Em New Orleans, lenda no palco

Ele ouviu ao vivo as big bands dos anos 50, o bebop, o hard bop, a fusion, e nada disso foi capaz de tirá-lo do sério. O assédio, porém, parece deixá-lo perturbado. Ainda assim, Lionel ri com os olhos, achando divertido toda aquela gente querendo tirar foto consigo, apertando sua mão, querendo saber a história de como ele ganhou, há 77 anos, o bocal do trompete com o qual toca até hoje. Responde a tudo, mostra as relíquias.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Lionel Ferbos não se considera um homem afortunado: seu melhor amigo, o baterista John Robichaux, morreu afogado durante o Katrina; sua mulher, Marguerite, o deixou em 2009; o filho, Lionel Jr., morreu de câncer em 2006. "Quando você viveu bastante, tudo muda muito rápido à sua volta. Eu toquei com grandes músicos, com grupos formidáveis, e essa tem sido a melhor parte de viver muito", disse o velho Ferbos, após deixar o palco do New Orleans Jazz Fest, onde foi homenageado pela The Palm Court Jazz Band pelo seu centenário. Lionel é o jazzista mais antigo em atividade na Capital do Jazz - começou a tocar profissionalmente há 84 anos e completará 100 no dia 17 de julho.

Ele toca em igualdade de condições com os músicos da banda, sem parecer o veterano. Os fotógrafos o procuram, mas só têm certeza de quem ele é quando tudo acaba e todos os músicos vão abraçá-lo, e ajudá-lo a sair do palco.

Ele comprou seu primeiro trompete em 1926, após ouvir a banda de Phil Spitalny. Não é apenas uma curiosidade antropológica sendo resgatada, Ferbos tem o respeito dos grandes da atualidade, como Allen Toussaint, com quem já tocou. "Ele não era só um trompetista de New Orleans, era admiravelmente bom", disse Toussaint.

O resgate de Ferbos mobilizou meio mundo da imprensa por aqui. Um derrame o deixou com as pernas fracas, mas a memória intacta - consegue reconhecer todos os 35 músicos da banda com a qual ganhava trocados na era da Grande Depressão. Curioso é que foi uma outra "recessão" que trouxe Ferbos de volta à ativa: há alguns anos, ele mantinha uma lojinha na cidade, mas o furacão a engoliu e ele voltou a fazer shows.

De certa forma, sua carreira nunca conheceu grandes estagnações. Nos anos 70, ele excursionou pela Europa com a New Orleans Ragtime Orchestra. Em 1979, cantou e tocou trompete no musical One Mo" Time, quando tocou com o famoso dr. Michael White. Ao jornal local The Times Picayune, Ferbos deu sua receita de longevidade: "Gosto de mulher bonita. E toco para meu próprio prazer, faço música porque gosto".

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