítico

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2014 | 03h00

Um romance do escritor argentino Ricardo Piglia é como um novelo que, ao se desenrolar, surpreende o leitor com suas inúmeras e diferentes camadas. É o caso de O Caminho de Ida, que a Companhia das Letras acaba de lançar. A começar pelo título, dúbio, que tanto pode significar o início de uma jornada qualquer como marcar a trajetória de Ida Brown, personagem chave do romance.

A história se passa nos anos 1990, quando Emilio Renzi, alter ego de Piglia, é convidado para ministrar um curso sobre a relação entre os escritores W. H. Hudson e Joseph Conrad em uma prestigiosa universidade da costa leste americana. Ao chegar no campus, ele logo conhece Ida, brilhante e polêmica diretora de seu departamento. É importante lembrar que Piglia é professor emérito da Universidade de Princeton, nos EUA, onde viveu em um campus semelhante ao da trama.

O enredo muda drasticamente de rumo quando Ida sofre um acidente mortal e seu corpo é encontrado com uma das mãos queimadas, indício de ligação com uma série de atentados contra figuras de proa do mundo acadêmico norte-americano. O assombro aumenta quando se descobre que o autor dos crimes é Thomas Munk, brilhante matemático que se afastou da carreira universitária, preferindo defender ideologias de cunho regressivo – escrever, por exemplo, um texto radical intitulado Manifesto Sobre o Capitalismo Tecnológico. Interessado na loucura de Munk, Renzi decide reconstituir seu passado e viaja para a Califórnia, onde o entrevista na cadeia.

Para Ricardo Piglia, a literatura é propícia para não se decidir entre a realidade e a ficção. Com isso, trabalha com uma espécie de novela-ensaio, ou seja, o aspecto teórico se incorpora ao mundo da trama, o que lhe permite transitar na fronteira entre a ficção narrativa e o exercício crítico. Resultado: há sempre uma história escondida dentro de outra, a vida cotidiana encobre uma narrativa subterrânea, o que alimenta todo tipo de leitor: desde o apaixonado por suspense como aquele que se encanta com digressões literárias. Sobre o assunto, Piglia conversou por telefone, desde Buenos Aires, com o Estado.

O fato de ter vivido em um campus americano facilitou o trabalho da escrita?

Foi uma escrita mais rápida que o habitual, pois não sofri interrupções durante o processo, que levou um ano. O que me ajudou foi utilizar o material que estava em meu diário, escrito quando morei nos Estados Unidos. Assim, pequenos detalhes que ajudaram na sensação de imediatismo, que contribuíram para velocidade da prosa, foram tirados dali.

O senhor já confessou sua admiração por prosas consideradas lentas (Juan Carlos Onetti, Juan José Saer), mas, na prática, a sua escrita busca o contrário, uma agilidade narrativa, correto?

Sim, admiro muito esse tipo de prosa ágil. Tenho o desejo de escrever de uma tal forma que o leitor acabe induzido de que aquele fato descrito está ocorrendo naquele exato momento. Claro que isso não passa de uma ilusão, pois a sensação que fica é o de um relato criado pela memória, algo em que Proust é um especialista – ele escrevia romance como se fosse um diário, reconstruindo uma vida privada em todos seus detalhes, captando instantes. Para mim, a prosa necessita ser rápida, seguir um ritmo, ter um fraseado, fluir. É isso o que chamo de estilo. Não me interesso pelo léxico ou pelas palavras, mas sim o que está entre elas, o que as faz se moverem. Eu disse, certa vez, que isso é possível descobrir em obras de argentinos como Rodolfo Walsh e Antonio Di Benedetto, e também na prosa do chileno Roberto Bolaño, que revela uma energia poderosa, certamente herança da Geração Beat. Aliás, você já notou como Burroughs é mestre nisso? Como seu ouvido era infalível para detectar as frases corretas?

Como foi construir um personagem que vive longe de seu país e busca uma outra identificação?

É uma sensação muito contemporânea, graças ao aumento dos fluxos migratórios no mundo de massas que buscam melhores condições de vida. Creio que estamos sempre escrevendo o romance do exilado. Esse livro é, para mim, a história sobre estar fora de seu habita, na posição de um estranho – não como imigrante, viajante ou mesmo exilado, mas alguém que trabalha em outro país sem sentir falta da Argentina, ou da convivência com compatriotas. Alguém que tenta "agir" como um norte-americano.

O livro traz discussões, por exemplo, sobre terrorismo. Como funciona a relação entre política e literatura em seu trabalho?

Aqui também é importante a influência das nossas próprias tradições. Aqui, como no Brasil, vivemos momentos em que atitudes políticas foram decisivas no nosso dia a dia. Histórias de amigos, especialmente os obrigados a viver na clandestinidade, influenciaram meu relato. É essa trama real, marcada muitas vezes por redes secretas e construções clandestinas, que influencia meu trabalho.

O escritor italiano Leonardo Sciascia usava o suspense como veículo para falar sobre questões de identidade. Aqui, o senhor parece ter tomado o mesmo caminho, estou certo?

Sim. Acredito muito na força da literatura policial que, não à toa, tornou-se um gênero mundial. Cada escritor trabalha a investigação em espaços muito específicos e, com isso, oferecem retratos muito específicos de sua sociedade. Basta ver Rubem Fonseca, notável autor que trouxe ao gênero grandes descobrimentos, assim como fizeram Nabokov e Borges. Creio que o um dos caminhos a serem seguidos para se atingir uma renovação do romance contemporâneo é estimular a união de tramas com problemas mais complexos com os gêneros populares, notadamente o policial. Porque há nisso uma possibilidade de se discutir a questão de identidade, que é a relação do indivíduo com sua sociedade. Afinal, enquanto o jornalismo nos oferece uma realidade já julgada e avaliada, a ficção nos permite julgar experiências muitas vezes densas e incertas, e cujo sentido está sempre aberto.

W. H. Hudson e Joseph Conrad são também personagens e têm até funções narrativas específicas.

São escritores que admiro, leais às nossa tradição latino-americana de desajustados. Também são donos de uma trajetória digna de uma narrativa ficcional. Hudson é um dos primeiros artistas a perceber os desastres provocados pela revolução industrial e, por isso, iniciou sua reconstrução utópica e elegíaca da vida natural em uma Argentina então semisselvagem. Já Conrad realizou suas ambições por meio de sua escrita, algo como um D. Quixote.

E, como é tradicional em sua obra, jogos literários são oferecidos ao leitor, como a discussão sobre como a leitura das peças de Shakespeare iluminou a mente de Herman Melville, a ponto de Moby Dick, inicialmente um romance comum, ter se transformado em uma obra-prima.

São detalhes apaixonantes. Trabalho em certo circuito cultural que funciona como uma partida de futebol: sempre há uma relação entre todos jogadores. E tenho essa tentação de

videnciar as paixões que identifico.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.