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Em junho, Sharon, Jones canta no parque

Primeira edição de festival terá ainda Wayne Shorter e Marcus Miller

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

O jazz, que andava sumido de cena, parece ter readquirido brilho e autoconfiança. Depois das apresentações antológicas de Ornette Coleman e Yusef Lateef, no Sesc São Paulo, foi confirmado anteontem um novo festival em São Paulo: o BMW Jazz Festival. A maior atração será a cantora Sharon Jones e seus Dap-Kings, que se apresentarão ao ar livre, gratuitamente, no dia 10 de junho, no Ibirapuera.

A mostra tem os mesmos curadores e organizadores dos extintos Free Jazz Festival e Tim Festival: Monique Gardenberg, da Dueto, Pedrinho Albuquerque e Zé Nogueira e o crítico Zuza Homem de Melo. Mas abriu mão do coté pop pela predominância jazzística: traz 10 atrações internacionais, entre elas o veterano Wayne Shorter, Joshua Redman, Tord Gustavsen, Marcus Miller e o Billy Harper Quintet para preencher um ano que podia ser triste - o cancelamento da terceira edição do Bridgestone Music Festival, por razões pessoais do realizador, Toy Lima.

O baixista Marcus Miller traz ao festival sua revisão de um clássico do jazz: o disco Tutu (Warner Music), de Miles Davis e dele mesmo, gravado em 1985. O título era uma homenagem ao bispo sul-africano Desmond Tutu. O disco abraçava as novas tecnologias (sintetizadores, drum machines, guitarra elétrica) e as misturava com instrumentos acústicos. Tinha George Duke, Ron Miles e Adam Holzman entre os colaboradores, e triturava funk (Splatch), lirismo (Portia) e grandiloquência (Perfect Way). Muitos afirmaram, na época, que aquilo não podia ser jazz.

O presidente da BMW no Brasil, Jorg Henning Dornbusch, disse que a ideia de fazer o festival tem a ver com o crescimento da empresa no Brasil, com as possibilidades de crescimento do próprio País nos próximos anos e a vontade de associar a marca a uma atividade cultural "harmônica", que é o jazz. Dornbusch adiantou que o valor investido não será divulgado, mas afirmou que fez uso da renúncia fiscal por meio da Lei Rouanet. Também não foi preciso sobre a periodicidade do evento. "Dependerá de sua aceitação."

Monique Gardenberg, da Dueto, demonstrou grande satisfação com a nova parceria. Pioneira nos grandes festivais de pop e jazz no País (ao lado da irmã, Sylvia Gardenberg), ela contou que foi procurada pela empresa há um ano e fechou há alguns meses o acordo. "É um prazer enorme, até porque, pelo tempo de estrada que temos, não temos tolerância ou paciência mais para explicar a importância das coisas. E quando aparece um amante do jazz, bem informado, a quem não é necessário explicar nada, é muito bom."

Zuza Homem de Melo falou com especial paixão da noite que organizou em homenagem a um instrumento, o sax. Batizou, intimamente, de "saxorama". Ela começa com o saxofonista Wayne Shorter, de 78 anos, que vem com seu quarteto: Danilo Perez no piano, John Patitucci no baixo e Brian Blade, na bateria.

Outra fera é o saxofonista tenor Billy Harper, texano de 68 anos, que tem influência de John Coltrane. Ele tocou dois anos nos Jazz Messengers do baterista Art Blakey, e com Elvin Jones, Max Roach e Randy Weston. Tocou com Gil Evans no disco Svengali, de 1973. Joshua Redman, que fez notável show no Bourbon Street em 2007, ao lado do baterista Greg Hutchinson e do baixista Matt Penman, é o terceiro saxofonista da jornada. Naquele show, Redman (filho do lendário Dewey Redman) tocou Indian Song, de Wayne Shorter.

Sharon Jones, de 55 anos, vive um renascimento e uma redescoberta do seu lugar na black music americana. Ela chegou a ter algum destaque nos anos 1970, mas a ausência de gravações e interesse de gravadoras a levou ao anonimato. Chegou a ser guarda de transporte de valores em carros-forte da Wells Fargo. Ao ser redescoberta, gravou com The Dap Kings (que gravou 6 das 11 faixas de Back to Black, disco de maior sucesso de Amy Winehouse). Seu estilo, a voz potente e a performance explosiva a recolocaram no topo.

Outras atrações da mostra são a brasileira Orkestra Rumpilezz, encabeçada pelo maestro e saxofonista Letieres Leite; a banda marcial italiana Funk Off Brass Band; o grupo gospel moderníssimo Madison Bumblebees of Winnsboro e o contrabaixista franco-catalão Renaud Garcia-Fons. O jazz europeu será representado pelo pianista norueguês Tord Gustavsen, que vem com seu trio. Monique prometeu que haverá um espaço também no hall do Auditório Ibirapuera para revelações brasileiras do jazz, e que o clima de jazz sessions, workshops, trocas e colaborações será o epicentro da jornada. Foi com esse espírito que começou o Free Jazz Festival, em 1985. "Fazer um festival de jazz no Brasil hoje é mais difícil, pela quantidade de festivais acontecendo", disse o músico Zé Nogueira, que já estava na organização daquela primeira edição.

Monique Gardenberg fez a última edição do TIM Festival em 2007 - o patrocinador se afastou alegando conjuntura econômica. Monique acabou revelando, ontem, algum bastidor da atividade, dizendo que é bom quando trata com "gente que entende do assunto, e não fica pedindo para a gente "encaixar" algo que não tem a ver com o festival".

ATRAÇÕES

Sharon Jones and The Dap-Kings

Cantora de soul & funk

Wayne Shorter

saxofonista

Marcus Miller

Baixista

Billy Harper Quintet

saxofonista

Tord Gustavsen

pianista norueguês

Madison Bumblebees of Winnsboro

grupo gospel americano

Orkestra Rumpilezz

Grupo brasileiro, sob regência de Letieres Leite

Funk Off Brass Band

banda italiana

Joshua Redman

saxofonista

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