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Em MG, Instituto Inhotim ganha mais 9 obras permanentes

Entre artistas que assinam intervenções e instalações do local estão Doug Aitken e Matthew Barney

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2009 | 17h39

Vigas de construção mergulhadas numa piscina de cimento, um furo de 202 metros de profundidade no qual microfones geológicos captam o som da terra e uma instalação formada por 98 alto-falantes que remetem ao conturbado ambiente sonoro de um sonho. Espaço que reúne um dos principais acervos de arte contemporânea do mundo, o Instituto Inhotim, em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, inaugura para o público nesta quinta-feira, 1º, nove novas obras permanentes, na maior ampliação de seu conjunto artístico desde a inauguração, em 2004.

 

Num conceito de extensão espacial e também conceitual, projetos de artistas contemporâneos consagrados nos cenários nacional e internacional foram selecionados para reproduzir a ideia de "destino", em que o museu avança sobre a natureza local. De acordo com o alemão Jochen Volz, diretor artístico do Inhotim e um dos curadores da instituição, em obras dos "Nove Novos Destinos", o local oferecido para a montagem e suas possibilidades costumam influir nos projetos.

 

"Se há um fio condutor, este é a relação que Inhotim permite entre o artista e a natureza no processo de concepção da obra". É o caso de Sonic Pavilion (2009), uma construção erguida no meio da mata, no alto de um morro. Para alcançá-la, o visitante precisa seguir uma trilha isolada. O americano Doug Aitken criou um ambiente vazio, mas preenchido por uma transmissão contínua de estranhos sons emitidos a duas centenas de profundidade numa região fortemente associada à mineração.

 

A paisagem no entorno fica embaçada quando o espectador se aproxima das paredes de vidros. Próximo dali, por outra trilha chega-se à obra De Lama Lâmina, do também americano Matthew Barney. No meio da floresta de eucaliptos, Barney (marido da cantora Björk) concluiu um projeto iniciado em 2004, a partir de uma performance realizada no carnaval de Salvador com o músico Arto Lindsay.

 

Artista que costuma se apropriar das mitologias locais, conforme Volz, o americano projetou uma enorme escultura dentro de domos geodésicos para apresentar uma narrativa sobre o conflito entre o orixá ferreiro Ogum, senhor dos metais, e Ossanha, o orixá das folhas e da mata. Barney fez questão de deixar no entorno os troncos das árvores que precisaram ser cortadas para que a obra fosse ali instalada. Uma das obras mais impactantes, Beam Drop Inhotim (2008), é a recriação ampliada de uma instalação de Chris Burden no Art Park, no Estado de Nova York, em 1984.

 

Em meados do ano passado, o americano esteve em Brumadinho para comandar o mergulho de 71 vigas de construção arregimentadas na região em uma vala de cimento fresco. Durante 12 horas, do alto de um morro, as vigas foram erguidas por um guindaste e soltas de uma altura de 45 metros. O resultado é uma escultura aleatória de grande formato. E única, já que a instalação no Art Park foi destruída três anos depois, em 1987. "Foi uma das experiências com arte mais emocionantes que tive na vida", confessou o diretor artístico. "É um trabalho brutal e louco de fazer".

 

Beam Drop Inhotim (Chris Burden) nos terrenos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG)

 

Os novos destinos artísticos do Inhotim passam também pela instalação sensorial dos canadenses Janet Cardiff e George Bures Miller (The Murder of Crows - 2008). Eles reproduziram num galpão a obra já exposta em Berlim, um ambiente sonoro inspirado na gravura O sono da razão produz monstros (1799), de Goya. O visitante é convidado a se assentar ao lado de cadeiras nas quais caixas de som fazem o papel de músicos de uma estranha orquestra. Das caixas, também em pedestais e nas paredes, surgem uma aflita narrativa e sons diversos: revoada de corvos, marchas, cantigas de ninar, entre outros.

 

O público poderá apreciar também trabalhos do japonês Yakoi Kusama (Narcissus Garden Inhotim 2009), do argentino Jorge Macchi (Piscina - 2009), das mineiras Valeska Soares (Folly - 2005/2009) e Rivane Neuenschwander (Continente/Nuvem - 2007) e do paulista Edgard de Souza (três estátuas de bronze sem título). "Não é só uma ampliação em si, mas a confirmação de uma proposta curatorial que é inédita e que permite, de fato, que muitos desses artistas realizem aqui o que eles consideram a obra-prima ou a utopia não realizável em outro espaço", conceituou a diretora-executiva Ana Lúcia Gazzola.

 

O acervo artístico do Inhotim já contava com obras de artistas de renome, como Helio Oiticica e Cildo Meireles. A diretora afirma que ainda é difícil falar em investimento desembolsado para os novos trabalhos. A expectativa é que a visitação até o fim do ano chegue a 38 mil pessoas, contra 18 mil em 2008.

 

Durante a apresentação para a imprensa, na última terça-feira, a direção do instituto não escondeu o incômodo e uma certa irritação com recentes reportagens que questionaram supostos privilégios de verbas e ajudas oficiais ao centro de arte. O empresário Bernardo Paz - idealizador e membro do Conselho de Administração do Inhotim - circulou entre os convidados, mas preferiu não dar entrevistas.

 

Segundo Ana Lúcia, o instituto é uma experiência que começou como pessoal e ganhou "sentido" e "interesse" público. "O Brasil tem uma tradição muito ruim de que a coisa pública seja apropriada pelo privado. Nós não temos uma tradição de mecenato, nós não temos uma tradição de filantropia", disse.

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