Em <i>Crise Infinita n.º 1</i> heróis vivem choque de verdades

"Verdades" exigem releituras. No ano 325, o Concílio de Nicéia, reunião de mais de 300 bispos sob a autoridade do imperador Constantino, definia que Jesus Cristo era uma parte da essência do Senhor, uno na trindade e não um "mero" eleito de Deus na Terra. Para o fã de quadrinhos, Crise Infinita n.º 1 (Panini, 40 páginas, R$ 5,50), lançada esta semana no Brasil, tem caráter semelhante. Escrita por Geoff Johns, desenhada por Phil Jimenez e Andy Lanning, Crise Infinita vem para restabelecer as ortodoxias (e heresias) do universo heróico da DC. "Eu não sou um Deus. E não sou como você, Bruce. Não preciso controlar tudo", diz um inseguro Superman para Batman sobre as ruínas da sede da Liga da Justiça. Para o Homem-Morcego, depois de tanto tempo, o Homem de Aço devia saber que não se tratava de controle. "Tem a ver com tentar fazer tudo que posso. E, no seu caso, trata-se de dar um exemplo", rebate o cético Cavaleiro das Trevas. Logo no início da revista, o leitor se defronta com uma delicadíssima questão: o que fazer quando um dos maiores heróis da Terra deliberadamente mata um criminoso? O evento é mostrado pela TV, além de ser testemunhado por outros super-seres. A anuência travestida de omissão não é também criminosa? Em grande parte é o tom da crítica de Batman a Superman e Mulher-Maravilha, a fria assassina do personagem Maxwell Lord. Traços básicos dos heróis Lançada originalmente em dezembro de 2005 e só agora nas bancas brasileiras, o arco de histórias de Crise Infinita é uma das várias tentativas da editora DC de normatizar tanto os traços básicos de seus heróis quanto a cronologia de suas revistas. Assim foi com Crise nas Infinitas Terras, de 1986, que mostrou a morte do Flash, e Zero Hora, de 1997, que fez do velho Lanterna Verde, Hal Jordan, o maior vilão do universo. Do ponto de vista mais simples, herói, como personagem fictício, é um sujeito que pratica a restauração de um valor perdido. Crise Infinita é uma forma de equilibrar uma dezena desses tipos ideais sem desrespeitar suas características, o que obviamente é complexo. Parafraseando um certo autor de quadrinhos, é improvável que três ou mais sujeitos que levem a sério vestir uma fantasia e combater o crime, excêntricos e austeros, consigam concordar sobre a cor de uma laranja. Que dizer então do que acham que é certo ou errado? Estranhamente, os quadrinhos de grande consumo tendem a se aproximar bastante da realidade. Enquanto Sadam Hussein era enforcado, uma boa parte dos americanos já havia se perguntado o quanto é correto - ou mais além, heróico - eliminar criminosos. Enquanto entretenimento mais legítimo, Crise Infinita é uma ótima pedida. Como reflexão histórica, é o mais puro incômodo. Nada mal para uma revista em quadrinhos.

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