Joaquim Cortés e Róman Lores/Divulgação
Joaquim Cortés e Róman Lores/Divulgação

Em Madri, mostra de Cildo Meireles destaca obras antigas ou pouco vistas

Exposição se propõe a apresentar panorama plural da obra desenvolvida pelo artista desde os anos 1960

Maria Hirszman, Especial para O Estado de S. Paulo

20 de agosto de 2013 | 19h01

A relação de Cildo Meireles com a Espanha é intensa e antiga. Foi ali que realizou sua primeira grande retrospectiva internacional, no Ivam (Instituto Valenciano de Arte Moderno), em Valência, em 1995 e, desde então, tem recebido atenção frequente do público e da crítica, como comprova a grande exposição que realiza atualmente no Pavilhão Velázquez, espaço anexo do Museu Reina Sophia no coração do Parque del Retiro, em Madri.

A mostra que, com certo atraso, celebra o Prêmio Velázquez, espécie de Nobel das artes recebido pelo artista brasileiro em 2008, se propõe a apresentar um panorama plural da obra que Cildo vem desenvolvendo desde os anos 1960. “Procuramos fazer uma exposição para além das retrospectivas, mostrando diferentes pontos de vista e situações”, explica o curador João Fernandes, que também é subdiretor do museu espanhol.

A seleção de trabalhos, que vem sendo pensada há vários anos, enfatiza aspectos da produção de Cildo menos conhecidos pelo público europeu. “Há peças que são como o lado escondido da lua, ou o lado B de um disco”, destaca o curador, ressaltando seu interesse em aproveitar a ocasião para remontar ou reunir trabalhos antigos ou pouco vistos. É o caso, por exemplo, de Olvido, uma instalação que não era mostrada ao público há mais de 20 anos. Em parte pela dificuldade em conseguir reunir materiais tão complexos e estranhos como 6 mil notas bancárias de diferentes países americanos usadas para construir uma tenda indígena, quase 70 mil velas e 3 toneladas de ossos bovinos – que tiveram que vir especialmente do Brasil. Ou ainda do conjunto significativo de projetos de Arte Física idealizados pelo artista, muitos deles impossíveis de ganharem corpo, como, por exemplo, o que propõe acompanhar o horizonte com um longuíssimo fio real, não mais imaginário.

A mostra, que seguirá em itinerância para a Fundação Serralves, no Porto – instituição dirigida até o ano passado por Fernandes –, e para o HangarBicocca, em Milão, destaca diferentes aspectos da produção do artista, que possui uma rara capacidade de aliar investigação conceitual, experimentação formal, potência crítica e capacidade de encantar os sentidos, não apenas visuais mais sensoriais, táteis e auditivos.

Assim, trabalhos de caráter mais formal, como as assemblages feitas com os restos dos metros de madeira amarela criados para sua instalação Fontes, ou os trabalhos da série Descala, se mesclam a pesquisas conceituais antológicas, como as Inserções em Circuitos Ideológicos, nas quais o artista se apropria de meios tradicionais de circulação, como o papel-moeda, para inserir mensagens de protesto.

Esses diversos núcleos se distribuem em torno de um eixo central poderoso, formado por instalações de grande impacto que trabalham poética e dolorosamente questões ligadas ao colonialismo, à expansão marítima e à exploração imperialista.

A primeira obra a receber o grande fluxo de visitantes é Marulho. Essa representação visual e sonora do oceano, feita com a combinação de um conjunto restrito de imagens do mar e de vozes repetindo a palavra “água” em mais de 80 línguas diferentes – que já foi mostrada em 2006 no Museu do Vale do Rio Doce e na Pinacoteca do Estado –, parece explicitar de uma vez por todas o caráter fascinantemente instável da obra de Cildo Meireles, que se assemelha muito aos oceanos com que costuma trabalhar. Afinal, sua ampla produção parece impossível de se reter, como a água em movimento. Possui um ritmo próprio, sedutor, que provoca o espectador ao mesmo tempo que foge dele, reconfigurando-se sempre em novos e repetitivos processos e formatos. Como sintetiza Fernandes, “é interessante reparar que ele possui uma linguagem muito poderosa e poliforme, mas resiste à ideia de um estilo”.

Enquanto Abajur, obra recente que se tornou o grande destaque da 29.ª Bienal de São Paulo em 2010, associa a beleza da paisagem marítima, a força da imagem da caravela para a cultura ibero-americana e a ideia de perpetuação da exploração econômica (seja em seu aspecto colonial, seja em seu aspecto contemporâneo), já que a obra é colocada em movimento graças ao esforço mecânico exaustivo de trabalhadores braçais que movem o sistema numa espécie de releitura moderna da escravidão), Amerikkka figura um encontro impossível. Ou melhor, um encontro desastroso entre milhares de ovos (símbolo da descoberta da América, a partir do mito do “Ovo de Colombo”) e uma quantidade ainda maior de balas pontiagudas, numa indiscutível referência à brutalidade da força colonizadora. A obra foi criada por ocasião dos 500 anos da chegada de Colombo à América (não à toa, as cores usadas são as mesmas da bandeira dos EUA), por convite de uma galeria de Madri e acabou não sendo produzida naquele momento pelo receio em relação à crueza com que a questão é abordada.

É bem verdade que, como destaca Fernandes, cada um dos projetos de Cildo apresenta uma situação nova. Mas também é verdade que entre os jogos de contradições, o uso de metáforas de uma simplicidade cristalina, as brincadeiras com excessos quantitativos e uma permanente vontade de construir uma obra que leve a arte para além da prisão da visão, o artista cria com profunda ousadia um terreno de investigação amplo, coerente, de reflexão crítica sobre a história, a memória e o espaço da vivência humana.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.