Em memória dos sabadoyles

Valiam elogios aos amigos, saudades dos mortos, falsas modéstias, em prosa ou em verso. As atas dos sabadoyles, encontros de escritores e intelectuais que ocorreram durante 36 anos na casa do advogado e bibliófilo Plínio Doyle, voltaram a ser lembradas por pesquisadores e velhos companheiros na semana da morte do anfitrião Plínio Doyle.Um dos maiores colecionadores de livros do País, Doyle morreu na noite do dia 26, aos 94 anos. Entre muitos registros vasculhados, salta aquele, de dezembro de 1974, em que Pedro Nava diz não entender por que, afinal, foi escolhido para redigir o texto do fim de ano. "Abrutalharam o menu e vieram me pedir um feijão à mineira com sua gordurada e entulho de carne-seca. Aí vai ele", desdenha Nava de si mesmo.Algumas dessas atas estão na segunda edição do livro O Sabadoyle - História de uma Confraria Literária, lançado no mês passado pelo autor Homero Senna, freqüentador dos encontros da Rua Barão de Jaguaripe, em Ipanema, desde 1972. Outras estarão em breve em Contramargem, o próximo livro de Gilberto Mendonça Teles, "sabadoyliano" desde o início dos anos 70. "Algumas atas se tornaram monográficas e fui convidado a fazer as de Alceu Amoroso Lima, Oswald de Andrade, Augusto Frederico Schmidt e outras. Vou incluí-las no livro, com um toque mais de ensaio e menos artístico", diz Teles.Em muitas atas, os autores destacam o caráter absolutamente antibeligerante das reuniões na biblioteca do apartamento de Doyle, que recebia os amigos sempre ao lado da mulher, Esmeralda, e da única filha, Sônia. Naquela ata de 74, Nava descreve os encontros em que não se falava sobre política nem religião. "Nada de rebuscamentos na tentativa de campear idéias raras para traduzir o que existe de tão simples e fácil nessas reuniões - boas maneiras, suavidade no trato, boa convivência - num ambiente de livros onde foram banidas as discussões, as controvérsias, os desacordos. Aqui, nossa preocupação é agradar ao vizinho." Também Carlos Drummond de Andrade, o precursor dos sabadoyles, lembrou o clima pacífico, chamando, na ata dos 20 anos dos sabadoyles, em 1984, o encontro de "retiro, pousada, oásis". "Digo oásis porque esse (1964) foi um ano de muita divisão de espíritos, no plano nacional, e ela não penetrou na discrição desse remanso. E se até hoje permanecem os resíduos dessa divisão, é de notar-se que nunca se pôs em xeque a natureza apolítica do pequeno ´clube´ vespertino. Por isso, ele resistiu ao desencontro de opiniões." Homero Senna lembra, hoje, que evitar falar em política e religião não chegava a ser uma lei, mas um "consenso". "Éramos pessoas de diferentes opiniões, profissões e falávamos de tudo, até de literatura. Não era só uma reunião de intelectuais. E provocar discussões seria muito desagradável", disse o escritor.Descrições divertidas dos companheiros também eram um exercício ao qual os escritores e poetas se entregavam com prazer na redação das atas. Em 9 de junho de 1973, o sabadoyliano Enrique de Resende brinca com o médico Nava. "Pedro Nava, reumatólogo dos melhores entre os nossos: nas suas mãos, o reumático nunca vai para o Caju (cemitério na zona norte do Rio). Mas quando escreve memórias, como Nava é diferente! Mata tudo que é parente e, além disso, guarda os ossos no fundo de seu baú." No ano seguinte, Raul Bopp foi descrevendo a chegada dos presentes ao sabadoyle do dia 6 de abril. Sobre Afonso Arinos: "O Afonso, de estirpe fina, por bons augúrios cuidado, vem de Paracatu, para ser ministro de Estado." Em seguida: "Vem Luiz Viana Filho, com sorriso acolhedor, mas guarda a linha discreta de quem foi governador." E por aí seguiam relatos, brincadeiras e pequenas reflexões sobre o passado e o presente.Em 4 de outubro de 1986, Carlos Drummond de Andrade avisou em seus escritos: "Vocês não estão aqui para ouvir mais um candidato a governador ou à Constituinte, como seria de recear em hora tão cheia de mensagens, programas, promessas, cartazes, santinhos e xingamentos eleitorais. Estamos aqui para um ato de vingança." Tratava-se da comemoração pelos 80 anos de Plínio Doyle.Também foi do poeta mineiro a ata em que exaltava o prazer da conversa fiada, a marca registrada dos sabadoyles. E ironizava: "Para que se aventurar em busca de contatos, experiências e desejos de troca de impressões e de idéias se tenho à minha disposição um esboço de mar em minha piscina; os grandes espetáculos no bojo mágico de um videocassete; se domino as possibilidades tanto infantis quanto adultas do meu videogame? Tornei o Sol meu vassalo e o prazer do mundo meu escravo." O mestre-de-cerimônias Plínio Doyle também costumava encarregar visitantes da redação das atas.Foi assim em 1982, com o poeta cearense Márcio Cutunda, na ata citada por Homero Senna em seu livro. Cutunda optou por um cordel, no feriado do Dia do Trabalho: "Por Plínio Doyle intimado/ para anotar o advento/ deste encontro celebrado/ no bíblio-apartamento/ já componho improvisado/ o ritmo que ora invento/ e permaneço calado/ conservando-me atento/ circunspecto e inspirado/ ante o histórico evento/ que a todos serve de alento./ O sábado é consagrado/ ao grande acontecimento/ que ocorre em maio, 1.º,/ aqui no Rio de Janeiro." No dia 26 de dezembro de 1998, ocorreu o último sabadoyle. Seus freqüentadores, diz Homero Senna na introdução de seu livro, eram como o inglês que pescava à margem do rio e foi avisado de que não tinha peixe. "No matter, eu não quero apanhar peixe, só quero pescar."

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