Em livro, a intimidade do poetinha

A data redonda acontece em outubro, no dia 19, mas as comemorações pelos 90 anos de nascimento de Vinicius de Moraes já tomaram fôlego. A partir de hoje, o Sesc Vila Mariana exibe uma exposição fotográfica com imagens do poeta feitas pelo filho, Pedro, além de apresentar shows de música e declamação de poesia. Quem antes parar em uma livraria, terá o prazer de encontrar Querido Poeta (Companhia das Letras, 358 páginas, R$ 41), seleção de cartas e bilhetes que Vinicius recebeu e enviou ao longo da vida para personalidades do mundo artístico. Com organização de Ruy Castro, o livro chegou quinta-feira às prateleiras. E, até amanhã, os visitantes da Bienal Internacional do Livro do Rio poderão conhecer a Toca do Vinicius, estande no pavilhão verde que reúne artigos alusivos ao poeta."O velho se divertiria com tanta badalação", comenta Pedro de Moraes, único homem dos cinco filhos de Vinicius. Fotógrafo profissional, ele flagrou momentos marcantes na carreira do pai, como seu encontro com poetas, prosadores, músicos e políticos. É certo que muitas vezes uma imagem vale mais que mil palavras, mas os bastidores das fotos de Pedro podem ser encontrados em Querido Poeta, mais de 200 cartas que Vinicius enviou e recebeu durante meio século, de 1932 a 1980, ano de sua morte.Disperso, Vinicius deixava notas e bilhetes em todas as casas em que viveu. Parte da correspondência, que revela uma fração da intimidade do poeta, estava guardada em uma simples caixa de sapatos e foi preservada por Gilda Matoso, sua última mulher. Com o material depositado pela família na Fundação Casa de Rui Barbosa, foi possível elaborar um levantamento quase completo do relacionamento do poeta com nomes tão distintos como Carlos Drummond de Andrade, Antonio Carlos Jobim, Norma Bengell, Charles Chaplin, Orson Welles, Hélio Pellegrino, Elizabeth Bishop, Candido Portinari, além de colegas do Itamaraty (com os quais Vinicius compartilhava idéias políticas), amigos da juventude e familiares."Nas primeiras cartas, Vinicius está com ardentes 19 anos, mas vive angústias e dúvidas que ficariam melhores num homem mais velho", escreve, no prefácio, Ruy Castro, convidado pela família para organizar a correspondência. "À medida que as décadas se sucedem, ele parece rejuvenescer e atinge sua plenitude nos anos 1960 - quando já estava com mais de 50."No lote inicial de cartas, Vinicius escreve no Repouso Itatiaia, para onde foi recuperar a saúde abalada. Lá, rodeado pelos amigos Octavio de Faria e José Arthur da Frota Moreira, desfruta de uma rotina saudável, que favorece a formação de pensamentos fervilhantes. Como o divulgado na carta ao escritor Lúcio Cardoso, rascunhada provavelmente em 1936, em que ataca o regionalismo que dominava a literatura de então. "É preciso fazer qualquer coisa contra essa lava de titica nortista que emburreceu todo mundo de repente", escreve Vinicius, poupando apenas Amando Fontes, Graciliano Ramos (apenas São Bernardo) e José Américo de Almeida. "Essa outra gente, de Jorges Amados, Clovis Amorins, Josés Lins do Regos, para a p... que os pariu! São uns burros, não sabem mais o que fazem." Não satisfeito, continua: "É ridículo como se debatem dentro das mesmas coisas, dentro dessa pocinha de mijo que eles chamam de romance."Foi, na verdade, um desvario de juventude, momento em que Vinicius se debatia também com a paixão por Antonia, um de seus primeiros amores, como revela nas cartas dirigidas à mãe, Lydia de Moraes. A família, aliás, oferece-lhe conforto quando viaja para a Inglaterra, onde estudou durante dois anos em Oxford. Vinicius comunica-se também com outros poetas, como Manuel Bandeira, que lhe conta sobre o surgimento de dois grandes poemas: O Defunto, de Pedro Nava, e A Cachorra, de Prudente de Morais Neto. "Que duas coisas tão bonitas e tão fortes, Vinicius!", escreve Bandeira. "Também era urgente, para contrabalançar a água rala da túnica hebraica e (in)consútil."

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