Em musical, a trajetória de Gonzagão é narrada por grupo que se reveza no papel

Em musical, a trajetória de Gonzagão é narrada por grupo que se reveza no papel

‘Gonzagão – A Lenda’ narra a trajetória do músico, da infância à vida adulta, em mais de 30 canções

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2013 | 19h19

São nove atores em cena (apenas uma mulher) que se multiplicam para viver uma figura eterna. O musical Gonzagão – A Lenda, em cartaz no Sesc Belenzinho, é fruto do esforço criativo do escritor e diretor João Falcão, um pernambucano que cresceu ouvindo os sucessos do Rei do Baião. “Foram suas canções que me ajudaram a moldar a imagem do sertão, a descobrir a importância das festas juninas, a considerar o valor da resistência do nordestino”, comenta Falcão. “Para mim, Luiz Gonzaga é uma figura com uma força mítica maior que a do Padre Cícero.”

Gonzagão – A Lenda narra a trajetória do músico de uma forma carinhosa, não se prendendo rigidamente à linha do tempo. Por meio de mais de 30 canções (como Asa Branca e Xote das Meninas), o espetáculo acompanha a trajetória de Luiz Gonzaga (1912-1989), da infância pobre ao músico consagrado. “Minha intenção é a de explicar a importância do trabalho e de como Gonzaga se transformou na cara do Brasil: um homem pobre que deixou o Nordeste para virar rei”, diz Falcão. “Trata-se da identidade alegre de uma gente sofrida.”

A narrativa flui como uma fábula, com direito a licenças poéticas como o encontro (provavelmente fictício, pois não há comprovação) entre Gonzaga e Lampião. “O cangaceiro profetiza a história de como o músico vai se tornar Rei do Baião”, observa o diretor e criador, que confessa ter enfrentado dificuldades para escolher as canções do espetáculo. “Eu acreditava que conhecia bem todas elas, mas me surpreendi ao constatar que havia muitas que eram novidade para mim”, conta.

Livre de amarras históricas, Falcão criou uma trama que se passa no futuro, quando o sertão virou mar. Lá, distante do século 20, um grupo lembra a lenda do Rei Luiz e, à medida em que vai entoando suas canções, apresenta também novas facetas de Gonzaga.

As músicas selecionadas são tocadas por quatro instrumentistas e cantadas por nove atores e Gonzaga, em todas as fases da vida, é interpretado ora por um ator, ora por outro. “É como se os intérpretes juntassem cacos de memórias. Ao mesmo tempo em que usam chapéu de couro, vestem calça de látex”, afirma Falcão.

Um dos grandes trunfos da montagem, aliás, é seu elenco, formado por Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Paulo de Melo, Renato Luciano, Ricca Barros e Marcelo Mimoso. A temporada paulistana marca a estreia de Larissa Luz, ex-vocalista do Araketu, no elenco. Ela substitui Laila Garin, atualmente protagonista de Elis, A Musical, em cartaz no Rio. “Vi Larissa cantando em um vídeo de internet”, lembra Falcão. “Larissa é muito expressiva e tem uma presença forte.”

Não se trata de mera retórica – o bom relacionamento em cena é decisivo para o sucesso do musical, um dos mais empolgantes dos últimos anos. A multiplicidade de papéis ressalta o talento vocal e corporal do elenco, que recria com fidelidade a trajetória de Gonzagão.

E a sanfona também está presente, de uma forma dignificada. “Como o texto e a direção não são realistas, vi a oportunidade de desviar da estética tradicional do baião, a sonoridade de raiz, a sanfona, a zabumba e o triângulo, incluindo o cello, a rabeca, a viola caipira e a percussão com bateria”, comenta o diretor musical, Alexandre Elias.

 

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