Em fragmentos, o elogio do inacabado

Volume não apresenta uma tentação frequente na produção do metódico ensaísta - trabalhar com um recurso organizador

Carlito Azevedo, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

Meu luto é o de uma relação amorosa, anota Roland Barthes no dia 6 de novembro de 1977, numa das folhas desse seu Diário de Luto, iniciado a 26 de outubro de 1977, um dia após a morte de Henriette Binger, mãe do autor, e concluído, se é que cabe falar em conclusão diante desse elogio do inacabamento, do não acabado e do que não se acaba, no dia 15 de setembro de 1978. "Meu luto é o de uma relação amorosa", anota, e já se estabelece desde aí o estatuto contraditório da linguagem: ela é deficiente, porque sempre diz menos do que pensa estar dizendo; e ela é exuberante, porque sempre dá a entender mais do que pensa estar dando a entender. Dizer e dar a entender o luto é a luta mais vã, este Diário não temerá nem se iludirá com as possibilidades de dizê-lo. "Meu luto é o de uma relação amorosa", diz o Diário, esse livro enfim em fragmentos, "sem a aresta autoritária do aforismo" (Derrida), sem a tentação sempre presente (mesmo em Barthes) de algum recurso organizador, o projetado livro de anotações onde a anotação funcionasse como "estraga-prazer" do discurso construído, o livro de frases pulverizadas, de imagens pulverizadas, de pensamentos pulverizados, "dos quais nenhum "pegasse" definitivamente". Um livro impressionante e banal, dado que nada mais banal do que a morte, e nada mais espantoso do que "um sujeito devastado" pela perda do ser amado, tendo que se submeter à "presença de espírito", na ilusão de fazer o luto, já que inextinguível, ao menos passar de um estado estático a um estado fluido. Ilusão de resolver a proustiana e "incompreensível contradição entre a lembrança e o nada", e sonhar, como se lê na anotação do dia 9 de junho de 1978, uma espécie de harmonia possível entre o que foi o ser amado e a sua existência em um túmulo.

Os leitores que, além da obra, amam conhecer (suspiram por) aquilo que pudesse ser considerado a obra em estado puro, seu magma, submetendo-se assim ao mito de uma "verdade da obra" oculta em seus rascunhos, nas idas e vindas de uma ideia que luta para se constituir como ideia (não seremos todos nós esses leitores?), talvez gostem de saber que esse Diário de Luto é uma espécie de "fonte" (com toda a problematização que a palavra inclui) de pelo menos três volumes fundamentais de Roland Barthes: seu último livro publicado em vida, A Câmara Clara e os volumes dedicados aos dois cursos apresentados no Collège de France: O Neutro e A Preparação do Romance.

É mesmo curioso descobrir como, bem antes de A Câmara Clara nos anunciar a existência da célebre foto do Jardim de Inverno, punctum inequívoco do livro sobre a fotografia, uma anotação de 17 de maio de 1978 desse Diário já premedita e insinua, curiosamente a partir do cinema, tão oposto à fotografia n" Câmara Clara (a oposição "do que passa" e "do que houve"), o conceito de punctum: quando, dos fotogramas de um filme "estúpido e grosseiro" sobre o caso Stavisky (Studium), salta e punge, fere e pontua os olhos de Barthes, a imagem de um lustre com abajur plissado e cordão pendente: "Mam. fazia desses abajures (...). Ela inteira aparece diante de mim".

Devastado é a palavra para descrever o autor desse diário. Que só sente em si o desejo de "construir" algo na região em que identificava a existência de sua mãe, ou seja, de certo tipo de nobreza especial, que ele só vê na literatura, e que nada pode ofender mais do que a vida estúpida, que continua ao redor, sobrevive ao que houve de belo, na figura de uma auxiliar grosseira, ou na de uma entediada figura feminina presente em um lançamento numa livraria revelando o estereótipo social aos olhos acurados de quem passa a flanar pelas ruas reparando no que é feio e no que é bonito: a neve cai em Paris e não se pode chamar o ser amado para ver a neve cair em Paris; andorinhas cruzam o céu noturno de Casablanca e, diante dessa visão, barbárie parece ser não acreditar na mentira da "imortalidade da alma", e trocá-la pela "verdade imbecil do materialismo".

Num diário, o tempo se faz observável como o grão de açúcar mil vezes repetido no olho da mosca, e em cada repetição trazendo uma ligeira nuance. A passagem do tempo aqui pode ser marcada, diariamente, como alívio, pelo barulho do lixo sendo recolhido ("lá fora, no escuro"), sinal de que a noite já se vai, e com ela os sofrimentos noturnos da mãe; o tempo é ainda a única coisa que, morta a "Razão" de meu viver, ela, me separa de minha morte; mas principalmente, tempo é, aqui, o que não desgasta o luto, desgasta apenas uma de suas aparências: a emotividade. Ou será esta apenas mais uma ilusão que a seta sem alvo e direção do diário logo irá corrigir? "A emotividade voltará, você verá, fresca como no primeiro dia." Como o medo ("medo do que já aconteceu" é a frase de Winnicott tantas vezes repetida no Diário que também "ascenderá" ao livro oficial de homenagem à mãe: A Câmara Clara, face clara de que o Diário é a sombra.)

O crítico capaz dos títulos mais belos do ensaísmo recente, O Grau Zero da Escritura, A Câmara Clara, O Óbvio e o Obtuso, Viver Junto, Fragmentos de um Discurso Amoroso, O Grão da Voz, O Rumor da Língua, encerrou seus trabalhos com O Diário de Luto.

CARLITO AZEVEDO É POETA, AUTOR DE, ENTRE OUTROS, MONODRAMA (7 LETRAS)

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