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Em Gramado, 'Artigas' revê herói uruguaio e 'Super Nada' surpreende

'Super Nada', do cineasta Rubens Rewald, foi o segundo filme brasileiro em concurso

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

15 de agosto de 2012 | 03h07

GRAMADO - César Charlone torce pela celeste olímpica em Copas do Mundo e pelo Peñarol na Libertadores da América. Mas quer ser visto como brasileiríssimo e tem todo o direito a isso. Vive há 40 anos no País, é sócio da produtora O2, fotografou filmes importantes como Cidade de Deus e fala português sem sotaque - pronunciando inclusive o "ao", prova de fogo para nossos hermanos do continente. No entanto, é com um tema uruguaio que ele participa do Festival de Gramado. Artigas - La Redota é um belo drama histórico que fala de um personagem quase desconhecido para nós, brasileiros: o herói nacional do Uruguai José Artigas (1764-1850).

Artigas lutou na guerra hispano-portuguesa, combateu ingleses aliados dos portugueses e, apesar de derrotado (morreu exilado no Paraguai), transformou-se num dos pais da pátria uruguaia. O projeto, que faz parte de um conjunto de filmes sobre os heróis sul-americanos (Tiradentes será retratado pelo cineasta Marcelo Gomes), não tem qualquer ranço oficial. Charlone aproveita o tema para fazer uma aguda reflexão sobre a História e, sobretudo, como os registros históricos ambíguos são representados para as gerações posteriores.

O recurso narrativo é interessante. A imagem que resta de Artigas é baseada num quadro pintado por Juan Manuel Blanes em 1884. A pintura é uma encomenda oficial. Para reconstituir a imagem de Artigas, Blanes só dispõe de um caderno de esboços deixado por um espião espanhol, Gusmán, que se fez passar por jornalista para infiltra-se nas tropas de Artigas e assassiná-lo.

A história, por si só, já é rocambolesca como uma boa novela de folhetim. Contém, além do mais, uma interessante reflexão sobre o uso de imagens da História. O que se sabe de Artigas é que liderou uma guerrilha formada por pessoas do povo. A certa altura, garante que a riqueza daquele continente não era o ouro ou a prata, mas a gente que o formava. Blanes pinta o Libertador cercado do seu povo - gaúchos, índios, negros. Mas essa não era a imagem oficial que se desejava um século depois. De certa forma, pode-se dizer que a História é tanto reescrita como repintada, com os retoques que a versão oficial julga convenientes. Muito bom.

O segundo filme brasileiro em concurso foi o surpreendente Super Nada, do cineasta e professor da USP Rubens Rewald. A surpresa começa com a escalação do elenco, na qual se vê o cantor de sambas Jair Rodrigues, o "cachorrão" que fazia parceria com Elis Regina no tempo do Fino da Bossa. Ele faz o papel de Zeca, ator que encarna o anti-herói Super Nada, do título. O outro personagem é Guto (Marat Descartes), ator de pequenos papéis, que sonha ser grande e faz todos os testes para ver se emplaca na profissão.

Rewald diz que Jair Rodrigues não era a sua ideia inicial para o papel de Zeca. Mas ao entrar no elenco, o cantor mudou por completo a concepção da história e do seu personagem. "Tornou-se mais popular, com outra entonação", diz o diretor. Jair Rodrigues não veio à serra gaúcha, por questões de agenda.

O que se pode e se deve dizer do filme de Rewald é que ele quase nunca caminha no sentido da expectativa do público. Surpreende. É uma imersão no mundo dos pequenos artistas, dos espetáculos semiamadores que existem fora da grande cena das metrópoles e, talvez por sua condição marginal, abrigam o que de mais criativo nelas existe. É também uma reflexão sobre a arte, o envelhecimento do artista, o ridículo da vaidade do star system e coisas assim. Existe muito pensamento por trás de uma ação simples, porém jamais linear ou previsível. Filme para ver e rever.

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