Em nome do Pai E do filho

E chega o melhor da 38ª edição: Minha Vida Com Carlos e Não Se Pode Viver Sem Amor

Luiz Carlos Merten/GRAMADO, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

Não Se Pode Viver Sem Amor. Filme do chinelo Jorge Duran é uma fábula sobre a família        

 

 

 

 

E na quarta noite chegou o melhor do 38.° festival, até agora. Passemos olimpicamente sobre a primeira sessão de curtas, realizada à tarde, e que foi desastrosa. O número de curtas concorrentes este ano em Gramado passou de 12 para 16. Os quatro exibidos no primeiro dia foram de mal a pior - Um Lance do Acaso, Pinball, Ninjas e Minha Alma É Irmã de Deus. A salvação veio à noite. Foi a do Chile em Gramado 2010. Começou com o documentário Minha Vida Com Carlos, de German Berger, prosseguiu com Não Se Pode Viver Sem Amor, de Jorge Duran, cineasta chileno radicado no Brasil (desde o golpe de 1973).

Minha Vida Com Carlos é sobre esse filho (o diretor do filme) que investiga o assassinato do pai pela ditadura militar. Ele tinha 30 anos quando foi morto, a mesma idade de Berger. A morte brutal teve um efeito devastador na família. Um tio isolou-se no silêncio, outro se exilou, os avós se mataram. A mãe seguiu com seu filho, levando adiante a luta que não era só do marido.

Numa cena, German pergunta à mãe por que ela se apaixonou pelo pai? E ela diz um monte de coisas sobre o caráter de Carlos, sobre a sua crença no comunismo, na luta de ambos por um mundo mais justo, mas conta, principalmente, que ele era muito divertido e a fazia rir. Mais tarde, o filho pergunta de novo - por que ela nunca mais se casou, construiu outra família? A mãe responde que, se o tivesse feito, a vida e a morte de Carlos teriam sido em vão e ela não poderia permitir que isso ocorresse.

Minha Vida Com Carlos pode ser definido como uma egotrip de German Berger. Num certo sentido, o filme lembra um pouco Santiago, de João Moreira Salles. Talvez o mais belo documentário da história do cinema brasileiro. Misturam-se em Minha Vida Com Carlos o público e o privado. Falando de si, da sua família, do trauma produzido pela morte do pai, German Berger fala do Chile. O não dito que pesava sobre aquela família, como sobre o país, vem à tona. A morte do ditador Pinochet encerra uma etapa. Psicanaliticamente, o adeus ao pai carrasco da pátria permite que German reencontre Carlos e possa iniciar, enfim, na lembrança sua vida com ele. Não por acaso, a produtora de Berger chama-se Por las Niñas.

Pelas Garotas, pelas filhas dele - agora, ele entende o que o pai deve ter sentido por ele, o que os avós sentiam por Carlos. A egotrip é emocionante, mas não se sustentaria se o filme não fosse tão criativo na sua linguagem documental, na maneira de buscar as fontes, de encenar certos fragmentos para que não se percam. O filme de Jorge Duran entrou na sequência desse espaço aberto pelo de German Berger. Não Se Pode Viver Sem Amor já havia sido espinafrado pela crítica ao ser exibido no Festival do Recife, no primeiro semestre. O filme, em si, não mudou, mas a relação do espectador, ou do crítico, com ele, sim.

Para dizer a verdade, o próprio filme mudou, sim. A versão exibida segunda-feira à noite em Gramado foi muito mais luminosa (e bonita). Não Se Pode Viver Sem Amor é um projeto que tem no mínimo dez anos. Teve outros títulos - Gabriel -, passava-se originalmente em São Paulo, agora é no Rio, mas na essência sempre foi uma fábula, segundo o diretor - uma alegoria, mais exatamente -, sobre a família. Não por acaso, começa numa véspera de Natal e se conclui com um epílogo, um ano depois. No começo, Gabriel, o menino sensitivo, com poderes especiais, sai de casa em busca do pai. Ao mesmo tempo, na cidade grande, um jovem lança-se numa espiral de violência para ganhar dinheiro e impressionar uma prostituta. De arma na mão, ele assalta um taxista, cujo pai vai morrer.

A morte faz parte da vida e não é definitiva, segundo a experiência do filme. Há um milagre em Não Se Pode Viver Sem Amor e este elemento sobrenatural tem desconcertado o público e a crítica desde o Recife. Há quem ria - de nervoso? - na cena decisiva. Na verdade, todos os personagens se relacionam e as ligações entre eles são mais enriquecedoras do que o milagre filmado pelo cineasta e do qual ele não abriu mão, nem quando o mesmo recebeu parecer desfavorável em consultorias de roteiro. Os milagres são dois, e o outro é que o menino, procurando o pai, encontra a mãe. Tudo isso você poderá conferir quando Não Se Pode Viver Sem Amor estrear nos cinemas, distribuído pela Pandora Filmes. Seria bom se os mistérios da distribuição e exibição colocassem juntos nos cinemas o filme de Duran e o do diretor chileno que concorre aqui em Gramado. O 38.° festival começou realmente ontem.

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