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Em novo livro, Valter Hugo Mãe sai de Portugal e adota narração feminina

'A Desumanização' tem como protagonista uma menina de 11 anos que experimenta o ato de estar só após a morte da irmã gêmea

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2014 | 19h07

Premiado, idolatrado pelo leitor brasileiro, elogiado pelo conterrâneo José Saramago, o escritor português Valter Hugo Mãe tem motivos de sobra para navegar em tranquilos mares literários. Teria – seu novo romance, A Desumanização, lançado agora pela Cosac Naify, é recheado de desafios. Afinal, é a primeira vez que ele ambienta uma história fora de Portugal (o país escolhido é a Islândia) e também que seu narrador é uma mulher.

A Desumanização tem como protagonista uma menina de 11 anos que experimenta o ato de estar só após a morte da irmã gêmea. Como de hábito, Hugo Mãe revela seu olhar acolhedor ao descrever a melancolia que domina o espaço. Sobre o assunto, o escritor respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Fale, por favor, desses desafios.

Quis mesmo fugir das minhas referências mais imediatas, colocar-me em perigo, precisar aprender algo ou prestar atenção em algo menos comum para mim. Foi muito angustiante, a princípio, sobretudo porque procurava uma linguagem estética que não parecia convencer-me. Demorei até gostar do que escrevia. As primeiras versões foram todas para o lixo. A dada altura, sempre pelo mesmo inexplicável milagre da literatura, as coisas fizeram sentido, ao menos para mim. A menina existia, tinha uma voz específica e a Islândia já era uma natureza minha também. Claro que estou invariavelmente a falar de um abuso. É um abuso escrever para a voz de uma menina e é um abuso escrever sobre a Islândia. Mas o resultado deixou-me apaziguado. Não satisfaz para sempre, porque a arte nunca nos satisfaz para sempre. Mas estou em paz com esse desafio. Estou já à procura de outro.

E por que a Islândia?

Poderia ter escolhido um outro país para um primeiro livro em que Portugal não entra. Guardo a intenção de pensar sobre lugares como Angola, Brasil, Japão. Desta vez, talvez pela dimensão solitária daquela ilha, foi irresistível escolher a Islândia. Queria estabelecer uma diferença grande entre a energia deste novo livro e a do anterior, O Filho de Mil Homens. A Islândia, que me vinha fascinando a vida inteira, permitiu que eu voltasse a uma espiritualidade que, mais e mais, me apela. Depois de passar dos 40 anos, além de perceber bem o que me falta, aquilo em que falhei, estou recuperando uma necessária espiritualização com o mundo, talvez até com alguns santos. Ainda estou à procura de entender isso melhor.

Por que Desumanização, se o livro traz talvez sua prosa mais poética?

Significa que, se não tivermos uma enormíssima força interior, vamos perdendo sensibilidade para passarmos a ser quem nunca julgamos vir a ser, talvez sejamos quem detestamos antes. Crescer, envelhecer, é virar menos gente. Por isso, a infância fica de reduto nostálgico para todas as vidas.

A coragem de se saber sozinho, que tanto marca a narrativa do livro, é um sentimento que também o marca ou é apenas fruto de um momento específico?

Não sei estar sozinho. Não tenho essa coragem. Procuro aprender com o que escrevo, com o que leio. Com tudo. Mas eu não sei. Sou profundamente dependente. Familiar e menino sob saia da mãe. Sou. Não creio que mudarei isso. Invejo, paradoxalmente, quem consegue autonomizar-se e fugir de tudo. Eu não fujo. Sou sempre apanhado. Uma presa fácil.

Halla sente a morte da irmã gêmea como se perdesse a própria identidade. Isso acontece apenas com gêmeos ou a relação entre algumas pessoas pode ter o mesmo significado?

Creio que pode acontecer, e acontece, com todas as pessoas que encontram em alguém o lado de lá da vida. Este livro reflete acerca do sentido profundo da vida e concluí que o outro é esse sentido. Vivemos para o encontro. Somos gente quando está em causa a alteridade. Eu acredito que podemos encontrar quem justifique absolutamente o fato de existirmos. Podemos encontrar alguém que nos torna justa toda a espera, o medo, a aprendizagem, o sofrimento, a perda. Há sempre uma pessoa que nos salva tanto quanto podemos ser salvos.

Em um dado momento do livro, está escrito: "As pessoas que não liam não tinham sentidos". Qual a força da literatura atual, especialmente em um mundo tão dominado pela internet?

Tem muita. Encontro muitas pessoas que se dizem mudadas por algo que leram num livro, incluindo num livro meu. É o último dos prêmios. Gente que aceitou ser pai depois de ler O Filho de Mil Homens, gente que resgatou familiares de lares para idosos depois de terem lido a máquina de fazer espanhóis, gente que decidiu começar a trabalhar, começar a escrever, casar, descasar. Tudo. A literatura importa para estas coisas profundas. Ela não precisa pensar em todas as pessoas do mundo, ela fala de todas as pessoas do mundo de qualquer modo. E quem tiver a fortuna de ler, pode ter a fortuna de mudar, de melhorar. De se sentir intensificado na experiência de viver.

Questionado sobre se expor no texto, você costuma responder que seus livros não lhe correspondem. Como consegue criar um texto tão íntimo, mas capaz de "enganar" o leitor?

Todos os livros são verdadeiros assim mesmo, como um modo de pensar acerca de assuntos que correspondem ou não aos nossos problemas, às nossas questões. Podemos pensar honestamente sobre aquilo que diz respeito aos outros. Nesse aspecto, a literatura tem eminentemente um pé assente na verdade. A literatura é verdadeira. Não precisa de correspondência biográfica. Ela precisa de honestidade intelectual. Vivo fascinado com descortinar o retrato de outras pessoas. Entender as outras pessoas é uma magia. Os outros são uma magia.

As personagens de mãe e filha, são forças opostas, como morte e vida. Como surgiram?

Precisei criar antagonismos claros para reforçar a mensagem de que andava à procura. A mãe de Halldora impressiona-me muito e solicita uma compaixão estranha. Mas solicita, sim. Eu não consigo desgostar dela. E não a posso julgar em absoluto. Aliás, não posso julgar quase ninguém, dentro deste livro, porque estas pessoas são complexas, como todos nós, e nenhuma decisão sobre a ética de cada um é fácil. Estamos abandonados à intuição. A razão não explica quase nada sobre isto.

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