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Em 'Mia Madre', Nanni Moretti passeia à vontade em tema complexo

Diretor está genial em novo longa

O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2015 | 03h00

Só de Nanni Moretti poderíamos esperar um filme sobre uma mãe agonizante, e que fosse tão comovente quanto isento de excessos e chantagens emocionais. Nanni, nessa história intimista, nos traz o melhor do seu cinema, um mergulho profundo na personagem central. Que não é a mãe, mas sua filha.

Margherita (Margherita Buy) é uma cineasta que está rodando um filme particularmente difícil. Sua vida se torna ainda mais tensa quando descobre, com o irmão Giovanni (Nanni Moretti), que sua mãe está irremediavelmente doente. Os médicos preparam os dois irmãos – não há nada a fazer. A morte é questão de tempo. Quem já viveu esse tipo de situação pode avaliar quanto de desgaste psicológico provoca nos filhos. O lance do filme é somar tensão sobre tensão. Margherita não apenas tem a mãe à morte como exerce um trabalho que não pode interromper. A filmagem torna-se mais tensa quando chega aos Estados Unidos um ator ítalo-americano, que será o protagonista. John Turturro interpreta esse ator egoico, problemático, e que cria dificuldades adicionais para a pobre cineasta já tão sobrecarregada. Será ele o responsável por cenas tragicômicas, que temperam o drama com riso.

No filme de Nanni Moretti, e no qual ele próprio atua, tudo é posto em função de Margherita Buy. Nanni se coloca em posição secundária. Até mesmo por uma questão de caráter dos personagens. Enquanto a cineasta é impositiva e agressiva (mal disfarçando com isso a própria fragilidade), o engenheiro Giovanni é um tipo mais compreensivo, talvez até sofrendo de certa passividade. Mas é claro que o cinema de Nanni é sofisticado demais para trabalhar com oposições tão primárias. Não estamos aqui no universo plano de Guerra das Estrelas, mas no humano mundo das nuances, das contradições e das ambiguidades.

Em suma, Giovanni e Margherita são personagens com os quais a parte adulta do público pode se identificar. Sentimo-nos como eles diante do drama que enfrentam. Sentimos por intermédio deles, na verdade, ainda que não tenhamos passado por experiência semelhante.

A mãe, Ada, é uma filóloga, uma erudita que, ainda doente, tenta inculcar na neta um pouco do conhecimento do latim. “Para onde vai essa erudição, todo esse saber acumulado?”, se pergunta Margherita. Para onde vão as qualidades das pessoas quando elas já não mais estiverem aqui? A resposta (se é que existe uma para este tipo de questão) virá de um ex-aluno de Ada (Giulia Lazzarini).

Mia Madre é um daqueles filmes que se concentram em seu tema, mas, ao mesmo tempo, o desdobram em novas séries de possibilidade. Por exemplo, o drama de Margherita, ao enfrentar várias frentes de pressão, nos parece abrir um diálogo com o clássico 8 1/2, de Federico Fellini. Para torná-los próximos, não falta nem mesmo a tradicional presença de um produtor exigente, que só tem olhos para a viabilidade do filme a ser feito, ignorando por completo a exaustão do diretor que deve torná-lo real. Por outro lado, há também o diálogo com o cinema social, muitas vezes presente na obra de Moretti, um artista que, com frequência, abraça causas políticas embora se diga saturado com o atual momento da Itália. Esse lado comparece pelo tema do filme que Margherita está realizando, com tanto custo. Ele é sobre o movimento de operários que tentam conter as demissões numa fábrica vendida a uma multinacional e comandada pelo personagem de John Turturro.

Cinema adulto, o desafio diante da morte, pegada social ainda que indireta, reflexão sobre o sofrimento artístico diante da criação – tudo isso é Mia Madre que, com esse arco de ambições, nos coloca, por fim, diante dessa experiência para a qual nunca estamos de fato preparados, o desaparecimento de nossos genitores. Nesses temas difíceis, Moretti passeia à vontade e está, mais uma vez, genial.

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