Em HQ, o cotidiano de uma guerra no Afeganistão

O Afeganistão pode ser um lugar familiar e exótico ao mesmo tempo. É a sensação que se tem ao ler a obra O Fotógrafo, de Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. Lançado no Brasil pela editora Conrad na última semana, o livro, que mistura fotos e quadrinhos, conta a história do próprio Lefèvre durante a invasão do Afeganistão pela URSS, nos anos 80. Acompanhando uma caravana da ONG Médicos Sem Fronteiras, Lefèvre conheceu de perto o cotidiano de um país em guerra. Além da ação humanitária dos médicos, o autor dá chance ao leitor de conhecer sujeitos que pouco lembram a imagem rude geralmente associada aos afegãos - pelo contrário, surgem pessoas de uma civilidade ímpar, que reagem às condições de um conflito de forma tão natural quanto possível. O livro mostra a trajetória de Didier, a partir da França, passando pelo Paquistão e culminando na caravana de médicos ao Afeganistão. Além de levar suprimentos, a caravana estava acompanhada dos "mujahidin", guerrilheiros afegãos que na época lutavam contra a invasão soviética. Na verdade, essa união de dois objetivos tão distintos era essencial. Sem uma caravana que transportasse os armamentos, os médicos da MSF não chegariam ao seu destino: seriam mortos sem qualquer pudor pelas circunstâncias violentas da região. Médicos e guerrilheiros, todos são protagonistas na obra de Lefèvre. Contexto Quando Lefèvre chegou no país, os russos já estavam em guerra havia anos no Afeganistão, país que fazia parte de um delicado jogo político. "Desde a Revolução Russa [1917] e a formação da URSS já havia a idéia de manter uma zona de influência em toda aquela região", explica Reginaldo Mattar Nasser, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP. "O Afeganistão faz parte quase de uma mitologia da geopolítica, que é a Eurásia; quem dominasse a Eurásia dominaria o mundo. E ali os russos sempre tiveram aliados." A invasão soviética ocorreu, segundo Nasser, para impedir que esses laços se rompessem, em razão de divisões sociais e no governo afegão. Um outro grande complicador geopolítico da época era a nascente revolução islâmica no Irã. "Nesse contexto de agitação, era necessário manter sob controle aquela região, rota de petróleo e gás, e que os russos chamavam de ´zona de proteção´", diz o professor da PUC. Embora a questão política seja o contexto geral de O Fotógrafo, a obra de Lefèvre passa ao largo dela. Em dada passagem, ele conhece um certo jornalista da Alsácia, ex-combatente do Exército nazista. Fica surpreendido quando o sujeito se diz simpáticos aos comunistas, embora fosse pró-afegão, e confessa: "Talvez você seja um espião soviético, vai saber... Fico chateado com minha ingenuidade para entender essas coisas todas". Mulheres que trabalham O fator religioso, fundamento da identidade afegã, aparece também no foco de Lefèvre. O islamismo era praticamente o único elemento de coesão na Eurásia. De resto, o que mais havia, e que é claramente observado em O Fotógrafo, é a diferença entre castas, clãs e sexos. Lefèvre relata que entre os afegãos havia um certo desconforto quando tinham de lidar com os sujeitos vindos do Nuristão, região que se tornara muçulmana havia menos de cem anos. Fica perplexo a dá razão aos afegãos quando observa que os homens nuristanis não trabalhavam, apenas observavam as mulheres carregando cestos com dezenas de quilos. Mais ainda, o autor passa a notar claras diferenças entre cada uma das nacionalidades ou etnias. Depois de assistir impressionado o líder guerrilheiro da sua caravana levantar (no braço) um burrico atolado entre as pedras, expõe de forma irreverente uma teoria: "No Afeganistão, os bonzinhos têm cara de bonzinhos e os malvados têm cara de malvados. Veja o Najmudin: cara bonito, olhar franco, rosto franco, atitude franca, você pode contar com ele sempre" - o burrico que o diga. Ainda distante do que se transformou aquele país nos últimos anos, o Afeganistão mostrado por Didier Lefèvre se revela um país mais belo do que se poderia pensar. Lugar de gente gentil e cortês, mas ao mesmo tempo de sedições internas aparentemente inconciliáveis. O paradoxo, uma quase ironia, está nas primeiras palavras ensinadas a Lefèvre no Afeganistão: Salaam Aleikum - que a paz esteja convosco.

Agencia Estado,

13 Novembro 2006 | 18h08

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