José Patrício/AE
José Patrício/AE

Em Heliópolis com Zubin Mehta

Nervosismo, aprendizado e reencontros no ensaio do maestro no Instituto Baccarelli

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

A experiência artística tem sido fascinante, mas a comida... O arroz e o feijão, ele levou do Brasil; a mistura, no entanto, nem sempre é fácil de encontrar. "Na maior parte das vezes, a gente faz ovo e hambúrguer", conta o violista José Batista Júnior, de 21 anos, durante um intervalo no ensaio no fim da tarde de terça na sede do Instituto Baccarelli, em Heliópolis. Desde 2010, ele mora em Tel-Aviv. Divide um apartamento com outro brasileiro, Emerson Nazário, violoncelista de 24 anos, e um músico espanhol. "No começo, tudo é novo, mas depois de uns meses bate a saudade." Nazário, em Israel desde 2008, entra na conversa. "Demora um pouco até você perceber a dimensão do aprendizado, que vai muito além da música. Tudo acontece junto, ao mesmo tempo."

Batista e Nazário estão entre os sete brasileiros na escola criada em Tel-Aviv pelo maestro Zubin Mehta. Os dois começaram na música no Instituto Baccarelli e estão de volta a Heliópolis desde o começo da semana. Viagem curta, de negócios: hoje à noite, no Teatro Municipal de Paulínia, integram a Sinfônica de Heliópolis em concerto conjunto com a Filarmônica Jovem de Israel. No pódio, Mehta, que, além de ser criador da orquestra baseada em Tel-Aviv, é patrono do instituto localizado em uma das maiores favelas do País.

"É um gesto simbólico", diz o maestro horas antes do ensaio, em um hotel na região da Avenida Paulista. "Não importa a origem, são todos estudantes e estar juntos no palco só reforça a amizade entre músicos. Ao tocar, eles falam a mesma língua, a maior língua do mundo, a arte. Não há poder maior capaz de substituir isso", completa. "Nunca houve tantas e tão boas orquestras jovens no mundo, e a América Latina tem chamado atenção. Não há mistério. Projetos como o de Heliópolis são o futuro. Em um contexto no qual os governos cortam investimentos e cada vez mais vivemos à custa da iniciativa privada, o que é difícil em um momento como o atual, é um alento ver esses jovens, esse novo fôlego para a música clássica. Na Itália e na Espanha, são cortes e mais cortes. Na Inglaterra, bom, as orquestras nunca viveram uma situação confortável. Mas, no que diz respeito ao Brasil, só o que ouvimos é a palavra crescimento, crescimento, crescimento. É preciso aproveitar esse contexto."

Mehta, de 75 anos, vive em Los Angeles, onde passou duas semanas de folga antes de vir ao Brasil, "as primeiras depois do Natal". Dirige grupos importantes, como o Maggio Musicale Fiorentino e a própria Filarmônica de Israel, da qual é diretor artístico vitalício. Indiano, fala em aproximações. Participa de um projeto de educação musical em Ramallah - "Posso ir para lá por conta do meu passaporte indiano". E diz que seu sonho é ver um árabe-israelense na filarmônica. "Juntos, palestinos e israelenses formariam uma potência econômica difícil de ser combatida."

Pouco depois, acompanhado do diretor artístico do projeto brasileiro, o maestro Isaac Karabtchevsky, ele chega à sede do Instituto Baccarelli. É recebido por Batista e Nazário. "Lembra-se deles?", pergunta um dos chefes da sinfônica. Conversam rapidamente. "O inglês deles já está melhor do que o meu", brinca, antes de subir para o camarim. Enquanto isso, na sala de ensaios, os músicos fazem brincadeiras, afinam os instrumentos, testam passagens da peça que logo vão tocar, a Abertura Romeu e Julieta, de Tchaikovski. O nervosismo é visível - e se transforma em silêncio no momento em que, da porta, alguém avisa: "Ele está chegando". Sorridente, Mehta cumprimenta os músicos, sobe ao pódio, diz estar feliz em poder reger as duas orquestras em conjunto. Um breve silêncio. "Então vamos?"

"Malemolência". A música soa por alguns minutos antes que Mehta interrompa pela primeira vez o ensaio. Na fisionomia dos músicos, um misto de apreensão e ansiedade. Aos poucos, o maestro vai ensaiando naipe a naipe da orquestra, primeiro os violoncelos, depois as madeiras. São poucas - e precisas - palavras. Para as trompas, sugere menos acento em determinada passagem. "Fique à vontade aqui, leve o tempo que precisar, eu te acompanho", diz ao oboísta em uma mistura de inglês, português e espanhol, sendo ajudado na tradução por um dos músicos. Pede que a orquestra repita trechos lentamente, para acertar a articulação das notas. Em seguida, voltam ao andamento correto. "Fortíssimo", ele diz, agitando os braços - e a intensidade do som cresce vertiginosamente. Uma pausa. O primeiro sorriso: "Muito bom!"

No intervalo, os músicos, mais relaxados, curtem momentos de descontração. Nazário conta que é a quarta vez que toca sob a regência de Mehta. Virou freguês, brinca Batista. Disfarçando a timidez, o primeiro define: ele é impressionante. "O controle que tem da orquestra é incrível, nunca vi isso. Ele parece um DJ, vai apertando os botões e o som vai saindo do jeito que ele imaginou. Uma vez, toquei com ele o Till Eullenspiegel, do Strauss. Ele batia os dentes, marcando o tempo! Mas não é um cara rígido. Você vê nas passagens mais líricas que ele tem malemolência."

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