Guilherme Pupo/Divulgação
Guilherme Pupo/Divulgação

Em novo romance, Cristovão Tezza recria olhar deliberadamente anacrônico

'O Professor' é marcado pela alternância entre primeira e terceira pessoas

João Cézar de Castro Rocha, Especial para O Estado de S. Paulo

28 de março de 2014 | 03h00

O novo romance de Cristovão Tezza, O Professor, concentra a narrativa no espaço de poucas horas. Nelas, o professor aposentado de Filologia Românica, Heliseu da Motta e Silva, prepara-se para receber, aos 71 anos, uma homenagem por sua carreira. Entre o lento despertar que abre o texto - “Acordou de um sono difícil” - e a conclusão - “Meteu o papel no bolso, satisfeito, e correu uma última vez para o espelho, demorando-se um segundo mais. Estou bem” -, o professor passa a limpo sua vida, enquanto imagina o discurso que deverá fazer.

O nome do personagem é revelador: Heliseu, grafia arcaizante, perfeita para a opção que definiu sua atividade docente: “cinco anos antes, ninguém queria dar aulas de Filologia Românica, aquela excrescência curricular”. Aliás, o professor de História, típico revolucionário de plantão, também possui um nome que o leitor, ao decifrar, não pode deixar de sorrir: João Veris.

A cronologia é esclarecedora. No final dos anos 70, momento em que a teoria passou a dominar os departamentos de Letras, Heliseu esboçou um autorretrato intelectual evocando sintomaticamente um verso de Carlos Drummond de Andrade: “eu sou da velha e boa filologia românica e ramos derivados, eu penetro surdamente no reino das palavras, a sólida gramática histórica, o texto concreto no papel e no pergaminho”. 

No auge da influência da disciplina Teoria da Literatura, com o advento do estruturalismo e a crença na produção de conhecimento objetivo, quase científico, Drummond publicou, no Jornal do Brasil, em 12 de abril de 1974, um poema-protesto, provocadoramente intitulado Exorcismo: “Da semia / Do sema, do semema, do semantema / Do lexema / Do classema, do mema, do sentema / Libera nos, Domine (...)”. Em outras passagens do romance, versos de Drummond surgem em meio às frases.

O texto é atravessado por um olhar deliberadamente anacrônico, imagem do comportamento do professor Heliseu, muito menos interessado nas questões políticas do momento da abertura do que nas transformações multisseculares da língua portuguesa, com destaque para a “queda das consoantes intervocálicas, ocorrida entre o século X e século XI, na região onde se fundaria lá, por 1096, o Condado Portucalense, de onde vieram Portugal, Brasil e tudo deu no que deu”. Por isso, inúmeros exemplos do português antigo são recordados pelo professor, num instigante procedimento, que associa a história distante do idioma com a reflexão do professor sobre seu passado. 

Esse é um dos níveis do romance, que opera o efeito musical de um baixo contínuo. Dois outros planos se destacam.

O relacionamento malogrado com as duas mulheres de sua vida: Mônica e Therèze. A primeira desenvolve uma relação, digamos muito especial, com uma colega de curso de inglês, Úrsula. A segunda o abandona ao engravidar de outro homem. De igual modo, e eis o veio subterrâneo da narrativa, a complexa história de um inesperado eterno retorno condiciona a memória do professor.

Exatamente como o narrador proustiano, o menino Heliseu somente conciliava o sono com a presença protetora da mãe. De igual modo, Mônica reproduziu o gesto com o filho do casal: “foi mais uma vez ao quarto para abraçá-lo, beijá-lo e abraçá-lo de novo e beijá-lo”. Repetição tornada forma, como se percebe.

A reiteração mais inquietante consiste na concretização de uma metáfora: “eu, a sonhar, caía interminavelmente”. Sua mãe “morreu pouco tempo depois, de uma queda prolongada na escada”. O menino Heliseu acreditava na culpa do pai. Décadas mais tarde, Mônica sofreu queda semelhante da varanda do apartamento do casal. De igual modo, seu filho, Eduardo, responsabilizou o pai.

A relação de Heliseu com o filho é outra forma de queda, tornada abismo “quando ele abriu a porta do quarto do filho, há 25 anos, e encontrou-o com o colega”. Distância idêntica separou Heliseu de seu pai.

O professor aposentado vive dividido entre uma história que lhe antecedeu e suas próprias decisões, e o recurso constante ao português arcaico traz essa dimensão para a superfície do texto. A fim de dar conta dessa dualidade constitutiva, Tezza desenvolve uma impecável forma literária. A voz em primeira pessoa de Heliseu predomina ao longo do romance, mas ela é interrompida com alguma frequência pela irrupção de um narrador onisciente. Mais do que recorrer ao discurso indireto livre, Tezza produz uma marca linguística particular, caracterizando a oscilação estrutural do personagem nesse jogo permanente entre as vozes em primeira e terceira pessoa. 

Veja-se o procedimento. No final do texto, o professor “arrancou uma folha de um bloco de anotações: se eu não escrevo, parece que as coisas não existem”. Na busca de um espaço só seu, o professor evoca a autora de A Room of One’s Own.

Eis a ironia final: precisamente o que Heliseu não chegou a redigir é o discurso que em poucos instantes terá de fazer. Ele apenas rabiscou notas, nem mesmo preparou um rascunho. Mais ou menos como fazemos com nossas vidas. 

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ E AUTOR DE "MACHADO DE ASSIS: POR UMA POÉTICA DA EMULAÇÃO"

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