Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Em livro de crônicas, Pellanda lança olhar afetuoso e irônico sobre Curitiba

'Asa de Sereia' traz mais de 60 textos delicados, cruéis e bem-humorados

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

31 de janeiro de 2014 | 19h37

Curitiba, cidade fria, gelada no inverno, na temperatura e nas relações, a ponto daquela jovem protestar, deprimida: “Aqui estou há anos sem conquistar um amigo. O que devo fazer para ser considerada uma verdadeira curitibana?”. Pellanda ouviu de Cristovão Tezza: “Um curitibano extrovertido é um maluco total”. Mas ele, cronista apaixonado pela cidade, vê de outra maneira: “Um esquizofrênico ouve vozes. O médium fala aos desencarnados. O papa despacha com Deus. E o curitibano vê árvores em Curitiba”.

O cronista mostra que a cidade é muito mais do que o “vampiro” Trevisan e nos conduz por suas ruas e praças. Da Catedral à Pracinha do Amor, à rua Ébano Pereira, à escada da Saldanha, à galeria Andrade, vemos os pombos da Generoso Marques, entramos na Panificadora Felix, circulamos pelo Passeio Público, vemos a sinagoga Francisco Frischmann, atravessamos a região da Santo Andrade, frequentamos as baladas do Batel, compramos jornais na banca da Santos Dumont. Ele é o escritor que tem olhar afetuoso e irônico sobre seu lugar e sua gente.

Nascido em 1973, Luis Henrique Pellanda “já quis ser menino de rua só para nadar sem roupa entre as sereias de ferro da Osório. Também sonhou ser o peixe abraçado por uma das sereias”. Aquela é sua cidade, na qual ele anda, contempla, captura o urbano. O bêbado imundo que gritava: “Amor eu tenho, só preciso saber onde aplicar!”. O cronista perdeu o pedaço de uma frase, ficou com um mistério na cabeça. O que o palhaço queria dizer ao exclamar: “Vocês têm de fazer disto uma vida?”. Disto o quê? Enigmas do cotidiano. Nas ruas e praças, os personagens curitibanos: “A periguete se fotografa e posta no instagram. Búzios no tornozelo, chinelos de dedo, plataforma branca, Nosso Senhor do Bonfim no pulso, o que terá pedido?... Muitos brincos e anéis, tudo comprado dos bolivianos no calçadão. Shortinho jeans, sem camisa, o sutiã do biquíni amarelo quase vazio, tórax liso, coxas cheias. Óculos espelhados cobrindo meio rosto. A boca é bonita, será que já beijou?”. O olhar sente o paradoxo: “Acima de mim, os parasitas estrangulam as árvores, mas é como se dormissem enquanto matam”.

Asa de Sereia, livro delicado, cruel, bem-humorado. “Duas moças sentadas no cafezinho, uma bonita, a outra feia. Pagam e saem, o garçom sussurra: É sempre assim, a melhor bunda na pior cara.” Há também o trágico: “Trinta anos após seu suicídio, as pessoas ainda ouvem o corpo do enforcado bater lugubremente contra o tronco de uma figueira”.

Vou e volto por dentro do livro, nunca leio crônicas ou contos em sequência. O autor é sopro arejado, o cronista que, mordazmente, se confessa em débito com a tradição literária brasileira, uma vez que “ainda não escreveu uma crônica sobre passarinho”. As crônicas não precisam mais de passarinhos?

Aqui se faz uma panorâmica por Curitiba, pela vida, ao observar as meninas que conferem as tatuagens uma da outra; ao ouvir o homem consternado, explicando o motivo de sua separação: “A Glória me deu um eu-ti-mato”; ao se atordoar por não encontrar o túmulo de um amigo em um cemitério (e quem encontra? Cemitérios são labirintos) fica feliz, é a certeza de que o amigo não morreu. Paralisado ouve o diálogo entre duas senhoras: “Teu marido? Como vai?”. A outra: “Faleceu”. “Jesus! Quando foi isso?” A outra, quase envergonhada: “Ontem”. Assim é a vida, encontros, pasmos, revelações que Pellanda capta como um Chekhov universalizando Curitiba.

Ele é o estilista: “O café de uma manhã que ainda não existe”. “São bonitas como aparentam ser quase todas as moças muito jovens aos homens de meia-idade”. “Os postes quiseram fazer bonito e foram se acendendo aos poucos.”

Há uma Curitiba real e outra imaginária, ele cultua fantasmas ainda não arquivados, retratando-os em suas crônicas. Crônicas imperdíveis, para serem lidas lentamente, como um livro de horas. Para descobrir o que é a asa de sereia, conhecer Billy o pelicano de Curitiba ou a velha em viscose de onça. Sem esquecer a tragédia do “crítico de gastronomia, acostumado a comer do bom e do melhor, contemplando, abismado e culpado, três mulheres miseráveis, esfomeadas, violando sacos de lixo, bebendo restos de refrigerantes, e devorando pedaços de filés abandonados no prato ou pizza borrachentas, mordidas, mofadas, migalhas de salgadinhos”. Direto e cortante.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO É ESCRITOR E CRONISTA DO CADERNO 2 

ASA DE SEREIA

Autor: Luís Henrique Pellanda

Editora: Arquipélago (208 págs., R$ 35)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.