Em livro, o filme que a Austrália renegou

Sobressalto inspirou Outback, perdido por quase 40 anos e exibido hoje

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Barbárie. Caçadores de canguru levam o mestre (no banco de trás) a uma trágica viagem de transformação por terras áridas                 

 

 

 

 

 

 

A história do resgate e da restauração do polêmico filme australiano Pelos Caminhos do Inferno (Outback), dirigido pelo cineasta canadense Ted Kotcheff em 1971, é quase tão intrigante como a contada no livro que deu origem à adaptação cinematográfica do romance, cuja tradução brasileira será lançada hoje, às 18h30, na Livraria da Vila com uma palestra e exibição do longa. Escrito pelo australiano Kenneth Cook (1929-1987), o livro Sobressalto (Wake in Fright) foi lançado em 1961, dez anos antes de ser transposto para o cinema, quando seu autor tinha apenas 32 anos. Sobre ele e o filme, que será projetado hoje pela primeira vez após 39 anos de seu lançamento brasileiro, o professor Eduardo Marks de Marques, especialista em literatura australiana, fala em sua palestra, que contará com intervenção do cônsul geral da Austrália, Greg Wallis.

Livro e filme se tornaram clássicos, a ponto de o primeiro ser adotado em escolas australianas após ser renegado em seu país de origem. Perdidos durante mais de três décadas, os negativos de Outback foram encontrados em 260 latas dentro de um contêiner em Pittsburgh com o aviso: "Para incinerar." Anthony Buckley, seu montador, chegou a tempo de evitar a tragédia. Desde 1994 ele buscava, incansavelmente, uma cópia integral para fazer sua recuperação digital - a única que existia estava em Dublin, com cortes e em precárias condições. Finalmente, em novembro do ano passado, após ser exibida no Festival de Sydney, a cópia restaurada foi lançada em DVD na Austrália.

Transposição fiel do livro de Cook, o filme de Kotcheff segue passo a passo o roteiro estabelecido no livro, que termina exatamente no ponto em que começa, ou seja, num vilarejo no meio do nada, Tiboonda. No outback australiano, esse professor, um australiano da costa, vai viver uma experiência transformadora de regressão, abandonando seus livros no meio do deserto, exterminando cangurus e entregando-se ao consumo de cerveja, única diversão de uma cidade próxima, Bundanyabba - definida por Cook como "uma variação do inferno". Não é uma leitura para aeroportos. Seu autor, que viveu em Broken Hill (outra sucursal do inferno, nome real da fictícia Bundanyabba), deixou 21 livros e filmes como roteirista para provar que não veio ao mundo a passeio. Nem seu azarado personagem, o professor John Grant.

No prólogo do filme de Kotcheff, a situação do protagonista é definida por um travelling de 360 graus (início e fim de jornada). Uma panorâmica percorre o deserto, mapeando a planície até encontrar a estação de trem, ponto de partida da viagem de férias do professor, que deveria se encontrar com a namorada em Sydney. O verbo está no condicional porque isso nunca vai acontecer. O jovem que espera o trem na plataforma rústica de Tiboonda está condenado a vagar pelo deserto como nas parábolas bíblicas. Vai encontrar pelo caminho demônios para testar sua sanidade.

O primeiro deles é um policial. Ele leva o professor para jogar o "two-up" num lugar suspeito, duas moedas atiradas ao alto que decidem seu destino numa noite ordinária. Iludido, Grant perde o dinheiro das férias e é obrigado a permanecer em Bundanyabba. Desse ponto em diante, é uma descida ao nono círculo do inferno - ou ao outback selvagem, em companhia de bárbaros caçadores de cangurus. Grant vai conhecer o lado mais sórdido dessa árida cidade mineradora, onde se perdoa tudo, menos não beber.

Esse estado alterado permanente é o foco de Sobressalto. Na companhia dos bárbaros, Grant, falido, come carne de coelho apodrecida, é sexualmente abusado, sob efeito do álcool, por um médico promíscuo, erra pelo deserto, tenta o suicídio e, finalmente, descobre que existem duas Austrálias: a da costa - rica, turística - e a do outback - rústica, desoladora. E ainda por cima habitada por gente embotada pela bebida, ignorante, perversa. Bundanyabba é um lugar de provação. Lá, o herói burguês confronta seu lado mais primitivo e acaba perdendo, pois desconhece os códigos daqueles que, como bem define o escritor Peter Temple no posfácio de Sobressalto, "imitam a metrópole colonial (Sydney), simulam seus costumes e clonam seus edifícios e instituições". Grant, ainda segundo Temple, está no exílio tanto quanto os degredados ingleses que colonizaram a Austrália. Com uma diferença: é um homem urbano, culto, que prega para as paredes. Nenhum garoto de Tiboonda parece interessado em seu discurso civilizatório e inútil no deserto. O mais estranho disso tudo é que o próprio Ted Kotcheff, após realizar Outback, migrou para Hollywood e acabou dirigindo Rambo. Regressão é isso.

Trailer. nome

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