Em homenagem ao detento

Dois músicos fundamentais da ex-União Soviética dedicam CDs ao bilionário russo Mikhail Khodorkovsky, acusado de sonegar impostos e de roubar petróleo

João Marcos Coelho ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Dedicatórias costumam passar despercebidas, mesmo quando se trata de dois músicos de sólido prestígio internacional, mundialmente conhecidos - e mesmo que dediquem suas mais recentes obras/gravações ao mesmo cidadão. Mas se os três forem originários da ex-União Soviética, a pulga imediatamente se instala atrás das nossas orelhas.

O primeiro é o compositor estoniano Arvo Pärt, de 75 anos, raro criador musical erudito atual a vender muito disco e ter sua obra executada no mundo inteiro. O CD da ECM com sua peça Fratres vendeu na última década acima de 500 mil cópias. O segundo é - coincidência - o violinista de Fratres, o letão Gidon Kremer, de 63 anos, violinista de justíssima fama planetária.

Pois ambos lançaram em setembro novos CDs e os dedicaram ao bilionário russo Mikhail Khodorkovsky, de 47 anos. O fato de ele ser bilionário incomoda bastante. Pra que músicos se intrometerem em brigas de cachorros grandes como este Mikhail, que caiu em desgraça na Rússia por peitar Vladimir Putin?

Pärt afirma que a dedicatória não deve ser entendida só em contexto político. Pede desculpas e diz que é "a expressão de um grande respeito por um homem que fez de uma tragédia pessoal um triunfo moral". Kremer é mais sincero: "Gostaria de dedicar este CD a Mikhail Khodorkovsky, um verdadeiro patriota russo, que está preso há vários anos na Sibéria sob falsas acusações. Acusado de roubar petróleo e sonegar impostos, Mikhail na verdade apenas trabalhou para tornar seu país um lugar melhor. Seu injusto julgamento e prisão até hoje são importantes símbolos políticos a todos os que lutam por uma Rússia democrática e livre."

Para entender essas veementes palavras de Kremer, é preciso conhecer alguns fatos históricos. Logo que foi reeleito para a presidência da Rússia, em 2004, Vladimir Putin enxergou no bilionário Khodorkovsky, dono da Petrobrás russa, a Yukos, maior empresa petrolífera do país, uma ameaça política. Enquanto uns e outros bilionários russos adoram comprar times de futebol e lojas de departamentos londrinas, Khodorkovsky resolveu brincar com política.

Usou Medvedev, hoje presidente e na época deputado, para fazer chegar a Putin reclamações sobre os US$ 28 bilhões anuais gastos em corrupção na Rússia. Paralelamente, andou rodando o país fazendo palestras sobre democracia, etc., etc. Num julgamento sumário, a Yukos foi desmantelada e incorporada por uma concorrente, a Nesfrot (que hoje paga menos impostos do que a Yukos), e Mikhail apodrece desde então numa prisão siberiana.

Injustiça. Pärt e Kremer usam sua música para clamar contra o que consideram uma injustiça. Deve ser por isso, então, que o CD de Kremer e sua notável orquestra de câmara Kremerata se intitula De Profundis. Ele assina o texto do folheto interno do CD, que começa citando as primeiras palavras do salmo 130: "Das profundezas clamo a ti, ó Senhor." Kremer inflama-se: "Muitos poetas e músicos usavam essas palavras. Considero-as especialmente urgentes em nosso tempo, em que o mundo é atropelado pela ganância, corrupção e falsos profetas. O petróleo é uma mercadoria altamente cobiçada. É uma substância extraída das profundezas que tanto pode sustentar como destruir a vida. A música é como combustível. Combustível para a alma. Ainda mais preciosa que o petróleo, é encontrada nas mais impenetráveis profundezas de nossa consciência. Música e petróleo podem misturar-se? Num sentido positivo, ambos são fontes de energia."

Manifesto. Não dá para reproduzir todo o texto do violinista, mas em síntese ele diz que "o petróleo sustenta as tiranias", que se vendem como democracias, mas embarcam na "supressão ao estilo soviético das liberdades". O manifesto continua: "Nós, trabalhadores da arte, acreditamos que é nossa missão construir pontes e apoiar os que tentam estabelecer sociedades mais democráticas, os que lutam pela transparência e pela verdade. Por isso dedico De Profundis a todos os que se recusam a serem silenciados e entendem que a verdadeira liberdade está dentro de nós." Cadê o papel para os brasileiros também assinarem embaixo?

O CD da Kremerata é de fato diferenciado. São 12 músicas que passeiam entre repertórios do passado - como as transcrições para cordas da Fuga no. 6 sobre o nome de B.A.C.H. opus 60 de Schumann ou o Minueto no. 3 D. 89 de Schubert - e nos mostram a surpreendente Scene with Cranes, do finlandês Jan Sibelius, a única de que participam duas clarinetas. Mas o CD vale sobretudo por duas jovens compositoras que assinam as peças mais ambiciosas, cada uma em torno de 12 minutos. Da lituana Raminta Serksnyté, a Kremerata interpreta um De Profundis memorável, bem ao estilo das músicas contemporâneas do leste europeu.

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