Em João Gilberto Noll, tudo é mais anárquico, culpado, intratável

Autor foge de uma tendência à estrangeirismos que a literatura brasileira atualmente vive

Leda Tenório da Motta,

07 de setembro de 2012 | 17h30

Talvez porque joguem no time dos que pensam que não há nada mais raro que uma grande literatura essencial, alguns observadores dos mais recentes mapeamentos da ficção brasileira estão desconfiando de que, se nos livramos ultimamente dos clichês da miséria e da violência locais e passamos à vida interior, também entramos na moda do mundo estrangeiro. Nossos novos autores voltaram seu espelho da natureza para dentro, mas uma tendência irresistível os igualaria em suas diferenças subjetivas: são todos globalizados.

Se esses pessimistas incorrigíveis estiverem certos, podemos seguir pensando que a grande literatura essencial de João Gilberto Noll se mantém fora de todas as efervescências acomodatícias, de resto editoriais e bem plantadas no eixo Rio-São Paulo, a que tantos devem, atualmente, o seu sucesso de estima.

Em Solidão Continental, cujo interessante título, aliás, já o entrega, ele avança, sem qualquer sentimento nacional, embora sem deixar de ser gaúcho, na direção contrária à dos requintes encafifados da vida lá fora. Numa abertura galopante de cortes secos e passagens bruscas, que chama de "erros de continuidade", como quem admite que tudo o que faz é se exercitar estilisticamente, no lugar que mais lhe cabe, a folha de papel, faz seu protagonista começar por um hotel de Chicago, continuar pela região dos lagos e pontes de Madison, enveredar pelo museu Trotsky na Cidade do México... e terminar em casa, em Porto Alegre, já no quarto capítulo, de um total de 17.

São enquadramentos mais perto da estrofe que da estrutura capitular, que justificam plenamente a autopercepção de Noll, assumida em entrevistas e performada nas leituras públicas que ele costuma encarar, no sentido de que, enquanto romancista, persegue o ritmo e está mais para a poesia do que para a prosa. Mesmo porque, em plano de fundo, fazem moldura para a ação de um narrador erotômano e homoerótico, uma espécie de perverso polimórfico chegado aos 58 anos, em perseguição obsessiva ao amor carnal e espiritual de objetos masculinos e femininos de todas as idades e condições, de que ele se sente ser não só o amante mas o pai, o filho, o irmão... No final, a corrida não termina mas a cena se congela, diante de mais um intercurso iminente, no apartamento da personagem, à beira do Guaíba, num desenlace cinematográfico e tanto.

A confusão classificatória é aqui total, como seria de se esperar de quem igualmente confidencia que prefere à linguagem transparente aquela que ofusca. E esse desassossego tem a vantagem de nos salvar das esparrelas virtuosas das literaturas sexuais e homossexuais que querem nos aliciar: sacralizações do amor físico, pornopopeias saudosas dos anos 1970 satisfeitas de sua escatologia, defesas da causa gay.

Em João Gilberto Noll, tudo é mais anárquico, culpado, intratável. E nisso ele nos lembra Oscar Wilde, este outro erotômano incansável, numa de suas melhores boutades: para ser realmente moderna, a pessoa não deveria ter alma, tanto quanto, para ser realmente medieval, não podia ter corpo. Sem falar que algo aí estabelece uma continuidade subterrânea com o final de O Inominável, de Samuel Beckett: "Não posso continuar. Vou continuar".

Pode-se entender, então, que outro gesto específico do escritor seja a suspensão da incredulidade, com a qual ele nos faz passar do irônico ao maravilhoso e deste ao cômico. É assim que, no primeiro capítulo, inesperadamente, o narrador enfia a cabeça no vaso do banheiro do hotel de Chicago, em que se encontra, dá descarga, mergulha e vai parar em Miami. Enquanto que, no quinto capítulo, abre a porta de uma cozinha e, em plena cidade, encontra uma floresta.

Existem hoje trabalhos acadêmicos sobre o grotesco em João Gilberto Noll. Eu me pergunto se apontam a relação que vejo aqui ainda estabelecida entre o riso e a culpa sem crime, que é o avesso do desejo sem culpa dos pregadores vulgares. Deve ser isso que garante a incrível abertura do arco de experiências de seu sujeito apaixonado pela paixão. Já que é isso que leva a perguntar eternamente e não deixa nunca fechar a significação.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA DA PUC-SP E AUTORA DE PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA) E ROLAND BARTHES - UMA BIOGRAFIA INTELECTUAL (ILUMINURAS)

 
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