Em meio às obras, uma desconstrução do mito

Na narrativa mitológica recriada pelo compositor Christoph Willibald Gluck, Orfeu, o semideus da música, desce ao Hades em busca de Eurídice, morta logo após o casamento dos dois. Nessa jornada, é guiado pelo Amor - e vai recorrer à arte para promover o encantamento daquelas almas perdidas que o separam de sua amada.

O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h07

A arte, assim, assume papel protagonista de um certo desejo de recuperação, de reconstrução, em especial quando a história está ambientada em um espaço como o canteiro de obras de um enorme centro cultural, a Praça das Artes, localizado nas proximidades do Teatro Municipal, que vai abrigar escolas, salas de ensaio, bibliotecas e áreas de convivência - como acontece na produção realizada pelos corpos estáveis do Teatro Municipal ao longo desta semana.

À frente da concepção cênica, no entanto, está o diretor Antônio Araújo, criador do Teatro da Vertigem. E isso significa que a ópera de Gluck renasce em diálogo com o espaço urbano, levando a algumas questões. Que papel pode ter a arte em uma cidade fragmentada, que cresce por meio da especulação imobiliária, habitada por corpos que se amam e destroem freneticamente? Se Gluck nos fala do céu da mitologia, o que pensar a respeito dos Campos Elísios que, não longe dali, se tornaram símbolo das drogas - e de tentativas de recuperação desastradas e de tons higienistas? Qual o diálogo possível entre um centro cultural e seu entorno degradado?

Nesse sentido, a montagem de Orfeu e Eurídice nos fala não de reconstrução mas, sim, de desconstrução de certezas e caminhos de uma certa modernidade. E, justamente ao relativizar Gluck e sua mensagem de amor, é que o diretor lhe faz justiça, assim como defende a ideia da arte como o espaço constante de reflexão.

A leitura musical carregada de urgência de Nicolau de Figueiredo, à frente da Sinfônica Municipal e do Coral Lírico, segue no mesmo caminho, hábil na construção de uma sucessão de ambientes e climas, comandando um elenco de exceção composto pela contralto Kismara Pessatti e as sopranos Gabriela Pace e Edna D'Oliveira.

Crítica: João Luiz Sampaio

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