Em forma de oração

Aos 8 anos Lenine deixou de ir à missa aos domingos com a mãe. A partir dessa idade, o pai dava uma opção aos meninos, eles podiam se comunicar com o Divino indo à igreja com ela ou ouvindo música em casa ao lado dele - numa casa de cristãos macumbeiros comunistas se ouvia de tudo. Dos eruditos às canções napolitanas, de Glenn Miller aos sucessos de Orlando Silva e Luiz Gonzaga.

Patricia Palumbo & MPB, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

Sincretismo religioso e diversidade musical têm a mesma raiz e temos tudo isso de sobra neste nosso Brasil mulato onde os tambores do candomblé têm a ver com a gênese do samba.

Assisti a Elza, filme de Isabel Jaguaribe e Ernesto Baldan. Fiquei emocionada com o retrato amoroso que ali se apresentou de Elza Soares e seu canto. Não é um documentário linear, com foco na biografia, mas sim na música. E não é que falte história porque a vida dessa mulher é mesmo dessas que têm tudo pra virar filme, livro, lenda. E disso ela mesma se encarrega contando e recontando coisas como seu encontro com Ary Barroso no programa de calouros da Rádio Nacional, onde ela dá sua primeira volta por cima. O apresentador, já um ícone do rádio e da música, debocha da menina maltrapilha e pergunta de que planeta ela teria vindo. A menina responde sem pestanejar que é do planeta fome e canta barbaramente. Essa já é uma história bem conhecida. A que mais me pega é a do dia em que seu santo de devoção lhe apareceu como um soldado lindo. Seu Jorge conversou com Elza Soares, que tinha 5 anos, ao lado de Oxóssi, que segundo ela conta, não quis muito assunto. Uma delícia. Como diz Caetano Veloso no filme, não importa o que é verdade, os fatos dizem menos a respeito da pessoa do que a maneira que ela escolhe para os contar.

E Elza Soares se reinventa musicalmente a cada disco. Fez samba cheio de balanço com Miltinho e Wilson das Neves, bota acento jazzy, faz scat, puxa samba-enredo na avenida. Grande cantora é pouco.

No filme, tudo na opção estética dos diretores me fez lembrar da religiosidade da experiência musical. O vermelho, a teoria das iabás, música como salvação, expressão da dor e da alegria. Bethânia e Elza cantam juntas o Samba da Bênção numa sessão de improviso entre duas artistas plenamente conectadas com o divino. Bethânia até mais explicitamente com seus cantos de devoção e Elza no exemplo de sobrevivência através da música.

E música serve pra quê? Pra baixar o santo. Pra transformar. Pra divertir. Elza Soares faz tudo isso quando canta. E ela canta o que quer. Seu jeito de dividir sem perder o ritmo se presta a clássicos como Se Acaso Você Chegasse, de Lupicínio Rodrigues, e a desafios eletrônicos como Computadores Fazem Arte, de Fred 04. Com Paulinho da Viola ela incorpora a nobreza do samba cantando A Flor e o Espinho, de Nelson Cavaquinho, e logo depois aparece num baile funk totalmente à vontade.

Na gravação de Elza, de Itamar Assumpção - uma das inéditas do projeto Caixa Preta, ela deixou o produtor Beto Villares de queixo caído, pra dizer o mínimo. Deu a alma. Cantou completamente entregue. Quem viu, sabe. A entrega é o caminho para a transcendência, é o transe. E isso é uma qualidade que vai além de ter ritmo, técnica vocal, afinação. Isso é nato. É aquele tipo de coisa que não se explica e que vem no sangue de cantoras como Elza, como Cássia Eller, Elis Regina, Dalva de Oliveira, da jovem baiana Marcia Castro quando está no palco. É aquilo que faz do cantor um ser diferente.

E os bons compositores sabem disso, dessa conexão com o divino através da música. Sabem que vai além da compreensão, do palpável e por isso rendem suas homenagens. Como fez Vinicius no já citado Samba da Bênção, como fez Caymmi tantas vezes com seus pescadores devotos, Caetano Veloso orando para o tempo, Gilberto Gil com sua deusa música. Exemplos não faltam. A música ajuda a viver. Voltando a Elza Soares, a sua biografia escrita por José Louzeiro se chama Cantando para Não Enlouquecer. O livro foi publicado em 1977 e é dificílimo de achar. Uma pena.

Na composição Minha Música, Adriana Calcanhotto diz que sua música não quer ser útil, mas é. Todas são. Pra quem canta e pra quem ouve. Quem há de negar a força dos mantras indianos, de um canto gregoriano, de um bom batuque no terreiro? Quem é que não cantou pra Iemanjá junto com Clementina de Jesus ou Clara Nunes? Cantar pra protestar, pra pedir liberdade ou pra se sentir livre.

Elza Soares e Lenine aprenderam ainda crianças, mas nunca é tarde. No vasto repertório da música popular brasileira não faltam canções em forma de oração. Escolha a sua e cante bem alto. Pra ouvir uma seleção com Elza Soares cantando muito, visite o blog: http://patriciapalumbo.com.

PATRICIA PALUMBO APRESENTA O PROGRAMA VOZES DO BRASIL NA RÁDIO ELDORADO BRASIL 3000 (FM 107,3), AOS DOMINGOS, ÀS 2OH, COM REPRISE ÀS QUINTAS, À OH

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