Em HQ, sexo e celulares motivam soldados no Oriente Médio

Soldados morrem aos montes, a moral anda baixa e a guerra parece estar longe de terminar. A insurgência iraquiana é um inimigo incansável. Em cidades arrasadas as tropas americanas são alvo de atiradores de elite e ataques suicidas. A solução? Sexo e telefone celulares no campo de batalha. Menos absurdo do que parece, a descrição acima é o argumento principal da revista em quadrinhos Army@Love lançada há duas semanas nos Estados Unidos pela editora DC Comics. Nela, soldados americanos são incentivados a manterem relações sexuais e usarem seus telefones celulares tanto quanto desejarem num futuro não tão distante na guerra no Iraque e Afeganistão. O absurdo diminui ao se pensar a realidade atual dos dois países, um monumental fracasso estratégico da história americana. Numa linha tênue entre a crítica e a irreverência, Army@Love é fruto da mente de Rick Veitch, artista que ficou conhecido ao criar um encontro entre o herói dos quadrinhos Monstro do Pântano e nada menos que Jesus Cristo. Impedida de ser publicada no último minuto, a história marcou a saída de Veitch da DC na década de 80 voltando só agora com sua nova criação.Para amenizar o terror da guerra, em Army@Love, promiscuidade é um tipo de vacina para insanidade. Tecnologia é mais uma ferramenta doméstica do que militar e mesmo a guerra não passa de um grande jogo. Tudo idéia do Pentágono e seu novo programa de incentivo às tropas, "Motivation and Morale", ou "Motivação e Moral". Na revista, o número de baixas militares já não é um problema. Ela é superada pelo número de alistamentos, grande parte sendo mulheres.Novo paradigma do humorUma dessas combatentes é a personagem Switzer, que enquanto invade um bunker em meio a um tiroteio diz ao marido onde procurar suas gravatas a oceanos de distância através de um celular. Logo em seguida, Switzer é salva por outro soldado que não faz questão de saber o nome. Excitados pelo combate, os dois mantém relações sexuais, rito de passagem para entrar no seleto "Hot Zone Club", espécie de cassino de oficiais onde os soldados de folga participam de uma irrestrita e avalizada orgia. Para o autor dos quadrinhos, existe um novo paradigma do humor, de extrair situações delicadas e "mostrá-las como uma farsa" assim como o fez o filme Borat. Ao site Comic Book Resources, Veitch afirmou que quando isso dá certo "você não apenas rola de rir, mas pensa sobre esses intrincados problemas de uma maneira mais arejada". A idéia, segundo Veitch, é criar um "antídoto para propaganda e doutrinação". "O segundo número da revista vai mostrar mais detalhadamente o que está por trás do Motivation and Morale", disse o autor na entrevista. O conceito da história é de que o governo fez tal confusão no Iraque e Afeganistão "que foram obrigados a procurar profissionais de marketing para dar outro significado para guerra, como se fosse um produto, e é isso que Motivation and Morale faz", explicou. Quadrinhos à parte, jamais houve tanta pressão para retirada das tropas americanas do Oriente Médio como agora. Contudo, desde fevereiro deste ano, o número de baixas militares em Bagdá quase dobrou. A insurgência sectária entre curdos, sunitas e o governo xiita acumula mais revezes do que qualquer sombra de unidade política. Caso a solução no Iraque não seja tão rápida (como boa parte do senado americano gostaria), não é difícil imaginar algum alto oficial do Pentágono lendo Army@Love e achando tudo aquilo uma boa idéia.

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