Em filme sobre o visível, o testamento de Cakoff

A convite da Mostra, dez cineastas filmaram sua "visão da invisibilidade", tomando São Paulo como ponto de partida. A ideia é que o visível não se dá de imediato mas perde-se no caos das sensações saturadas no mundo contemporâneo. Cabe ao cinema trazer à luz o que foi soterrado pelo excesso. Reuniu-se um time de cineastas para variar em torno do tema: Manoel de Oliveira, Jerzy Stuhr, Guy Maddin, Gian Vittio Baldi, Marco Bechis, Wim Wenders, Maria de Medeiros, Theo Angelopoulos, Atom Egoyam e Laís Bodanzky.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h09

Na impossibilidade de comentar todos os episódios, limitamo-nos a dizer que, como todo filme do gênero, também Mundo Invisível tem seus altos e baixos e, neste caso particular, uma joia rara - justamente o episódio dirigido por Atom Egoyam que tem o diretor da Mostra, Leon Cakoff, como protagonista. É o último dos dez filmes de que se compõem o longa-metragem.

Antes dele, Cakoff já atuava no primeiro, Do Visível ao Invisível, de Manoel de Oliveira, no qual tenta um diálogo impossível, em plena Avenida Paulista, com Ricardo Trêpa, neto do diretor português. A conversa, ou sua tentativa, é, o tempo todo, interrompida pelos celulares dos interlocutores. À sua maneira, Oliveira indaga sobre o que foi feito do diálogo entre seres humanos nesta época que, por ironia, se define como a era das comunicações.

Interessante também Fábula - Pasolini em Heliópolis, em que Gian Vittorio Baldi revela que o diretor Pier Paolo Pasolini desejava filmar a vida do apóstolo Paulo na periferia de uma grande cidade - e que esta bem poderia ter por locação a favela paulistana. Em Ver ou Não Ver, Wim Wenders visita uma escola para crianças com visão parcial, que as ensina a usarem desde cedo sua visão residual.

Mas a cereja no bolo é mesmo Yerevan - O Visível, de Atom Egoyam. Aqui, um homem, Cakoff, vai a Yerevan, capital da Armênia, para resgatar a história do avô desaparecido. A narração, em off, é do próprio Cakoff, enquanto ele aparece, na tela, sentado numa praça, portando o cartaz no qual procura pelo antepassado. História de imigração, memória do massacre dos armênios, lutas passadas e presentes, devidamente recalcadas e que são trazidas à tona. Exercício de memória, no qual indivíduo e história se mesclam em depoimento comovente, testamento do criador da Mostra de Cinema de São Paulo, morto uma semana antes de começar esta edição.

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